sexta-feira, 16 de outubro de 2020
sexta-feira, 9 de outubro de 2020
sexta-feira, 2 de outubro de 2020
Deusa, bruxa e humana
Na resenha passada, falei
da Odisseia, que conta a jornada de Ulisses (Odisseu), de volta a Ítaca
depois da guerra de Tróia. Agora, é a vez da bruxa da ilha de Eana. Circe
foi escrito pela escritora americana Madeline Miller em 2018 e conta a história
de Circe, cuja participação na Odisseia foi curta, mas essencial.
Circe é a primogênita da união de Hélio, deus do sol e
Perseis, uma ninfa filha do titã Oceano, deus do grande rio de água doce que
rodeia o mundo. Como não nasceu com uma aparência muito boa, sua mãe pouco se
importava com ela, dando mais atenção aos seus irmãos. Quando Hélio conta o que
acontecem com os astrônomos humanos que erram suas previsões, Circe sentiu
algo. Mas o que era esse algo?
Acreditava que Circe era um personagem que aparecia
somente na Odisseia. Mas estava enganada. Além da jornada de Ulisses,
Circe aparece em outras duas histórias. A primeira é no mito de Glauco e Cila.
Glauco era um ser humano que após ingerir uma planta, se transforma em um deus
marinho. Ele se apaixona pela ninfa Cila, que não queria nada com ele e fugia quando
o via. Ele pediu a ajuda de Circe, que por ser tremendamente apaixonada por ele
e sentir inveja de Cila, a transforma em um monstro. Após sua transformação,
Cila foi para o colo de Glauco chorar, porém ele a rejeita devido sua aparência
horrenda. Cila então foge para um rochedo próximo ao turbilhão Caríbdis. Ela se
tornaria um dos desafios que Ulisses teria de enfrentar na Odisseia.
Glauco nunca perdoou Circe pelo seu feito. Não é surpresa dizer que este conto
foi alterado no livro para que Circe fosse simpática e atraísse o leitor para
seu lado. Também foi modificado a origem de Glauco. Foi Circe que apertou a
seiva da flor pharmaka, nascida do sangue dos deuses, na boca de Glauco. Vejo
esta mudança como algo positivo pois acrescenta na descoberta dos poderes da
personagem.
A segunda aparição de Circe foi em Jasão e os
Argonautas. Após fugir do reino de Aietes, pai de Medeia e irmão de Circe,
Jasão para na ilha de Eana para que a bruxa possa fazer o rito de purificação
em sua embarcação, pois Medeia havia assassinado o próprio irmão, causando a
ira de Zeus e os afastando de sua rota. Esta cena teve mais acréscimos que
mudanças de fato.
Como é um romance, essas três aparições da personagem não
seriam suficientes para compô-lo, por isso a autora teve que inventar a maior
parte e costurar com os mitos gregos que a gente conhece. Por exemplo, todos os
filhos que Hélio teve com Perseis são bruxos capazes de usar plantas como
feitiços. Pasifae especificamente, é boa com venenos e usa seus feitiços para
matar as amantes de seu marido, Minos, toda a vez que se deitavam com ele, como
ela fazia no mito.
O livro é narrado pela própria Circe, que conta a
história desde o ponto que seus pais se conheceram. Me pergunto como ela conhece
estes detalhes se ela nem era nascida ainda. Será que os pais contaram a ela
mesmo que a mãe claramente não gostasse dela? Ou será que ela ouviu de seus
tios e tias do palácio de seu pai? Isto nunca foi explicado. Como personagem,
Circe começa como uma deusa inocente, que demora a descobrir seus poderes e é
feita de tola por vários personagens. Do meio para o final, isso muda conforme
ela vai ganhando mais experiência de vida e se tornando mais forte não só de
poder, mas de caráter.
Quanto aos outros personagens, em boa parte são bons. Mas
duas caracterizações me irritaram: A primeira foi Hermes, que apesar de ser
descrito como esperto, nunca vi um mito dele em que fosse babaca pelo simples
prazer de ser. Aqui, ele vê a humanidade como brinquedo assim como vários dos
deuses enquanto nos mitos parecia ser o contrário. A segunda foi de Atena. São
poucos os mitos que ela perde a compostura, mas aqui... A imagem que estou mais
acostumada é a de uma deusa séria, respeitosa, que quase não demonstra raiva. Apesar
de vestir o mesmo elmo e a mesma armadura, esta não é a mesma personagem que conheci
na mitologia grega.
Um tema bastante abordado no livro é a diferença entre os
humanos e os deuses. Deuses são imortais e não tem a noção do desespero que os
humanos possuem. Se consideram perfeitos, por isso a noção de dor é algo estranho
e curioso de se ver. Mas como os humanos, existem classes e brigas por poder.
Para eles, os homens são só um divertimento e uma fonte para ganhar presentes.
Quanto mais desesperada é a pessoa, melhores são os sacrifícios. É nesse ponto
que chegamos na Circe. O jeito que ela age é diferente dos outros deuses, e aos
poucos ela se aproxima de nós.
Tive uma boa leitura. O romance termina em aberto, mas te
dá aquela esperança de que tudo acabará bem. Recomendo bastante a adultos que
gostam de mitologia grega. E para quem conhece pouco, no final do livro tem a
lista dos personagens e um pequeno resumo de suas histórias. Nesta resenha,
nossa parada foi em Eana. Agora naveguemos para o Submundo de Hades.
sexta-feira, 25 de setembro de 2020
sexta-feira, 18 de setembro de 2020
sexta-feira, 11 de setembro de 2020
Odisseia em prosa
Sempre tive a curiosidade
de saber o que tinha acontecido na Odisseia de Homero. Mas por ser bem
longa e ainda ter o formato de poesia, sempre me afastava. Ainda assim, achei a
solução para o meu problema. Ruth Rocha conta a Odisseia é, como diz o
título, a Odisseia contada nas palavras de Ruth Rocha, autora muito conhecida na
literatura nacional infantil, cujo livro mais conhecido é Marcelo, Marmelo, Martelo.
Após o término da Guerra de Troia e de vários problemas
em sua viagem de volta, Ulisses foi parar na ilha da ninfa Calipso, e não
consegue sair de lá. Enquanto isso, sua esposa Penélope e seu filho Telêmaco
fazem de tudo para que os pretendentes da suposta viúva, que estão acomodados
em sua casa e acabando com seus bens, desistam dessa ideia de casamento e vão
embora.
Há muitas semelhanças das histórias da mitologia grega
com os contos de fadas. Não duvido que o primeiro tenha influenciado o último.
Um exemplo é a possibilidade do conto A Bela e a Fera ter sido inspirado no mito de Cupido e Psique. Eu mesma criei um conto baseado no
que aprendi nas aulas de mitologia como parte de um trabalho da faculdade.
Tirei 9.8. O conto se chama Jornadas e vários de seus personagens são
baseados nos deuses da mitologia grega. Ele é uma das histórias contidas no
livro A Pena Mágica e outros contos. Recomendo para treze anos ou mais.
Mas voltando ao assunto, muito elementos dos mitos gregos são encontrados nos
contos de fadas.
Na
Odisseia, o orgulho de Ulisses causa a ira de Poseidon, o deus dos
mares, que dificulta sua volta para casa e a perda de todos os seus
tripulantes. Todos que tem algum dos sete pecados se dão mal. Isso também
acontece em contos como em A roupa nova do rei, em que sua vaidade faz
com que ele seja facilmente enganado. Há também os que desobedecem ordens
superiores. Ulisses recebeu o conselho de não matar os animais do deus Hélio.
Ele fala isso aos seus homens, que acabam desobedecendo e sendo punidos pelo
deus. Se Branca de Neve não tivesse ouvido o conselho dos anões, não teria sido
enganada pela madrasta três vezes. E ainda, a intromissão de Athena e Hermes,
deuses poderosos do Olimpo, lembra bastante quando um ser mágico ou animal
falante aparece para ajudar o protagonista de contos de fada, como a fada
madrinha da Cinderela e o gato em O gato de botas.
As ilustrações do livro foram feitas por Eduardo Rocha, o
marido da autora que infelizmente faleceu em 2012. Seus desenhos lembram
bastante as figuras dos vasos antigos da Grécia com um toque infantil. Apesar
de simples, as imagens combinaram bastante com a história, dando o toque da
época que surgiram esses mitos. Por causa desse livro, o ilustrador ganhou o
Prêmio da Fundação do Livro Infantil e Juvenil de 2001.
Curiosidades interessantes: Sabiam que o nome Odisseia
vem de Odisseu, o nome grego de Ulisses? Enquanto Ilíada vem de Ílion, outro
nome dado a cidade Troia que significa “rica em cavalos”? Algo que não gostei
aqui foi que Hélio, o deus sol e Apolo, deus da luz e da música são a mesma
pessoa nessa história apesar de serem entidades diferentes, um sendo um deus
titã antigo e o outro um deus olimpiano filho de Zeus.
Acredito que o livro é bom para apresentar as crianças
para a Odisseia, ou para a mitologia grega de um modo geral. Sua linguagem é
simples e as palavras estranhas costumam ter uma nota explicativa. Li este
livro não só para conhecer a Odisseia de uma maneira mais simples, mas também
para me preparar para um próximo romance que vou ler. Qual é o nome dele? Vocês
descobrirão em uma próxima resenha.








