sexta-feira, 29 de maio de 2026

Dois Irmãos

 


                Lá vou eu fazer a resenha de um livro que era para ter lido na época de faculdade, mas só li agora. Dois Irmãos foi escrito por Milton Hatoum no ano 2000. Do que será que ele se trata? Vamos descobrir:

            Yaqub e Omar são gêmeos, descendentes de libaneses, que moram em Manaus. Apesar da aparência idêntica, Yaqub é mais introvertido, estudioso e tem uma cicatriz no rosto feita por Omar devido a ciúmes, enquanto este último é um garoto problema mimado. Quando Yaqub voltou ao Brasil após passar cinco anos no Líbano, sua relação com Omar parece não ter melhorado...

            A estrutura do livro não é linear. O narrador, que é filho da empregada, vai e volta na contação da história. O primeiro capítulo começa com a morte de um dos membros da família enquanto o segundo conta sobre a infância dos gêmeos, em que a pessoa ainda era viva. Por ser um narrador personagem, grande parte do livro é contada sobre sua perspectiva e, o que ele não vivenciou, foi lhe contado por outros personagens. A história, como disse acima, acontece em Manaus e vai do início do século XX até a ditadura militar. Por isso, senti um pouco de dificuldade com o nome de animais e plantas dessa região, além de algumas palavras em árabe, devido a descendência libanesa da família.

            Apesar do título, a história não foca apenas nos irmãos, e sim na família como um todo. Ela é completamente disfuncional. Já comentei sobre os Dois Irmãos do título no resumo. Então, dedicarei este parágrafo aos outros membros da família. O patriarca Halim nunca quis ter filhos e só os teve devido a uma promessa que fez a esposa. Apesar disso, ele se dá bem com Yaqub e Rânia. Mas tem uma relação péssima com Omar, que além de ter uma personalidade “bon vivant” e não quer nada com nada, é muito agarrado com a mãe, Zana, que desde que Omar era novo, superprotege o filho devido a este ter nascido com problemas de saúde. Ela não deixa que ele namore sério com nenhuma mulher. Rânia, a irmã mais nova, parece ter uma admiração incestuosa com os gêmeos. Domingas é uma indígena que foi “adotada” para ser a empregada da casa, e infelizmente, nunca conseguiu voltar para sua aldeia. E por último, o narrador, filho de Domingas, que suspeita que um dos gêmeos seja o seu pai.

            Não é um livro que te traz uma sensação boa. Há muitos conflitos entre os familiares, raiva, ciúmes, rancor e será assim do começo ao fim. A minha opinião sobre ele é a mesma que sinto com relação aos textos de Clarice Lispector: é bem escrito, mas me traz desconforto. Por isso, não sei se devo recomendar ou não. Se a minha resenha te atraiu para o livro, vá em frente. Espero que o romance não te deixe no mesmo estado de Yaqub quando este voltou do Líbano.


sexta-feira, 15 de maio de 2026

Releitura Asiática de Os Seis Cisnes

 


Já ouviram falar do conto Os Seis Cisnes* dos irmãos Grimm? Ele envolve uma princesa que deve costurar seis camisas feitas de flor para quebrar a maldição de seus irmãos, que foram transformados em cisnes por sua madrasta, e tudo isso, sem que ela pudesse dizer uma palavra sequer. Sabia que esta história possui uma releitura com elementos asiáticos? Os Seis Grous foi escrito por Elizabeth Lin em 2021, sendo lançado no Brasil em 2022. Ele possui uma sequência chamada A Promessa do Dragão e uma prequela com o título Uma Maldição Dourada. Será que a leitura valeu a pena? Vamos descobrir.

            A princesa Shiori era a mais nova de sete irmãos e estava indo para sua indesejada cerimônia de noivado.  Mas escondida em suas vestes estava Kiki, um pássaro de papel que a jovem dera vida usando magia, algo proibido em sua nação. Kiki escapou e com medo de ser descoberta e punida, Shiori foi atrás dela, indo parar no Lago Sagrado. A moça nadou até lá, porém, suas vestimentas a puxaram para o fundo e lá ela viu um dragão...

            Além dos Seis Cisnes, várias histórias e lendas asiáticas foram mencionadas na história, como a lenda do coelho da lua, que é o símbolo do clã Bushian, a lenda da Princesa Kaguya e o mito do fio vermelho do destino. Mas o que mais me surpreendeu foi a menção do Pote Vazio, um conto chinês em que o imperador dá a cada criança uma semente para plantar uma flor e quem plantasse a flor mais bonita dentro de um ano, seria o seu sucessor. Todos plantaram belas flores, menos um garoto, que tentou de tudo, mas nada brotou. O imperador o escolheu devido a sua honestidade pois as sementes que havia dado eram de mentira, indicando que as outras crianças roubaram na competição. Este livro tem uma releitura legal que combinou com a história.

            A história por si só, é o que se espera de uma fantasia juvenil focado para um público feminino, com uma protagonista de personalidade forte e a única de seu povo com a habilidade de realizar magias, um romance e um provável triângulo amoroso. O livro termina em aberto dando margem para sua sequência.

Quanto aos personagens, como dito acima, a princesa Shiori, tem personalidade forte e arrogante, mas teve que passar por uma jornada que a deixou mais humilde e a valorizar as pequenas coisas. Algo que pode se destacar é seu interesse por comida. Seus seis irmãos são diferentes o suficiente para sabermos diferenciá-los. Kiki, o grou de origami é a amiga confidente de Shiori que coloca bom senso em sua cabeça. Seryu é um dragão arrogante que se importa com a princesa e foi seu mentor por um tempo. Ele não apareceu muito nesse livro, porém é bem provável que o vejamos mais na sequência. Takkan, o noivo prometido que Shiori se recusa a conhecer e deseja que desapareça da sua vida. Porém, ele provou não ser o bárbaro que a princesa havia imaginado. A primeira antagonista, Raikama, madrasta de Shiori, não é o que parece ser. Os outros antagonistas são genéricos, vilões típicos que querem poder.

            O livro é cheio de clichê? Sim, mas depois de ter lido Lilith de George MacDonald, ler algo mais simples e familiar ajudou a relaxar. Os Seis Grous é um bom livro para o público designado, apesar de não ser perfeito. Veremos se melhora na sequência. Nos encontramos no Reino dos Dragões.

 

* Vídeo do conto dos Seis Cisnes narrado por mim e ilustrado por Maya Flor: Os Seis Cisnes dos Irmãos Grimm


sexta-feira, 1 de maio de 2026

O Castelo no Espelho

 


                Gostam de um livro que faz referências a contos de fadas? Então é bem provável que esse livro seja para você. O castelo no espelho foi escrito por Mizuki Tsujimura em 2017, sendo lançado no Brasil em 2024. O romance teve uma adaptação cinematográfica em formato de anime em 2022 no Japão, que infelizmente não consegui assistir.

               Kokoro deixou de ir para a escola devido ao bullying que ela sofria. Ela vivia em seu quarto assistindo televisão, até que seu espelho começou a brilhar. Ao tocá-lo, ele a transportou para um castelo magnífico com uma estranha garotinha usando máscara de lobo. Kokoro quis voltar para casa, mas a menina-lobo a agarrou, dizendo que se ficasse, poderia realizar um desejo...

               Como disse no primeiro parágrafo, este livro traz muitas referências aos contos de fadas, que também são ditas pela boca da própria protagonista, que é fã dessas histórias. Mas os dois contos mais mencionados são A Chapeuzinho Vermelho e O Lobo e os Sete Cabritinhos*, sendo este segundo escrito pelos irmãos Grimm e é bastante popular no Japão, onde a história se passa. Aconselho a ler este último para melhor entendimento. Clássicos como Alice no País das Maravilhas, As Crônicas de Nárnia e Harry Potter também são mencionados.

            A história mistura a realidade com a fantasia, em que a protagonista sai de sua vida normal e vai para um local diferente, e este lugar se torna literalmente, a sua forma de escape. Mas também a ajuda a lidar com seus problemas através da conversa e da amizade que ela forma com os outros competidores que estão em busca da chave. Dentre os dois, o livro foca mais no drama dos personagens e suas relações enquanto a fantasia fica como pano de fundo, o que pode deixar aqueles que esperavam encontrar seres mágicos e outros desafios fantásticos decepcionados, pois não há nada disso aqui.

            Quanto aos personagens, os que mais se destacam são os jovens que competem pela chave. Kokoro, a protagonista, é uma menina tímida que gosta de ler, jogar e assistir novela. Fuka é introvertida, séria e não tem medo de dizer algumas verdades na cara. Aki é extrovertida, mas um pouco problemática. Masamune é um garoto sarcástico, viciado em jogos. Ureshino é um garoto gordinho que se apaixona facilmente e não tem medo de se expressar. Subaru é um garoto calmo e Rion é o mais atlético. Tanto ele quanto o Subaru são os mais genéricos do grupo em termos de personalidade. De importância, obviamente a Kokoro vem em primeiro por ser a principal, seguida por Rion e Aki. Os outros tiveram um tempo razoável para brilhar, com exceção de Subaru, que poderia ter tido um pouco mais de desenvolvimento.

               O livro tem um final agridoce, porém, sua leitura valeu a pena, por isso o recomendo para jovens e adultos. E lembrem-se: se tiver em um dia ruim, dê uma olhada no seu espelho. Talvez ele brilhe e abra uma passagem para outro mundo.


*Se desejam conhecer mais dessa história, assistam este vídeo: O Lobo e os Sete Cabritinhos dos Irmão Grimm