sexta-feira, 5 de junho de 2026

A Idealização do Outro

 


            Quando foi a última vez que trouxe um clássico brasileiro para o blog? Já faz um tempo não? Senhora foi publicado pela primeira vez em 1874, no formato de folhetim, e lançado como livro um ano depois. Foi escrito por um dos grandes autores do romantismo brasileiro, José de Alencar. Será que é bom? Vamos descobrir:

            Aurélia Camargo é uma moça que roubava a atenção de vários homens. Mas por achar que a queriam por sua riqueza, desdenhava deles. Ao ver que uma colega sua ficou noiva de um homem que não amava, Aurélia decide tomar este noivo para si oferecendo uma quantia maior de dote, mas pedindo a seu tio e tutor, Lemos, que deixasse o seu nome em segredo. Porém, neste ato de bondade, Aurélia esconde uma razão egoísta...

            Desta vez, farei diferente. Ao invés de começar pela análise da história, iniciarei pela descrição dos personagens. Como dito no resumo acima, Aurélia é uma moça independente, que desdenha daqueles que preferem a riqueza ao amor e por trás de sua máscara irônica, esconde uma mulher romântica. Quanto a Fernando Rodrigues de Seixas, o homem com quem a jovem se casa, é o seu primeiro amor, e apesar de ter trocado seu amor por Aurélia para casar por interesse, ainda possui um certo orgulho que faz cumprir com seu compromisso. O foco nos outros personagens é menor. As irmãs e mãe de Seixas serviram para mostrar as dificuldades financeiras que ele passava e o porquê de procurar uma noiva com grande dote, mas só tiveram aparição genuína em um capítulo. Isso também ocorre com Lemos, o tio interesseiro de Aurélia, que foi relevante para trama do casamento e para o passado de Aurélia. Depois, perdeu a importância. D. Firmina só serve como uma viúva que acompanha a moça. Adelaide Amaral e Eduardo Abreu, ex-noiva de Seixas e antigo pretendente de Aurélia respectivamente  só servem para fazer ciúmes ao casal.

            Como deu para perceber pelo parágrafo acima, a história foca no relacionamento de Aurélia e Fernando, o que não é de se surpreender, pois o livro é um clássico do romantismo brasileiro. Ambos começam seu casamento mal pois ao descobrir que foi “comprado” por Aurélia, Fernando cumpre o acordo, só obedecendo o que a moça deseja quando esta o ordena, sem lhe dar o amor que a jovem desejava. Enquanto Aurélia, queria que este se desculpasse por tê-la deixado não por amor a outra, mas sim pelo dinheiro e, como ele é muito orgulhoso, não o fez. Então, Aurélia acabava fazendo algumas vingancinhas para irritá-lo. A lição do livro é clara: casamento por interesse não traz felicidade. Apesar dos dois se amarem, o dinheiro e a “compra” os fizeram amargos um com o outro.

Porém, outra coisa me chamou a atenção que foi a idealização de Aurélia com relação ao amor: “Aurélia amava mais seu amor, do que seu amante; era mais poeta do que mulher; preferia o ideal ao homem”. Isso de esperar que seu amado seja do jeito que você imaginou ao invés de quem ele é verdadeiramente,  é algo que várias mulheres fazem e acabam se decepcionando. Aurélia quis se casar com seu primeiro e único amor esperando que acontecesse tudo do jeito que ela queria só para se decepcionar depois. Para um livro da era do romantismo, ele é bastante realista.

            Senhora faz parte dos três romances urbanos de Alencar, junto com Lucíola e Diva. Este último é mencionado na obra, tendo sido lido pelos protagonistas, com Fernando achando a mocinha pouco realista e Aurélia discordando dele, dizendo que se alguém contasse a história deles, também soaria inverossímil. Não sou contra esse tipo de artimanha, só acho que seria mais fascinante para o fã dessas histórias que os personagens de Diva existissem no mesmo mundo que os de Senhora. Algo interessante é que o narrador comenta que a história de Aurélia seria escrita por este mesmo autor, como se o que tivesse ocorrido no livro fosse real.

            Esperava mais dessa história. Apesar do final feliz, achei que teve poucos momentos de Aurélia e Fernando se amando para merecer este final. Mas se você deseja começar a ler clássicos brasileiros, este é um dos mais fáceis de entender. E por se tratar de um clássico, existem várias edições. Apesar da letra ser bem pequena, a minha edição  contém curiosidades no final sobre o autor e a obra. Então, escolha com carinho e deixe de lado o seu valor monetário.


sexta-feira, 29 de maio de 2026

Dois Irmãos

 


                Lá vou eu fazer a resenha de um livro que era para ter lido na época de faculdade, mas só li agora. Dois Irmãos foi escrito por Milton Hatoum no ano 2000. Do que será que ele se trata? Vamos descobrir:

            Yaqub e Omar são gêmeos, descendentes de libaneses, que moram em Manaus. Apesar da aparência idêntica, Yaqub é mais introvertido, estudioso e tem uma cicatriz no rosto feita por Omar devido a ciúmes, enquanto este último é um garoto problema mimado. Quando Yaqub voltou ao Brasil após passar cinco anos no Líbano, sua relação com Omar parece não ter melhorado...

            A estrutura do livro não é linear. O narrador, que é filho da empregada, vai e volta na contação da história. O primeiro capítulo começa com a morte de um dos membros da família enquanto o segundo conta sobre a infância dos gêmeos, em que a pessoa ainda era viva. Por ser um narrador personagem, grande parte do livro é contada sobre sua perspectiva e, o que ele não vivenciou, foi lhe contado por outros personagens. A história, como disse acima, acontece em Manaus e vai do início do século XX até a ditadura militar. Por isso, senti um pouco de dificuldade com o nome de animais e plantas dessa região, além de algumas palavras em árabe, devido a descendência libanesa da família.

            Apesar do título, a história não foca apenas nos irmãos, e sim na família como um todo. Ela é completamente disfuncional. Já comentei sobre os Dois Irmãos do título no resumo. Então, dedicarei este parágrafo aos outros membros da família. O patriarca Halim nunca quis ter filhos e só os teve devido a uma promessa que fez a esposa. Apesar disso, ele se dá bem com Yaqub e Rânia. Mas tem uma relação péssima com Omar, que além de ter uma personalidade “bon vivant” e não quer nada com nada, é muito agarrado com a mãe, Zana, que desde que Omar era novo, superprotege o filho devido a este ter nascido com problemas de saúde. Ela não deixa que ele namore sério com nenhuma mulher. Rânia, a irmã mais nova, parece ter uma admiração incestuosa com os gêmeos. Domingas é uma indígena que foi “adotada” para ser a empregada da casa, e infelizmente, nunca conseguiu voltar para sua aldeia. E por último, o narrador, filho de Domingas, que suspeita que um dos gêmeos seja o seu pai.

            Não é um livro que te traz uma sensação boa. Há muitos conflitos entre os familiares, raiva, ciúmes, rancor e será assim do começo ao fim. A minha opinião sobre ele é a mesma que sinto com relação aos textos de Clarice Lispector: é bem escrito, mas me traz desconforto. Por isso, não sei se devo recomendar ou não. Se a minha resenha te atraiu para o livro, vá em frente. Espero que o romance não te deixe no mesmo estado de Yaqub quando este voltou do Líbano.


sexta-feira, 15 de maio de 2026

Releitura Asiática de Os Seis Cisnes

 


Já ouviram falar do conto Os Seis Cisnes* dos irmãos Grimm? Ele envolve uma princesa que deve costurar seis camisas feitas de flor para quebrar a maldição de seus irmãos, que foram transformados em cisnes por sua madrasta, e tudo isso, sem que ela pudesse dizer uma palavra sequer. Sabia que esta história possui uma releitura com elementos asiáticos? Os Seis Grous foi escrito por Elizabeth Lin em 2021, sendo lançado no Brasil em 2022. Ele possui uma sequência chamada A Promessa do Dragão e uma prequela com o título Uma Maldição Dourada. Será que a leitura valeu a pena? Vamos descobrir.

            A princesa Shiori era a mais nova de sete irmãos e estava indo para sua indesejada cerimônia de noivado.  Mas escondida em suas vestes estava Kiki, um pássaro de papel que a jovem dera vida usando magia, algo proibido em sua nação. Kiki escapou e com medo de ser descoberta e punida, Shiori foi atrás dela, indo parar no Lago Sagrado. A moça nadou até lá, porém, suas vestimentas a puxaram para o fundo e lá ela viu um dragão...

            Além dos Seis Cisnes, várias histórias e lendas asiáticas foram mencionadas na história, como a lenda do coelho da lua, que é o símbolo do clã Bushian, a lenda da Princesa Kaguya e o mito do fio vermelho do destino. Mas o que mais me surpreendeu foi a menção do Pote Vazio, um conto chinês em que o imperador dá a cada criança uma semente para plantar uma flor e quem plantasse a flor mais bonita dentro de um ano, seria o seu sucessor. Todos plantaram belas flores, menos um garoto, que tentou de tudo, mas nada brotou. O imperador o escolheu devido a sua honestidade pois as sementes que havia dado eram de mentira, indicando que as outras crianças roubaram na competição. Este livro tem uma releitura legal que combinou com a história.

            A história por si só, é o que se espera de uma fantasia juvenil focado para um público feminino, com uma protagonista de personalidade forte e a única de seu povo com a habilidade de realizar magias, um romance e um provável triângulo amoroso. O livro termina em aberto dando margem para sua sequência.

Quanto aos personagens, como dito acima, a princesa Shiori, tem personalidade forte e arrogante, mas teve que passar por uma jornada que a deixou mais humilde e a valorizar as pequenas coisas. Algo que pode se destacar é seu interesse por comida. Seus seis irmãos são diferentes o suficiente para sabermos diferenciá-los. Kiki, o grou de origami é a amiga confidente de Shiori que coloca bom senso em sua cabeça. Seryu é um dragão arrogante que se importa com a princesa e foi seu mentor por um tempo. Ele não apareceu muito nesse livro, porém é bem provável que o vejamos mais na sequência. Takkan, o noivo prometido que Shiori se recusa a conhecer e deseja que desapareça da sua vida. Porém, ele provou não ser o bárbaro que a princesa havia imaginado. A primeira antagonista, Raikama, madrasta de Shiori, não é o que parece ser. Os outros antagonistas são genéricos, vilões típicos que querem poder.

            O livro é cheio de clichê? Sim, mas depois de ter lido Lilith de George MacDonald, ler algo mais simples e familiar ajudou a relaxar. Os Seis Grous é um bom livro para o público designado, apesar de não ser perfeito. Veremos se melhora na sequência. Nos encontramos no Reino dos Dragões.

 

* Vídeo do conto dos Seis Cisnes narrado por mim e ilustrado por Maya Flor: Os Seis Cisnes dos Irmãos Grimm


sexta-feira, 1 de maio de 2026

O Castelo no Espelho

 


                Gostam de um livro que faz referências a contos de fadas? Então é bem provável que esse livro seja para você. O castelo no espelho foi escrito por Mizuki Tsujimura em 2017, sendo lançado no Brasil em 2024. O romance teve uma adaptação cinematográfica em formato de anime em 2022 no Japão, que infelizmente não consegui assistir.

               Kokoro deixou de ir para a escola devido ao bullying que ela sofria. Ela vivia em seu quarto assistindo televisão, até que seu espelho começou a brilhar. Ao tocá-lo, ele a transportou para um castelo magnífico com uma estranha garotinha usando máscara de lobo. Kokoro quis voltar para casa, mas a menina-lobo a agarrou, dizendo que se ficasse, poderia realizar um desejo...

               Como disse no primeiro parágrafo, este livro traz muitas referências aos contos de fadas, que também são ditas pela boca da própria protagonista, que é fã dessas histórias. Mas os dois contos mais mencionados são A Chapeuzinho Vermelho e O Lobo e os Sete Cabritinhos*, sendo este segundo escrito pelos irmãos Grimm e é bastante popular no Japão, onde a história se passa. Aconselho a ler este último para melhor entendimento. Clássicos como Alice no País das Maravilhas, As Crônicas de Nárnia e Harry Potter também são mencionados.

            A história mistura a realidade com a fantasia, em que a protagonista sai de sua vida normal e vai para um local diferente, e este lugar se torna literalmente, a sua forma de escape. Mas também a ajuda a lidar com seus problemas através da conversa e da amizade que ela forma com os outros competidores que estão em busca da chave. Dentre os dois, o livro foca mais no drama dos personagens e suas relações enquanto a fantasia fica como pano de fundo, o que pode deixar aqueles que esperavam encontrar seres mágicos e outros desafios fantásticos decepcionados, pois não há nada disso aqui.

            Quanto aos personagens, os que mais se destacam são os jovens que competem pela chave. Kokoro, a protagonista, é uma menina tímida que gosta de ler, jogar e assistir novela. Fuka é introvertida, séria e não tem medo de dizer algumas verdades na cara. Aki é extrovertida, mas um pouco problemática. Masamune é um garoto sarcástico, viciado em jogos. Ureshino é um garoto gordinho que se apaixona facilmente e não tem medo de se expressar. Subaru é um garoto calmo e Rion é o mais atlético. Tanto ele quanto o Subaru são os mais genéricos do grupo em termos de personalidade. De importância, obviamente a Kokoro vem em primeiro por ser a principal, seguida por Rion e Aki. Os outros tiveram um tempo razoável para brilhar, com exceção de Subaru, que poderia ter tido um pouco mais de desenvolvimento.

               O livro tem um final agridoce, porém, sua leitura valeu a pena, por isso o recomendo para jovens e adultos. E lembrem-se: se tiver em um dia ruim, dê uma olhada no seu espelho. Talvez ele brilhe e abra uma passagem para outro mundo.


*Se desejam conhecer mais dessa história, assistam este vídeo: O Lobo e os Sete Cabritinhos dos Irmão Grimm