Volto depois de muito
tempo com o “avô” da fantasia moderna. Lilith foi escrito por George
MacDonald em 1895. Será que é bom? Vamos descobrir:
Vane herdou uma casa dos pais e aproveitava sua
biblioteca, até que numa tarde, avistou um velho desconhecido pegando um dos
livros. Como este desapareceu, acreditou que não passasse de uma ilusão, mas ao
ir em direção onde estava o livro, viu que este havia realmente sumido. Na
manhã seguinte, o objeto estava de volta ao seu lugar. Porém, três dias depois, o mesmo fenômeno
voltara a acontecer, só que com um livro que estava preso e ninguém nunca
conseguiu tirar. O mordomo lhe contou sobre a lenda do senhor Corvo, um antigo
bibliotecário que servia o senhor Ascendente, um homem que lia de tudo, até que
os dois sumiram, e disse que esta aparição que Vane vira era o senhor Corvo.
Semanas depois, ele o viu novamente e o seguiu até um sótão. O velho sumira de
novo. No local, havia um espelho que não refletia e sim mostrava um local
selvagem. Vane achou que fosse uma pintura, até que avistou um corvo se mexer
lá dentro e ao se aproximar, começou a cair de uma grande altura...
Como você espera que seja a escrita do autor que foi
mentor de Lewis Carroll (Alice no País das Maravilhas)? Como devia
esperar do escritor de Phantastes, Lilith tem uma narrativa nonsense,
que só começa a fazer sentindo no meio até que chega no final e volta a ser nonsense.
Este
livro também é classificado como ficção cristã, contendo personagens da Bíblia
que não irei mencionar para não dar spoilers. Mas uma figura que posso comentar
é a de Lilith. Existe um mito de que ela foi a primeira mulher de Adão apesar
da Bíblia nunca mencionar o seu nome. Há esta interpretação devido a uma
passagem bíblica que Deus menciona que criou um homem e uma mulher e em outro capítulo
especifica que criou Adão e das costelas dele, criou Eva. Na história do Alfabeto
de Bem Sirach (entre 700 e
1000 d.C), Lilith é mulher de Adão, que o abandona e
se junta a espíritos do mal. Três anjos tentam buscá-la e ameaçam matar cem
filhos dela se ela não voltar. Ela recusa e os anjos ameaçam afogá-la. Ela
recusa novamente, dizendo que foi criada para causar doenças em bebês. Ela faz
o juramento aos anjos que aceitaria ter cem filhos dela mortos e se visse os
nomes dos três anjos, não faria mal a nenhum bebê. Essa é uma explicação do
porquê os judeus faziam amuletos com o nome desses anjos para proteger os
bebês. O autor deve ter se inspirado nessa história para criar a vilã do seu
romance.
Agora
que falei da vilã, nada mais justo do que eu comentar do mocinho. O senhor Vane
(traduzido como Catavento em português. Prefiro o nome original e é este que
usarei para mencioná-lo) é com quem o leitor irá se identificar nesse mundo
estranho. Seria o equivalente a Alice quando entra no País das Maravilhas, a
pessoa normal que tem que lidar e se adaptar num mundo estranho. Faz perguntas,
mas só recebe enigmas em respostas. Outro personagem que se destaca é o senhor
Corvo, que serve como guia e mentor para o protagonista. Ele é típico homem
misterioso cujas respostas apenas confundem o herói. Não gostei desse
personagem.
Outra
coisa interessante de se comentar é como esse livro demonstra a crença
religiosa do autor. George MacDonald era cristão universalista e acreditava que
todas as almas seriam salvas, mesmos as ruins, passariam por um processo de
purificação antes de irem para o céu.
Devido a este livro se passar num mundo fantástico
estranho, onde minhocas que saem da terra podem voar, certos aspectos podem ser
interpretados de várias formas pelo leitor. Por exemplo, o senhor Vane encontra
em sua jornada um grupo de crianças (os pequeninos) que não cresciam e, se
crescessem, se tornavam gigantes burros e maus. Interpretei como uma metáfora
para o crescimento, onde a criança começa e inocente e pura e quanto mais
cresce, mais peca e sua inocência vai desaparecendo. O senhor Vane teve medo de
ensinar coisas para os pequeninos devido a esse acontecimento, mas ele aprende com
o senhor Corvo que não é o conhecimento em si que é perigoso e sim o grau de
importância que é dado a ele que pode ser nocivo.
O livro tem uma temática interessante, mas por entrar
muito nesse território nonsense, ele fica confuso e chato para quem não gosta
desta loucura, que é o meu caso. Mesmo que seja um livro dirigido ao público
infanto-juvenil, indico que leia As Crônicas de Nárnia para quem deseja
ler uma fantasia cristã mais pé no chão. Se ainda assim deseja conhecer este
livro, abra a porta para este mundo, só tenha cuidado com os monstros que
encontrar na floresta.

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