sexta-feira, 2 de outubro de 2026

Revivendo o Passado

 


                 Sabiam que o famoso filme Jurassic Park de 1993 é a adaptação de um livro? Se não sabiam, agora sabem. O livro de mesmo nome foi escrito por Michael Crichton em 1990 e é o primeiro de uma duologia. Será que é bom? Vamos descobrir.

            O final do século XX foi o começo da era da biotecnologia, principalmente a engenharia genética. Mas isso cresceu de forma descontrolada, com o surgimento de várias empresas que faziam experiências sem a devida segurança. Uma delas foi a International Genetic Technologies, a InGen, que foi responsável por um incidente que aconteceu numa ilha da Costa Rica...

            Já pela capa e pelo título, pode-se assumir do que se trata a história, mesmo que esta tenha tentado manter um certo mistério no começo do livro. A temática envolve trazer os dinossauros de volta a vida e como o uso do conhecimento científico pode ser perigoso nas mãos de pessoas gananciosas. O ser humano brincar de Deus, a evolução tecnológica sem controle e os danos que o ser humano faz ao meio ambiente por cobiça são críticas bem comuns em obras dos anos 90, a década que este livro foi publicado. Mas esperava um pouco mais de originalidade com relação a quem sobreviveria nesse incidente. Não vou revelar spoilers, porém devo dizer que a resolução foi bastante previsível.

            A história tem vários personagens, com seus pontos de vista, sendo que alguns deles só aparecem no começo e depois desaparecem completamente da narrativa. Dos principais, temos o paleontólogo Alan Grant; sua aluna de paleobotânica, Ellie Sattler; John Hammond, velho excêntrico que criou o parque; Donald Gennaro, advogado que vai inspecionar o parque, e é conselheiro da InGen; Ian Malcolm, um matemático mais moderno, que se veste de maneira mais excêntrica, todo de preto; Dennis Nedry, o programador; Henry Wu, cientista que trabalha para Hammond; John Arnold, engenheiro chefe do parque; Robert Muldoon, caçador experiente que ajuda na guarda dos dinossauros; Ed Regis, gerente de relações públicas; Tim e Lex Murphy, netos de Hammond. Dentre todos esses personagens, diria que Grant é o principal protagonista e Hammond seria o vilão principal por ter financiado a criação dos dinossauros e persistido com a ideia mesmo ela se comprovando como perigosa e ter colocado em risco a vida de várias pessoas, incluindo a de seus netos. Os outros cumprem bem seus papeis, porém tenho minhas ressalvas. O discurso de Ian Malcolm sobre como a probabilidade do parque dar errado era alta foi interessante no começo, mas ficou chato depois de ele repetir outras vezes. E achei as crianças bem irritantes. Enquanto Lex engloba o estereótipo da criança mimada que só causa confusão e atrai o grupo para problemas, Tim já é oposto, sendo a criança boa, fã de dinossauro e útil em certos momentos em contrapartida com sua irmã. Admito que torci um pouco para que eles fossem devorados pelos dinossauros para causar mais drama.

            Quanto a parte científica, acredito que por ter se formado em medicina, o autor tenha grande gosto pela ciência, pois ele menciona alguns fatos e pessoas verídicas em sua obra, como por exemplo os cientistas James Watson e Francis Crick, que decifraram a estrutura do DNA, e a discussão dos dinossauros serem mais próximos as aves do que dos répteis, por serem em sua grande parte bípedes, possuírem uma grande velocidade similar às aves, provável inteligência de caça das aves e provável sangue quente. Isso traz mais realismo a sua história, mesmo que ele tenha inventado algumas coisas, como o dilofossauro possuir peçonha. Por ter sido escrito nos anos 90, muitas descobertas que vieram depois fizeram com que os acontecimentos do livro sejam impossíveis de acontecer, como extrair DNA esmagando os ossos fossilizados, extraindo a proteína e completando com o DNA encontrado do sangue sugado pelos mosquitos presos no âmbar e genes de outros animais para completar a cadeia de DNA dos dinossauros. Foi comprovado que o DNA tem vida útil e pode desaparecer depois de alguns milhões de anos, o que pode deixar a possibilidade de recriar dinossauros ainda mais difícil na vida real.

            Apesar de achar que poderia ter mais elementos de tragédia e terror e que a história pudesse ser condensada um pouco, diminuindo o número de personagens, achei o livro interessante. Não lerei sua sequência, O Mundo Perdido, devido a alguns spoilers que soube. Esta continuação foi criada após o sucesso do primeiro filme e desfaz a morte de um personagem porque este sobreviveu no filme enquanto matou outro de forma ridícula. Parece que ela foi escrita apenas com o dinheiro em mente ao invés de querer dar um legado digno para o romance. Por isso, fico por aqui. E lembrem-se: se querem um parque de dinossauros, vão para o parque da Universal. Animatrônicos são bem menos perigosos.

 


sexta-feira, 11 de setembro de 2026

Fadas: Histórias de Seres Encantados

 


        Vocês sabem onde vivem as fadas? Quais são suas espécies? Que tipo de atividades gostam de fazer? Este livro irá te responder grande parte dessas perguntas. Fadas: Histórias de Seres Encantados foi publicado em 1978. Seus autores, que também foram responsáveis pelas ilustrações da obra, são Brian Froud, que fez as artes conceituais dos filmes O Cristal Encantado e o Labirinto, e Alan Lee, que ilustrou vários livros do Senhor dos Anéis.

            Este livro não conta uma história específica. Ele descreve sobre o mundo dos encantados (seres mágicos) e suas características, como por exemplo, o quanto o tempo se passa mais devagar no mundo das fadas em relação ao nosso e que comer algo delas pode te tornar um escravo, proibido de retornar ao mundo humano. No caso das espécies, o foco é nas lendas europeias, mas percebi que a variedade em suas aparências pode se aplicar a seres do folclore brasileiro, como o fato das criaturas sempre possuírem alguma anomalia física, como membranas entre os dedos, cascos de bode, orelhas pontudas, rabo de vaca e pés virados para trás, o que me fez lembrar o Curupira. Além disso, os encantados são relacionados à natureza e sua imprevisibilidade, sendo vários deles travessos, como o Saci, ou atraindo humanos com sua beleza e encanto, como a Iara.

            Apesar de não ter uma narrativa específica, o livro possui várias histórias que complementam as descrições dos seres mágicos. Vou destacar as que me chamaram a atenção: a primeira é A lenda de Knockgrafton, que me fez lembrar do conto Os dois papudos do livro Lendas e Fábulas do Brasil*; a segunda é a lenda do homem que se casou com uma gwragedd annwn (uma fada da água galesa), mas que ela iria embora se ele a agredisse três vezes sem motivo. Essa história mostra que seres encantados tem uma interpretação diferente do que é “agressão”; e a história de uma parteira que sem querer desfez o glamour (ilusão que os encantados fazem para nos enganar) ao ungir os olhos do bebê com uma pomada encantada e sem querer, coçar a pomada em seu olho. A história também contém relatos de pessoas que realmente existiram e tiveram um encontro com os encantados.

            Gostei do livro e acho que pode ser usado como base para várias histórias envolvendo fadas e outros seres fantásticos, não só pela informação que ele traz, tendo os autores feito uma grande pesquisa ao material de referência original e à descrição do folclore, mas também pelas ilustrações, que são muito bonitas. Por isso, recomendo a sua leitura. Leia com calma, próximo a uma colina e floresta. Só não entre em nenhum círculo de cogumelos.

 

           

 

 

 

 

*Link para a resenha Lendas e Fábulas do Brasil: Ponte para o Imaginário: Lendas e Fábulas do Brasil


sexta-feira, 4 de setembro de 2026

A Bela Adormecida Americana


            No momento em que estou fazendo esta resenha, estou lendo o livro Fadas: Histórias de Seres Encantados. E este livro mencionou um conto clássico da literatura americana chamado Rip Van Winkle, escrito em 1819 por Washington Irving, também autor de A lenda do Cavaleiro sem cabeça*.  Então, por curiosidade, decidi conhecer este conto. Será que é bom? Vamos descobrir.

            No pé das montanhas de Catskill, havia um vilarejo de colonos holandeses onde um homem chamado Rip Van Winkle vivia. Ele era um homem bom e adorado por todos, mas era péssimo em fazer trabalhos que envolviam ganho próprio. Conseguia ajudar aos outros, mas nunca a si mesmo e a sua família. Para fugir de sua esposa reclamona, ele andou até chegar às partes mais altas das montanhas, onde viu um bosque selvagem. Quando ia embora, ele foi chamado por um homem baixo de aparência estranha, que precisava de sua assistência. Após ajudá-lo a carregar um barril, Rip presencia vários homens, peculiares igual ao seu guia, jogando. Ele aproveitou a distração das criaturas e bebeu a bebida deles. Depois de vários goles, ficou com sono e dormiu...

            O livro Fadas: Histórias de Seres Encantados diz que devemos tomar cuidado com o tempo que passamos no mundo mágico, pois ele se move mais lentamente que o mundo dos humanos. Rip Van Winkle é um exemplo deste acontecimento. A premissa tinha grande potencial, mas devido a simplicidade da história, não houve muito desenvolvimento. O personagem aceita rápido a sua condição após descoberta e não deixa de ser preguiçoso, ele até comemora a morte da esposa, pois assim ele não receberia mais bronca dela.

Esperava mais dessa história, porém, foi bom conhecê-la, pois ela já foi referenciada em várias obras, inclusive num episódio da Turma da Mônica**. Por isso, recomendo sua leitura. E nunca beba algo vindo de um ser mágico.

 

 

 

*Link para a resenha de A lenda do Cavaleiro sem cabeça: Ponte para o Imaginário: Não perca a cabeça

**Link para o episódio da Turma da Mônica: E assim se passaram 30 anos | Turma da Mônica

 

 


 

terça-feira, 18 de agosto de 2026

Quando Curupira encontra Kappa

 


         Vocês já tiveram um livro bilíngue? O que eu tenho em mãos é desse tipo. Quando Curupira encontra Kappa é uma história infantil escrita por Fernanda Takei em 2023 e seu texto está escrito em português com a tradução em japonês ao lado, que é muito interessante para alguém que esteja aprendendo japonês ou vice-versa.

            O Curupira e o Kappa decidiram se juntar para proteger a natureza e viajam juntos em busca de outros seres encantados para ajudá-los.

            A história junta elementos dos folclores japonês e brasileiro, com um glossário no final explicando cada um deles, que é uma boa fonte de curiosidade para aqueles que gostam de seres fantásticos. O texto tem formato de poesia, com algumas rimas que atraem o seu público, mas que no meu caso, preferiria que estivesse no estilo prosa.

            Se tivesse que falar algo de negativo do livro seria a ilustração, que não é do meu gosto. Mas de forma geral, é um bom livro e recomendo. Só cuidado para não encontrar o Curupira junto com o Kappa, pois ninguém consegue parar essa duplinha.

 


sexta-feira, 14 de agosto de 2026

Minha Primeira Light Novel

 


        Vocês sabem o que são light novels? São romances de origem japonesa de leitura rápida e com linguagem simples. Elas possuem algumas ilustrações e, normalmente, são para o público adolescente ou jovem adulto. Muitas animações japonesas são adaptações de light novels. E uma delas finalmente chegou ao Brasil! Diários de uma Apotecária é uma light novel escrita por Hyuganatsu em 2014.  Sua primeira versão foi escrita em 2011, como uma web novel (romance que veio da internet), sendo esta considerada uma espécie de rascunho e tendo sofrido algumas mudanças na história ao se tornar uma light novel. Conheci Diários de uma Apotecária através de sua animação, que é uma adaptação da light novel. Será que seu material original é tão bom quanto sua adaptação? Vamos descobrir:

            Maomao era uma apotecária que foi sequestrada e vendida como serva do palácio interno, lugar onde viviam as cortesãs do imperador. Isso foi algo bem inconveniente, mas pelo menos ganhava salário e se completasse suas tarefas direitinho, em alguns meses estaria livre para retornar a sua casa. No palácio interno, há um rumor que os filhos do imperador sofrem de uma maldição e morrem ainda bebês. Recentemente, dois deles ficaram doentes: a menina de seis meses da consorte Gyokuyou e o menino de três meses da consorte Lihua. Maomao não acredita que seja uma maldição. Ela acaba se deixando levar pela curiosidade e decide investigar o caso.

            A história foca em várias situações que Maomao investiga, usando seu conhecimento como apotecária e fazendo com que ela, sem intenção, suba de cargo e conheça pessoas poderosas. E apesar de ser a protagonista, o ponto de vista não é só dela. Outros personagens como Jinshi também dividem a perspectiva no livro, que é narrado em terceira pessoa.

            Quanto aos personagens, dou destaque em dois: Maomao, que é a protagonista tem uma personalidade peculiar. Ela não é uma garota muito feminina, mas também não é um clichê das romantasias atuais da jovem rebelde guerreira que quer acabar com o sistema. Apesar de ter um senso de justiça, Maomao prefere não chamar a atenção para algo que possa lhe causar problemas depois. É bem calma e introvertida, mas se empolga quando o assunto é venenos, fazendo experimentos em si mesma para testá-los. Adoro essa personagem e é minha favorita da obra. O segundo personagem é o Jinshi, um eunuco com aparência de dama celestial, que usa de seu encanto para as pessoas abaixarem a guarda, mas que por trás dessa máscara, esconde uma pessoa infantil e um pouco mimada. Maomao não é afetada pelo seu charme e isso o fez querer zoar ela, aproveitando que está num cargo superior ao dela. Não gosto muito do jeito que ele a trata, porém existe uma implicação que eles podem ficar juntos no final. Espero que isso seja mais bem desenvolvido no futuro. Os secundários também são bons e cumprem bem suas funções.

            Gostei do livro. O único problema foi que eu já sabia tudo o que ia acontecer, pois já tinha assistido a animação. Pelo que pesquisei, a primeira e a segunda temporada do anime (animação japonesa) adaptaram os quatro primeiros volumes da light novel. E como é o Brasil que estamos falando, sinto que a tradução não deve chegar antes da terceira temporada, que estreia em outubro deste ano. Mas a boa notícia é que Diários de uma Apotecária ficou em primeiro lugar no ranking de livros mais vendidos. Quem sabe isso não motive as continuações a virem mais rápido e a traduzirem outras light novels de estilo parecido como Raven of the Inner Palace (O Corvo do Palácio Interno) e Though I Am na Inept Villainess (Embora eu seja uma Vilã Inepta). Recomendo sua leitura para pessoas de catorze para cima devido a alguns temas que não são bons para gente mais nova. Leiam e cuidado com o que bebem. Pode estar envenenado.