sexta-feira, 31 de outubro de 2025

O Primeiro Lobisomem da Literatura

 


            Ao contrário do monstro de Frankenstein, o lobisomem não tem uma história específica, tendo surgido das crenças de vários povos. Mas vocês sabem qual foi a história que iniciou a entrada deste monstro na literatura? Foi O Lobisomem, conto escrito por Richard Thompson em 1828. Será que ele teve um bom início? Vamos descobrir:

            Na cidade de St. Yrieux, havia relatos de que tinha um ou mais lobisomens habitando a floresta de Limousin. Um grupo de seus cidadãos estava reunido na Taverna do Cavaleiro Bayard, incluindo o doutor Antoine Du Pilon, conhecido por sua grande inteligência, até que um homem entra ferido no local...

            Infelizmente, este resumo acima é a parte mais misteriosa do livro, pois a identidade do lobisomem é previsível. Estava torcendo para ser surpreendida no final, mas não foi o caso. A única surpresa interessante que tive foi que o doutor, que nas histórias de terror, costuma ser o mais inteligente e o que resolve tudo, não é o herói da história, e sim a parte cômica.

            Aqui, o lobisomem não morre por bala de prata, sendo morto por armas normais. Aparentemente, ele parece ter controle da sua transformação e tem consciência quando transformado, algo que não é visto nas adaptações focadas no terror.

            Pelo que escrevi acima, deu para concluir que não gostei muito da história. Se o autor invertesse a ordem da narrativa e começasse pelo meu resumo, teria sido um pouco melhor na parte do mistério. Porém, ainda assim recomendo a leitura para aqueles que gostam de lobisomens e queiram saber como ele entrou no universo literário. Por isso, dê uma espiada. Só cuidado ao entrar na floresta Limousin.

 


sexta-feira, 17 de outubro de 2025

O Fantasma da Ópera

 


                O Fantasma da Ópera é um clássico do teatro musical. Vocês sabiam que ele foi adaptado de um romance? Sua publicação foi serializada no jornal Le Gaulois de setembro de1909 a janeiro de 1910, sendo lançado em livro três meses depois. Foi escrito pelo francês Gaston Leurox, que usou como inspiração acontecimentos históricos ocorridos na Ópera de Paris no século XIX, com a descoberta de um cadáver em 1907 e a queda de um lustre em 1896. Também se inspirou na lenda de um pianista que sobreviveu a um incêndio de 1873 e se refugiou no andar de baixo do teatro para esconder suas queimaduras. A junção desses elementos pode dar uma boa história. Será que o autor entregou? Vamos descobrir.

            Há uma lenda de um fantasma circulando pela Ópera de Paris, causando vários acidentes e assustando as dançarinas e trabalhadores. Enquanto isso, Christine Daaé se destaca em sua música. Ela chamou a atenção do jovem Visconde Raoul, que esperou que a moça ficasse sozinha para falar com ela. Porém, ele a ouviu conversando com um homem em seu camarim. Quando Christine saiu, Raoul entrou para encarar o seu rival. Mas não encontrou ninguém...

            A estrutura do livro lembra um pouco a do Drácula, em que a história é contada através de memórias escritas e entrevista de personagens. A diferença é que aqui, elas são recolhidas por um investigador do caso, cujo nome é o mesmo do autor. Ele é o narrador que junta toda informação para formar uma narrativa coesa. Leurox (o personagem) também complementa usando notas de rodapé. Por ser conhecido na França como um escritor de romances investigativos, como O Mistério do Quarto Amarelo de 1907, faz sentido que o escritor utilize desses recursos na contação de sua obra. Uma pena que por causa da peça de teatro, a revelação de que o fantasma era um homem faz com que o romance perca seu mistério.

            Quanto aos personagens, diria que o triângulo amoroso poderia ter sido melhor. Christine é ingênua e boazinha demais, sentia pena do fantasma apesar deste ter se mostrado um assassino louco. Apesar disso, se não fosse seu bom coração, a história e o desfecho não teriam acontecido. Raoul era para ter sido o mocinho cujos leitores deveriam torcer para que Christine ficasse no final, mais sua personalidade infantil, ultrarromântica e ciumenta fez com que achasse o personagem chato e me fez querer que a moça não ficasse com nenhum dos dois. O fantasma é um vilão cartunesco que você sente prazer ao vê-lo derrotado. Um gênio das maquinarias e da arte que teria sido bem aclamado se não parecesse um zumbi com olhos amarelos que brilham no escuro. Seu passado explica o porquê dele não sente nada ao matar. Mas isso não justifica suas ações e dá para entender o motivo de Christine não querer ficar com ele, pois além de sua aparência horrorosa, era maligno. Um quarto protagonista que foi introduzido no momento do perigo e que a adaptação musical cortou por considerar um estereótipo racista é o Persa, o que é uma pena pois achei ele o melhor personagem devido ao seu passado com o fantasma. Há também o “drama” dos novos diretores, Richard e Moncharmin, tentando descobrir a identidade do fantasma, que sai um pouco da parte séria e vai para um tom mais leve da trama.

            Há muitas diferenças entre o livro e o musical. Além da aparência do fantasma, que mencionei acima, que no musical aparece só com metade do rosto deformado, sua icônica máscara é preta no livro enquanto no musical é branca. Christine é sueca e descrita como loira enquanto suas adaptações a retratam como morena. A senhora Giry, que é a lanterninha que recebe gorjeta do fantasma por fazer favores, mas nunca o viu pessoalmente, virou professora de balé e tomou o lugar do Persa na adaptação teatral. E, é claro, muito da história foi encurtado e várias outras modificações foram feitas, como Christine sentindo atração romântica pelo fantasma no musical.

            Apesar das minhas ressalvas com relação ao triângulo amoroso, o livro me entreteve. Recomendo aos fãs de literatura gótica romântica. Só não entrem no Camarote Cinco.


sexta-feira, 3 de outubro de 2025

O Privilégio do Belo

 


                O que você faria se parasse de envelhecer aos dezessete e um retrato seu envelhecesse em seu lugar? Será que isso é tão bom quanto parece? O Retrato de Dorian Gray escrito por Oscar Wilde em 1890 responde essas perguntas. Gostaria de saber as respostas? Vamos para o resumo:

            Dorian Gray é um belo jovem que foi a casa de seu amigo, Basil Hallward, para que este pintasse o seu retrato. Lá também encontrou lorde Henry Wotton, amigo de Basil, e numa conversa entre ele e Gray, acaba mencionado que a juventude não é eterna, que o tempo passaria, que Dorian envelheceria e sua beleza esvaneceria. Quando Basil terminou a pintura, todos acharam bela e Dorian desejou que a pintura envelhecesse em seu lugar...

            Devo dizer que fiquei surpresa em saber que a história não envolveu pacto com o Diabo. O retrato de Dorian começou a envelhecer e mudar sua aparência misteriosamente conforme o jovem fazia suas maldades. Não há explicação para o ocorrido, mas saber o porquê de isto estar acontecendo não importa. O foco do livro é a consequência deste fenômeno.  

            Dentre os personagens, três se destacam: o pintor Basil Hallward, que conheceu Dorian e vê nele não só um modelo, mas um ser próximo do divino que o inspira na hora de fazer suas pinturas; Henry Wotton, um sujeito que tem um pensamento individualista, que acha que todos deviam agir pelo prazer sem pensar nas consequências. Ele faz o papel do diabo no ombro de Dorian enquanto Basil faz o papel de anjo. Wotton influencia o rapaz a ir pelo mal caminho por mera diversão. E por último, temos o protagonista, Dorian Gray, um rapaz que começa bom, ingênuo e bastante emotivo até que começa a seguir esta vida de prazer sem se importar com os outros. Ele é descrito como um jovem de cachos loiros e olhos azuis, algo que a capa do livro não ilustrou. Isso dá a ele uma aparência angelical.

            Por sua aparência se manter a mesma, Dorian se entrega aos vícios e prazeres libidinosos, fazendo com que várias pessoas que ele se relacionou o detestassem por ter sido má influência e arruinado a vida delas. Mesmo assim, Dorian conseguia manter algumas de suas amizades, pois sua beleza era encantadora e pueril. Estas acreditavam que tudo aquilo que ele fez não passava de boatos. Creio que muitos têm este sentimento quando descobrem que uma celebridade fez algo de errado, principalmente quando ela tem uma beleza estonteante. Este é privilégio do belo. É quase que instintivo nós vermos algo bonito e associarmos com o bom e o feio com o mal. Mas nunca julgue o livro pela capa. Devemos julgar pelo conteúdo.

            Respondendo à pergunta do primeiro parágrafo, não seria ruim se um retrato envelhecesse em seu lugar. Só que o retrato de Dorian Gray não apenas envelheceu. Ele se desfigurou conforme as maldades e os vícios do jovem. Ele então deixa de ser um retrato de belo moço e passa a refletir a alma de um homem corrompido. Você aguentaria conviver com um espelho que refletisse todos os seus pecados?

            O Retrato de Dorian Gray é um ótimo livro para se entreter e pensar, não só nos assuntos que mencionei acima, mas também pelas opiniões Wotton, que apesar de discordar de vários de seus pensamentos, muitas de suas falas podem dar bons temas para debates. Então, venha dar uma olhadinha. Só não faça isso próximo de seu retrato.   

 


sexta-feira, 19 de setembro de 2025

Tarzan, o Magnífico

 


            Vocês já pularam o episódio de alguma série ou deixaram de ver o primeiro filme e foram direto para a sequência? Tarzan, o Magnífico é o vigésimo livro da série do personagem homônimo, escrito por Edgar Rice Burroughs em 1936. Li o primeiro livro da coleção há muito tempo atrás. Este volume foi meu padrinho que emprestou e pertencia ao pai dele. Suponho que os outros volumes também tenham sido publicados, mas devem ser raros de se encontrar pois nenhum deles possui uma edição recente. Infelizmente, parece que o Brasil quase não publica a sequência de livros cuja adaptação animada só tenha usado o primeiro livro como base. Bambi* e Entregas Expressas da Kiki**, por exemplo, são livros antigos que até agora não tiveram suas sequências traduzidas para o português. Espero que não aconteça o mesmo com Robô Selvagem***. Vamos para a resenha:

            Tarzan caminhava por uma planície até que encontrou um esqueleto morto há muitos anos. Próximo a ele, encontrou a carta de lorde Mountford, dizendo ter sido capturado junto a esposa, pela tribo de mulheres guerreiras kajis. Ele e a filha que nasceu pouco tempo antes da morte de sua esposa eram prisioneiros e suas captoras usavam magia para mantê-los cativos. Ele ofereceu um diamante como recompensa para o resgate. Tarzan guardou a carta para entregar às autoridades, até encontrar um homem ferido...

            Acredito que a primeira pergunta que vocês estão fazendo é: dá para ler este livro sem ter lido os outros? Sim. É uma aventura que começa e termina no mesmo volume. Porém, é interessante que tenha um pouco de conhecimento sobre o nosso protagonista, Tarzan. Por isso, recomendo que leiam o primeiro livro de sua série, que será bem mais fácil de encontrar do que suas sequências.

            Indo para a história, não esperava encontrar magia no mundo do Tarzan. Não lembro de ter nenhuma menção disto no primeiro volume, apesar de coisas improváveis terem acontecido, como por exemplo um jovem ter sido criado por uma espécie humanoide entre gorila e ser humano, e este aprender a ler um livro sozinho, algo impossível de acontecer na realidade (quem estudou linguística sabe do que estou falando). Ainda assim, era um romance mais pé no chão. O gênero é aventura, então obviamente tem ação e luta neste livro. Alguns leitores que podem achar o livro problemático devido a crença das kajis de quererem ter filhas com brancos para que se tornassem brancas. A motivação para tal crença não é justificada. Ela existiu há vários anos e ninguém se lembra o porquê dela existir. Há também algumas falas preconceituosas, que são ditas por pessoas de má índole. Resumindo, pessoas do politicamente correto encontrarão vários motivos para não gostarem deste livro. Como disse no primeiro parágrafo, Tarzan, o Magnífico foi lançado em 1936, uma época diferente da nossa. Como não sou tão sensível, isto não me incomodou.

            Quanto aos personagens, há tantos que o livro possui um guia de uma página com o nome deles. Vou me ater apenas aos que me chamaram atenção. Temos obviamente Tarzan, o personagem que dá nome a obra, o homem que foi criado na selva, sabe a linguagem dos animais além de ter uma grande força e sentidos aguçados. Ele é tão incrível que seu nome virou lenda. Não é muito expressivo, mas tem bom coração e ajuda aqueles que considera seus amigos, apesar de considerar a humanidade inferior aos outros bichos devido aos conflitos que ela causa entre si por coisas que Tarzan considera fúteis. Um herói perfeito para aqueles que gostam desse gênero. Me lembra um pouco o Conan, o Bárbaro, só que mais honrado. Stanley Wood é o homem ferido que Tarzan encontra e a motivação para ele entrar nessa aventura. Uma pessoa honrada que fará de tudo para ficar com Gonfala, a rainha dos kajis, que parece ter dupla personalidade. Esta personagem fez uma coisa que me irritou, porém, se der muitos detalhes, será spoiler. Woora e Mafka foram bons antagonistas iniciais (aqui tem muitos antagonistas), introduzindo a magia na narrativa. E, para quem é fã do desenho animado, saiba que Tantor, o elefante, existe aqui nos livros e ele até que tem um papel relevante neste romance.

            O livro me entreteve. Sua leitura é simples, apesar dos muitos personagens e locais. Porém, acredito que este livro ficaria melhor no formato de quadrinhos, em que podemos visualizar as lutas. Sou da opinião que os gêneros de ação e terror ficam melhor em mídias visuais do que escritas. Se vocês desejam conhecer, boa sorte. Talvez o encontrem em algum sebo. Ou nas misteriosas selvas africanas...

 

 

 

 

*Resenha de Bambi: Ponte para o Imaginário: O príncipe da floresta

**Resenha de Entregas Expressas da Kiki: Ponte para o Imaginário: O rito de passagem de uma bruxa

***Resenha de Robô Selvagem: Ponte para o Imaginário: Instinto e Programação


sexta-feira, 12 de setembro de 2025

Garotas Mágicas no Mundo Real

 


            Já ouviu falar do gênero das garotas mágicas? Ele está presente em muitos mangás e animações japonesas como Sailor Moon e Sakura Card Captor, que são sobre garotas, geralmente jovens, com poderes mágicos. Normalmente, elas passam por uma transformação que muda sua aparência e roupa. Também costumam usar seus poderes para salvar o mundo. Agora imagine se várias delas existissem em nosso mundo, cada uma com seu poder mágico. O livro Uma garota mágica se aposenta fez esta proposta. Escrito pela coreana Park Seolyeon no ano de 2022 em seu país, foi lançado no Brasil recentemente em junho deste ano. E como fã de Sakura Card Captor, o título desta obra me atraiu e aqui estou eu fazendo sua resenha. Vamos para o resumo:

            Uma mulher de vinte nove anos está prestes a se suicidar na ponte Mapo em Seul, após várias dívidas no cartão e a falta de emprego fixo. Mas uma moça com vestidinho branco e fofo a impede, dizendo que seu destino é se tornar uma “Garota Mágica”.

            Como funciona as garotas mágicas numa história mais realista? Torne-as o equivalente do que seria os super-heróis, com uma escola dos X-men para treinar as garotas, junto a um lugar que ajuda encontrar emprego para elas ganharem dinheiro como por exemplo o de guarda-costas e o de caçadora de recompensas. Achei um conceito interessante. Existe, porém, aquele dilema do herói estar ganhando dinheiro pelo seu heroísmo ao invés de fazer por razões nobres, algo que a própria protagonista julga. Mas não é isso que os policiais e os bombeiros fazem? Os poderes normalmente são despertados quando a moça se sente vulnerável, o que explica o porquê de a maiorias delas ser jovem.

            A protagonista, que não é nomeada na história, é pessimista e esforçada. Devido ao seu problema financeiro, tem muito foco nos gastos e tenta ao máximo conseguir um emprego. No primeiro capítulo cheguei a me identificar com ela quando desejou cometer suicídio sem incomodar ninguém, mas no fundo, gostaria que alguém a consolasse, o que mostra como temos que nos mostrar forte para os outros, mesmo querendo nos abrir para alguém. A segunda personagem com mais foco é Ah Roa, a Garota Mágica da Clarividência. Foi ela que impediu a protagonista de tirar a própria vida. Por trás de sua positividade, esconde uma mulher que tem autoestima baixa, pois apesar de útil, seu poder não é tão forte para luta. Há um romance implícito entre as duas personagens que achei um tanto desnecessário pois a trama era rápida e quase não teve tempo para desenvolvê-las como amigas, muito menos como par romântico. Há outras personagens como Choi Heejin, Garota Mágica do Espaço, que é arrogante e a presidente do Sindicato de Garotas Mágicas, Yeon Riji, a primeira Garota Mágica da Coréia do Sul, que já é uma senhorinha. Ambas tiverem sua relevância apesar de aparecerem pouco. Não vou comentar sobre a antagonista pois seria um grande spoiler. Só direi que seu passado não justifica suas ações.

            Apesar da proposta interessante, acho que o livro deveria ter sido maior. Focado mais na protagonista fazendo amizade com Ah Roa e possivelmente, com outras garotas mágicas. O mundo das Garotas Mágicas em geral podia ser mais explorado, dando a perspectiva de outras personagens e não apenas da protagonista. A resolução do problema foi criativa e até cômica, fazendo parecer uma paródia por um momento.

            O livro me entreteve o suficiente. Daria três de cinco estrelas. Se você gosta do gênero e é a favor do meio ambiente, pode dar uma olhada e lembre-se: quando sentir que tudo está para ruir, não desista. Deixe que sua chama de poder surja e siga em frente. Você não está sozinho.