sexta-feira, 17 de julho de 2026

Biblioteca no Prédio

 


            Existem vários tipos de biblioteca: bibliotecas comunitárias, que focam numa comunidade local; bibliotecas escolares, que focam nos alunos e professores de uma escola; bibliotecas universitárias, que focam no corpo discente e docente de uma universidade; bibliotecas especializadas, cujo acervo tem uma temática específica, como por exemplo a biblioteca do CBPF (Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas), que é voltada para a física; e a biblioteca pessoal, que você como leitor personaliza com base nos seus gostos. Mas vocês já ouviram falar em uma biblioteca de prédio?

            O prédio dos meus pais decidiu fazer uma e todos os moradores podem deixar livros que não desejam mais para que outros possam pegar e devolver após a conclusão da leitura. Achei essa ideia interessante, porém, tenho algumas ressalvas. Por mais que essa biblioteca seja um bom incentivo para a leitura, seu acervo é composto em sua maioria por livros de autoajuda, que quase ninguém lê. Os livros que mais vi sendo pegos foram os infantis, sendo que alguns deles não foram devolvidos até hoje. Por essa razão, a pessoa que deixou o livro lá tem que estar desapegada dele, pois há chance de ele não ser devolvido. Um bibliotecário faz falta nessas horas... O último ponto negativo foi o local de escolha para a biblioteca. Por mais que ela esteja localizada na parte coberta do playground, chuva com ventania ainda podem deixar os livros molhados e úmidos. Por isso, recomendaria deixá-la num ambiente mais fechado do prédio.

            Se derem um jeito nos pontos negativos, acredito que essa iniciativa pode dar certo e ajude a trazer mais pessoas para o mundo da leitura. Compartilhe essa ideia com seus vizinhos e síndico. Quanto mais leitores formarmos, mais chance temos de desenvolver pessoas inteligentes, pois uma boa leitura ajuda a exercitar o seu cérebro, desenvolvendo sua imaginação e te fazendo refletir.

            





sexta-feira, 3 de julho de 2026

Curupira e o equilíbrio da natureza


            Já leram algum livro na infância que vocês se lembram da história, mas não se lembram do título? Aconteceu comigo e, depois de muitos anos, finalmente o encontrei. Curupira e o equilíbrio da natureza foi escrito em 1993 pelo biólogo Samuel Murgel Branco, que também escreveu outras duas obras envolvendo figuras folclóricas e o meio ambiente, como O Saci e a reciclagem do lixo e Iara e a poluição das águas. Conheci este livro através da escola pelo programa do PLIC, que era um grupo de livros selecionados pala coordenação da escola. Cada criança levava um deles para ler em casa e depois fazia uma atividade como pintar a carinha feliz, normal ou zangada para indicar se gostou ou não da obra e desenhar sua parte favorita da história. Como vocês podem ver, eu fazia resenha de livros desde aquela época. Mas será que este livro continua bom agora que reli depois de adulta? Vamos descobrir.

            O Curupira não gosta quando os homens matam um animal sem necessidade. Mas ele já foi bem mais rigoroso no passado, acreditando que nenhum animal deveria se alimentar do outro e que todos deveriam comer plantas, pois elas eram capazes de crescer de novo. Por isso, decretou uma lei que proibia o consumo de carne na floresta. Qual será que foi o resultado?

            O tema do livro é a cadeia alimentar e o quanto ela é importante para que o ecossistema continue funcionando. Tudo isso é ensinado através da perspectiva do Curupira, figura do nosso imaginário popular que chama a atenção da criança, junto com os animais falantes. Apesar da história ser curta, seu texto é grande, por isso recomendo sua leitura para crianças a partir dos oito anos.

            Além da temática, sua ilustração também havia ficado em minha memória. Por isso, comprei a edição ilustrada por Lélis, que foi a versão que li quando era pequena. Coincidentemente, ele também ilustrou Aventuras do Barão de Münchhausen*, obra que já fiz resenha neste blog.

            É um bom livro. Gostei de ter relido. Recomendo sua leitura. Se deseja conhecê-lo, vá até a mata. Só não tente atacar um animal sem necessidade. Você não vai querer ver o Curupira zangado.

 

 

 

 

*Resenha do livro Aventuras do Barão de Münchhausen: Ponte para o Imaginário: Looney Tunes da Literatura


 

sexta-feira, 5 de junho de 2026

A Idealização do Outro

 


            Quando foi a última vez que trouxe um clássico brasileiro para o blog? Já faz um tempo não? Senhora foi publicado pela primeira vez em 1874, no formato de folhetim, e lançado como livro um ano depois. Foi escrito por um dos grandes autores do romantismo brasileiro, José de Alencar. Será que é bom? Vamos descobrir:

            Aurélia Camargo é uma moça que roubava a atenção de vários homens. Mas por achar que a queriam por sua riqueza, desdenhava deles. Ao ver que uma colega sua ficou noiva de um homem que não amava, Aurélia decide tomar este noivo para si oferecendo uma quantia maior de dote, mas pedindo a seu tio e tutor, Lemos, que deixasse o seu nome em segredo. Porém, neste ato de bondade, Aurélia esconde uma razão egoísta...

            Desta vez, farei diferente. Ao invés de começar pela análise da história, iniciarei pela descrição dos personagens. Como dito no resumo acima, Aurélia é uma moça independente, que desdenha daqueles que preferem a riqueza ao amor e por trás de sua máscara irônica, esconde uma mulher romântica. Quanto a Fernando Rodrigues de Seixas, o homem com quem a jovem se casa, é o seu primeiro amor, e apesar de ter trocado seu amor por Aurélia para casar por interesse, ainda possui um certo orgulho que faz cumprir com seu compromisso. O foco nos outros personagens é menor. As irmãs e mãe de Seixas serviram para mostrar as dificuldades financeiras que ele passava e o porquê de procurar uma noiva com grande dote, mas só tiveram aparição genuína em um capítulo. Isso também ocorre com Lemos, o tio interesseiro de Aurélia, que foi relevante para trama do casamento e para o passado de Aurélia. Depois, perdeu a importância. D. Firmina só serve como uma viúva que acompanha a moça. Adelaide Amaral e Eduardo Abreu, ex-noiva de Seixas e antigo pretendente de Aurélia respectivamente  só servem para fazer ciúmes ao casal.

            Como deu para perceber pelo parágrafo acima, a história foca no relacionamento de Aurélia e Fernando, o que não é de se surpreender, pois o livro é um clássico do romantismo brasileiro. Ambos começam seu casamento mal pois ao descobrir que foi “comprado” por Aurélia, Fernando cumpre o acordo, só obedecendo o que a moça deseja quando esta o ordena, sem lhe dar o amor que a jovem desejava. Enquanto Aurélia, queria que este se desculpasse por tê-la deixado não por amor a outra, mas sim pelo dinheiro e, como ele é muito orgulhoso, não o fez. Então, Aurélia acabava fazendo algumas vingancinhas para irritá-lo. A lição do livro é clara: casamento por interesse não traz felicidade. Apesar dos dois se amarem, o dinheiro e a “compra” os fizeram amargos um com o outro.

Porém, outra coisa me chamou a atenção que foi a idealização de Aurélia com relação ao amor: “Aurélia amava mais seu amor, do que seu amante; era mais poeta do que mulher; preferia o ideal ao homem”. Isso de esperar que seu amado seja do jeito que você imaginou ao invés de quem ele é verdadeiramente,  é algo que várias mulheres fazem e acabam se decepcionando. Aurélia quis se casar com seu primeiro e único amor esperando que acontecesse tudo do jeito que ela queria só para se decepcionar depois. Para um livro da era do romantismo, ele é bastante realista.

            Senhora faz parte dos três romances urbanos de Alencar, junto com Lucíola e Diva. Este último é mencionado na obra, tendo sido lido pelos protagonistas, com Fernando achando a mocinha pouco realista e Aurélia discordando dele, dizendo que se alguém contasse a história deles, também soaria inverossímil. Não sou contra esse tipo de artimanha, só acho que seria mais fascinante para o fã dessas histórias que os personagens de Diva existissem no mesmo mundo que os de Senhora. Algo interessante é que o narrador comenta que a história de Aurélia seria escrita por este mesmo autor, como se o que tivesse ocorrido no livro fosse real.

            Esperava mais dessa história. Apesar do final feliz, achei que teve poucos momentos de Aurélia e Fernando se amando para merecer este final. Mas se você deseja começar a ler clássicos brasileiros, este é um dos mais fáceis de entender. E por se tratar de um clássico, existem várias edições. Apesar da letra ser bem pequena, a minha edição  contém curiosidades no final sobre o autor e a obra. Então, escolha com carinho e deixe de lado o seu valor monetário.


sexta-feira, 29 de maio de 2026

Dois Irmãos

 


                Lá vou eu fazer a resenha de um livro que era para ter lido na época de faculdade, mas só li agora. Dois Irmãos foi escrito por Milton Hatoum no ano 2000. Do que será que ele se trata? Vamos descobrir:

            Yaqub e Omar são gêmeos, descendentes de libaneses, que moram em Manaus. Apesar da aparência idêntica, Yaqub é mais introvertido, estudioso e tem uma cicatriz no rosto feita por Omar devido a ciúmes, enquanto este último é um garoto problema mimado. Quando Yaqub voltou ao Brasil após passar cinco anos no Líbano, sua relação com Omar parece não ter melhorado...

            A estrutura do livro não é linear. O narrador, que é filho da empregada, vai e volta na contação da história. O primeiro capítulo começa com a morte de um dos membros da família enquanto o segundo conta sobre a infância dos gêmeos, em que a pessoa ainda era viva. Por ser um narrador personagem, grande parte do livro é contada sobre sua perspectiva e, o que ele não vivenciou, foi lhe contado por outros personagens. A história, como disse acima, acontece em Manaus e vai do início do século XX até a ditadura militar. Por isso, senti um pouco de dificuldade com o nome de animais e plantas dessa região, além de algumas palavras em árabe, devido a descendência libanesa da família.

            Apesar do título, a história não foca apenas nos irmãos, e sim na família como um todo. Ela é completamente disfuncional. Já comentei sobre os Dois Irmãos do título no resumo. Então, dedicarei este parágrafo aos outros membros da família. O patriarca Halim nunca quis ter filhos e só os teve devido a uma promessa que fez a esposa. Apesar disso, ele se dá bem com Yaqub e Rânia. Mas tem uma relação péssima com Omar, que além de ter uma personalidade “bon vivant” e não quer nada com nada, é muito agarrado com a mãe, Zana, que desde que Omar era novo, superprotege o filho devido a este ter nascido com problemas de saúde. Ela não deixa que ele namore sério com nenhuma mulher. Rânia, a irmã mais nova, parece ter uma admiração incestuosa com os gêmeos. Domingas é uma indígena que foi “adotada” para ser a empregada da casa, e infelizmente, nunca conseguiu voltar para sua aldeia. E por último, o narrador, filho de Domingas, que suspeita que um dos gêmeos seja o seu pai.

            Não é um livro que te traz uma sensação boa. Há muitos conflitos entre os familiares, raiva, ciúmes, rancor e será assim do começo ao fim. A minha opinião sobre ele é a mesma que sinto com relação aos textos de Clarice Lispector: é bem escrito, mas me traz desconforto. Por isso, não sei se devo recomendar ou não. Se a minha resenha te atraiu para o livro, vá em frente. Espero que o romance não te deixe no mesmo estado de Yaqub quando este voltou do Líbano.


sexta-feira, 15 de maio de 2026

Releitura Asiática de Os Seis Cisnes

 


Já ouviram falar do conto Os Seis Cisnes* dos irmãos Grimm? Ele envolve uma princesa que deve costurar seis camisas feitas de flor para quebrar a maldição de seus irmãos, que foram transformados em cisnes por sua madrasta, e tudo isso, sem que ela pudesse dizer uma palavra sequer. Sabia que esta história possui uma releitura com elementos asiáticos? Os Seis Grous foi escrito por Elizabeth Lin em 2021, sendo lançado no Brasil em 2022. Ele possui uma sequência chamada A Promessa do Dragão e uma prequela com o título Uma Maldição Dourada. Será que a leitura valeu a pena? Vamos descobrir.

            A princesa Shiori era a mais nova de sete irmãos e estava indo para sua indesejada cerimônia de noivado.  Mas escondida em suas vestes estava Kiki, um pássaro de papel que a jovem dera vida usando magia, algo proibido em sua nação. Kiki escapou e com medo de ser descoberta e punida, Shiori foi atrás dela, indo parar no Lago Sagrado. A moça nadou até lá, porém, suas vestimentas a puxaram para o fundo e lá ela viu um dragão...

            Além dos Seis Cisnes, várias histórias e lendas asiáticas foram mencionadas na história, como a lenda do coelho da lua, que é o símbolo do clã Bushian, a lenda da Princesa Kaguya e o mito do fio vermelho do destino. Mas o que mais me surpreendeu foi a menção do Pote Vazio, um conto chinês em que o imperador dá a cada criança uma semente para plantar uma flor e quem plantasse a flor mais bonita dentro de um ano, seria o seu sucessor. Todos plantaram belas flores, menos um garoto, que tentou de tudo, mas nada brotou. O imperador o escolheu devido a sua honestidade pois as sementes que havia dado eram de mentira, indicando que as outras crianças roubaram na competição. Este livro tem uma releitura legal que combinou com a história.

            A história por si só, é o que se espera de uma fantasia juvenil focado para um público feminino, com uma protagonista de personalidade forte e a única de seu povo com a habilidade de realizar magias, um romance e um provável triângulo amoroso. O livro termina em aberto dando margem para sua sequência.

Quanto aos personagens, como dito acima, a princesa Shiori, tem personalidade forte e arrogante, mas teve que passar por uma jornada que a deixou mais humilde e a valorizar as pequenas coisas. Algo que pode se destacar é seu interesse por comida. Seus seis irmãos são diferentes o suficiente para sabermos diferenciá-los. Kiki, o grou de origami é a amiga confidente de Shiori que coloca bom senso em sua cabeça. Seryu é um dragão arrogante que se importa com a princesa e foi seu mentor por um tempo. Ele não apareceu muito nesse livro, porém é bem provável que o vejamos mais na sequência. Takkan, o noivo prometido que Shiori se recusa a conhecer e deseja que desapareça da sua vida. Porém, ele provou não ser o bárbaro que a princesa havia imaginado. A primeira antagonista, Raikama, madrasta de Shiori, não é o que parece ser. Os outros antagonistas são genéricos, vilões típicos que querem poder.

            O livro é cheio de clichê? Sim, mas depois de ter lido Lilith de George MacDonald, ler algo mais simples e familiar ajudou a relaxar. Os Seis Grous é um bom livro para o público designado, apesar de não ser perfeito. Veremos se melhora na sequência. Nos encontramos no Reino dos Dragões.

 

* Vídeo do conto dos Seis Cisnes narrado por mim e ilustrado por Maya Flor: Os Seis Cisnes dos Irmãos Grimm


sexta-feira, 1 de maio de 2026

O Castelo no Espelho

 


                Gostam de um livro que faz referências a contos de fadas? Então é bem provável que esse livro seja para você. O castelo no espelho foi escrito por Mizuki Tsujimura em 2017, sendo lançado no Brasil em 2024. O romance teve uma adaptação cinematográfica em formato de anime em 2022 no Japão, que infelizmente não consegui assistir.

               Kokoro deixou de ir para a escola devido ao bullying que ela sofria. Ela vivia em seu quarto assistindo televisão, até que seu espelho começou a brilhar. Ao tocá-lo, ele a transportou para um castelo magnífico com uma estranha garotinha usando máscara de lobo. Kokoro quis voltar para casa, mas a menina-lobo a agarrou, dizendo que se ficasse, poderia realizar um desejo...

               Como disse no primeiro parágrafo, este livro traz muitas referências aos contos de fadas, que também são ditas pela boca da própria protagonista, que é fã dessas histórias. Mas os dois contos mais mencionados são A Chapeuzinho Vermelho e O Lobo e os Sete Cabritinhos*, sendo este segundo escrito pelos irmãos Grimm e é bastante popular no Japão, onde a história se passa. Aconselho a ler este último para melhor entendimento. Clássicos como Alice no País das Maravilhas, As Crônicas de Nárnia e Harry Potter também são mencionados.

            A história mistura a realidade com a fantasia, em que a protagonista sai de sua vida normal e vai para um local diferente, e este lugar se torna literalmente, a sua forma de escape. Mas também a ajuda a lidar com seus problemas através da conversa e da amizade que ela forma com os outros competidores que estão em busca da chave. Dentre os dois, o livro foca mais no drama dos personagens e suas relações enquanto a fantasia fica como pano de fundo, o que pode deixar aqueles que esperavam encontrar seres mágicos e outros desafios fantásticos decepcionados, pois não há nada disso aqui.

            Quanto aos personagens, os que mais se destacam são os jovens que competem pela chave. Kokoro, a protagonista, é uma menina tímida que gosta de ler, jogar e assistir novela. Fuka é introvertida, séria e não tem medo de dizer algumas verdades na cara. Aki é extrovertida, mas um pouco problemática. Masamune é um garoto sarcástico, viciado em jogos. Ureshino é um garoto gordinho que se apaixona facilmente e não tem medo de se expressar. Subaru é um garoto calmo e Rion é o mais atlético. Tanto ele quanto o Subaru são os mais genéricos do grupo em termos de personalidade. De importância, obviamente a Kokoro vem em primeiro por ser a principal, seguida por Rion e Aki. Os outros tiveram um tempo razoável para brilhar, com exceção de Subaru, que poderia ter tido um pouco mais de desenvolvimento.

               O livro tem um final agridoce, porém, sua leitura valeu a pena, por isso o recomendo para jovens e adultos. E lembrem-se: se tiver em um dia ruim, dê uma olhada no seu espelho. Talvez ele brilhe e abra uma passagem para outro mundo.


*Se desejam conhecer mais dessa história, assistam este vídeo: O Lobo e os Sete Cabritinhos dos Irmão Grimm


sexta-feira, 16 de janeiro de 2026

Lilith

 


            Volto depois de muito tempo com o “avô” da fantasia moderna. Lilith foi escrito por George MacDonald em 1895. Será que é bom? Vamos descobrir:

            Vane herdou uma casa dos pais e aproveitava sua biblioteca, até que numa tarde, avistou um velho desconhecido pegando um dos livros. Como este desapareceu, acreditou que não passasse de uma ilusão, mas ao ir em direção onde estava o livro, viu que este havia realmente sumido. Na manhã seguinte, o objeto estava de volta ao seu lugar.  Porém, três dias depois, o mesmo fenômeno voltara a acontecer, só que com um livro que estava preso e ninguém nunca conseguiu tirar. O mordomo lhe contou sobre a lenda do senhor Corvo, um antigo bibliotecário que servia o senhor Ascendente, um homem que lia de tudo, até que os dois sumiram, e disse que esta aparição que Vane vira era o senhor Corvo. Semanas depois, ele o viu novamente e o seguiu até um sótão. O velho sumira de novo. No local, havia um espelho que não refletia e sim mostrava um local selvagem. Vane achou que fosse uma pintura, até que avistou um corvo se mexer lá dentro e ao se aproximar, começou a cair de uma grande altura...

            Como você espera que seja a escrita do autor que foi mentor de Lewis Carroll (Alice no País das Maravilhas)? Como devia esperar do escritor de Phantastes, Lilith tem uma narrativa nonsense, que só começa a fazer sentindo no meio até que chega no final e volta a ser nonsense.  

Este livro também é classificado como ficção cristã, contendo personagens da Bíblia que não irei mencionar para não dar spoilers. Mas uma figura que posso comentar é a de Lilith. Existe um mito de que ela foi a primeira mulher de Adão apesar da Bíblia nunca mencionar o seu nome. Há esta interpretação devido a uma passagem bíblica que Deus menciona que criou um homem e uma mulher e em outro capítulo especifica que criou Adão e das costelas dele, criou Eva. Na história do Alfabeto de Bem Sirach (entre 700 e 1000 d.C), Lilith é mulher de Adão, que o abandona e se junta a espíritos do mal. Três anjos tentam buscá-la e ameaçam matar cem filhos dela se ela não voltar. Ela recusa e os anjos ameaçam afogá-la. Ela recusa novamente, dizendo que foi criada para causar doenças em bebês. Ela faz o juramento aos anjos que aceitaria ter cem filhos dela mortos e se visse os nomes dos três anjos, não faria mal a nenhum bebê. Essa é uma explicação do porquê os judeus faziam amuletos com o nome desses anjos para proteger os bebês. O autor deve ter se inspirado nessa história para criar a vilã do seu romance.

Agora que falei da vilã, nada mais justo do que eu comentar do mocinho. O senhor Vane (traduzido como Catavento em português. Prefiro o nome original e é este que usarei para mencioná-lo) é com quem o leitor irá se identificar nesse mundo estranho. Seria o equivalente a Alice quando entra no País das Maravilhas, a pessoa normal que tem que lidar e se adaptar num mundo estranho. Faz perguntas, mas só recebe enigmas em respostas. Outro personagem que se destaca é o senhor Corvo, que serve como guia e mentor para o protagonista. Ele é típico homem misterioso cujas respostas apenas confundem o herói. Não gostei desse personagem.

Outra coisa interessante de se comentar é como esse livro demonstra a crença religiosa do autor. George MacDonald era cristão universalista e acreditava que todas as almas seriam salvas, mesmos as ruins, passariam por um processo de purificação antes de irem para o céu.

            Devido a este livro se passar num mundo fantástico estranho, onde minhocas que saem da terra podem voar, certos aspectos podem ser interpretados de várias formas pelo leitor. Por exemplo, o senhor Vane encontra em sua jornada um grupo de crianças (os pequeninos) que não cresciam e, se crescessem, se tornavam gigantes burros e maus. Interpretei como uma metáfora para o crescimento, onde a criança começa inocente e pura e quanto mais cresce, mais peca e sua inocência vai desaparecendo. O senhor Vane teve medo de ensinar coisas para os pequeninos devido a esse acontecimento, mas ele aprende com o senhor Corvo que não é o conhecimento em si que é perigoso e sim o grau de importância que é dado a ele que pode ser nocivo.

            O livro tem uma temática interessante, mas por entrar muito nesse território nonsense, ele fica confuso e chato para quem não gosta desta loucura, que é o meu caso. Mesmo que seja um livro dirigido ao público infanto-juvenil, indico que leia As Crônicas de Nárnia para quem deseja ler uma fantasia cristã mais pé no chão. Se ainda assim deseja conhecer este livro, abra a porta para este mundo, só tenha cuidado com os monstros que encontrar na floresta.  


sexta-feira, 9 de janeiro de 2026

Se Tu Me Quisesse

 


            Depois de um bom tempo, vamos para uma leitura do Kindle. Se Tu Me Quisesse foi escrito por Jadna Alana em 2022. Escolhi este livro após assistir um vídeo* que falava sobre literatura steampunk. Será que é bom? Vamos para a resenha.

            Lila saiu de sua velha torre, próxima ao Rio das Piabas, e viajou até uma vila distante, carregando nas costas asas mecânicas. Ela assistiu a um show de mágica e seu olhar atraiu o artista Dino. Ele puxa conversa, mas no final, ela acaba se despedindo dizendo que não o veria mais. Porém, uma dor no seu coração fez com que ela ficasse...

Os elementos steampunk são poucos, como as asas mecânicas de Lila e o chapéu de mágico de Dino, que abre com uma chave. Isso me decepcionou, pois imaginava que tivesse mais coisas.

            O livro é bem curto, contendo apenas oito capítulos e se trata de duas pessoas, Lila e Dino, que se apaixonam à primeira vista, mas têm dificuldade de expressar esse sentimento um para o outro. Ambos têm traumas envolvendo os pais que, no caso de Dino, explica o porquê dele não querer pedir a Lila que ficasse com ele. Enquanto os sentimentos de Lila são representados através de suas asas, que quando são consertadas por Dino, tira o peso de suas costas e a faz voar como se a presença do mágico a deixasse mais leve e feliz, fazendo-a esquecer da solidão.  

Uma história bonitinha, porém previsível. Esperava algo mais dela. Mas se deseja conhecê-la, saia de casa e caminhe. Quem sabe você não encontre um mágico no caminho.

 

 

 

*Link para o vídeo: Cyberpunk, Solarpunk e Steampunk - O que são? + Dicas de livros - YouTube


quarta-feira, 31 de dezembro de 2025

Desejo de Ano Novo

 


                                                                   Texto: Mariana Torres

                                                                    Desenho: Maya Flor

sexta-feira, 31 de outubro de 2025

O Primeiro Lobisomem da Literatura

 


            Ao contrário do monstro de Frankenstein, o lobisomem não tem uma história específica, tendo surgido das crenças de vários povos. Mas vocês sabem qual foi a história que iniciou a entrada deste monstro na literatura? Foi O Lobisomem, conto escrito por Richard Thompson em 1828. Será que ele teve um bom início? Vamos descobrir:

            Na cidade de St. Yrieux, havia relatos de que tinha um ou mais lobisomens habitando a floresta de Limousin. Um grupo de seus cidadãos estava reunido na Taverna do Cavaleiro Bayard, incluindo o doutor Antoine Du Pilon, conhecido por sua grande inteligência, até que um homem entra ferido no local...

            Infelizmente, este resumo acima é a parte mais misteriosa do livro, pois a identidade do lobisomem é previsível. Estava torcendo para ser surpreendida no final, mas não foi o caso. A única surpresa interessante que tive foi que o doutor, que nas histórias de terror, costuma ser o mais inteligente e o que resolve tudo, não é o herói da história, e sim a parte cômica.

            Aqui, o lobisomem não morre por bala de prata, sendo morto por armas normais. Aparentemente, ele parece ter controle da sua transformação e tem consciência quando transformado, algo que não é visto nas adaptações focadas no terror.

            Pelo que escrevi acima, deu para concluir que não gostei muito da história. Se o autor invertesse a ordem da narrativa e começasse pelo meu resumo, teria sido um pouco melhor na parte do mistério. Porém, ainda assim recomendo a leitura para aqueles que gostam de lobisomens e queiram saber como ele entrou no universo literário. Por isso, dê uma espiada. Só cuidado ao entrar na floresta Limousin.

 


sexta-feira, 17 de outubro de 2025

O Fantasma da Ópera

 


                O Fantasma da Ópera é um clássico do teatro musical. Vocês sabiam que ele foi adaptado de um romance? Sua publicação foi serializada no jornal Le Gaulois de setembro de1909 a janeiro de 1910, sendo lançado em livro três meses depois. Foi escrito pelo francês Gaston Leurox, que usou como inspiração acontecimentos históricos ocorridos na Ópera de Paris no século XIX, com a descoberta de um cadáver em 1907 e a queda de um lustre em 1896. Também se inspirou na lenda de um pianista que sobreviveu a um incêndio de 1873 e se refugiou no andar de baixo do teatro para esconder suas queimaduras. A junção desses elementos pode dar uma boa história. Será que o autor entregou? Vamos descobrir.

            Há uma lenda de um fantasma circulando pela Ópera de Paris, causando vários acidentes e assustando as dançarinas e trabalhadores. Enquanto isso, Christine Daaé se destaca em sua música. Ela chamou a atenção do jovem Visconde Raoul, que esperou que a moça ficasse sozinha para falar com ela. Porém, ele a ouviu conversando com um homem em seu camarim. Quando Christine saiu, Raoul entrou para encarar o seu rival. Mas não encontrou ninguém...

            A estrutura do livro lembra um pouco a do Drácula, em que a história é contada através de memórias escritas e entrevista de personagens. A diferença é que aqui, elas são recolhidas por um investigador do caso, cujo nome é o mesmo do autor. Ele é o narrador que junta toda informação para formar uma narrativa coesa. Leurox (o personagem) também complementa usando notas de rodapé. Por ser conhecido na França como um escritor de romances investigativos, como O Mistério do Quarto Amarelo de 1907, faz sentido que o escritor utilize desses recursos na contação de sua obra. Uma pena que por causa da peça de teatro, a revelação de que o fantasma era um homem faz com que o romance perca seu mistério.

            Quanto aos personagens, diria que o triângulo amoroso poderia ter sido melhor. Christine é ingênua e boazinha demais, sentia pena do fantasma apesar deste ter se mostrado um assassino louco. Apesar disso, se não fosse seu bom coração, a história e o desfecho não teriam acontecido. Raoul era para ter sido o mocinho cujos leitores deveriam torcer para que Christine ficasse no final, mais sua personalidade infantil, ultrarromântica e ciumenta fez com que achasse o personagem chato e me fez querer que a moça não ficasse com nenhum dos dois. O fantasma é um vilão cartunesco que você sente prazer ao vê-lo derrotado. Um gênio das maquinarias e da arte que teria sido bem aclamado se não parecesse um zumbi com olhos amarelos que brilham no escuro. Seu passado explica o porquê dele não sente nada ao matar. Mas isso não justifica suas ações e dá para entender o motivo de Christine não querer ficar com ele, pois além de sua aparência horrorosa, era maligno. Um quarto protagonista que foi introduzido no momento do perigo e que a adaptação musical cortou por considerar um estereótipo racista é o Persa, o que é uma pena pois achei ele o melhor personagem devido ao seu passado com o fantasma. Há também o “drama” dos novos diretores, Richard e Moncharmin, tentando descobrir a identidade do fantasma, que sai um pouco da parte séria e vai para um tom mais leve da trama.

            Há muitas diferenças entre o livro e o musical. Além da aparência do fantasma, que mencionei acima, que no musical aparece só com metade do rosto deformado, sua icônica máscara é preta no livro enquanto no musical é branca. Christine é sueca e descrita como loira enquanto suas adaptações a retratam como morena. A senhora Giry, que é a lanterninha que recebe gorjeta do fantasma por fazer favores, mas nunca o viu pessoalmente, virou professora de balé e tomou o lugar do Persa na adaptação teatral. E, é claro, muito da história foi encurtado e várias outras modificações foram feitas, como Christine sentindo atração romântica pelo fantasma no musical.

            Apesar das minhas ressalvas com relação ao triângulo amoroso, o livro me entreteve. Recomendo aos fãs de literatura gótica romântica. Só não entrem no Camarote Cinco.


sexta-feira, 3 de outubro de 2025

O Privilégio do Belo

 


                O que você faria se parasse de envelhecer aos dezessete e um retrato seu envelhecesse em seu lugar? Será que isso é tão bom quanto parece? O Retrato de Dorian Gray escrito por Oscar Wilde em 1890 responde essas perguntas. Gostaria de saber as respostas? Vamos para o resumo:

            Dorian Gray é um belo jovem que foi a casa de seu amigo, Basil Hallward, para que este pintasse o seu retrato. Lá também encontrou lorde Henry Wotton, amigo de Basil, e numa conversa entre ele e Gray, acaba mencionado que a juventude não é eterna, que o tempo passaria, que Dorian envelheceria e sua beleza esvaneceria. Quando Basil terminou a pintura, todos acharam bela e Dorian desejou que a pintura envelhecesse em seu lugar...

            Devo dizer que fiquei surpresa em saber que a história não envolveu pacto com o Diabo. O retrato de Dorian começou a envelhecer e mudar sua aparência misteriosamente conforme o jovem fazia suas maldades. Não há explicação para o ocorrido, mas saber o porquê de isto estar acontecendo não importa. O foco do livro é a consequência deste fenômeno.  

            Dentre os personagens, três se destacam: o pintor Basil Hallward, que conheceu Dorian e vê nele não só um modelo, mas um ser próximo do divino que o inspira na hora de fazer suas pinturas; Henry Wotton, um sujeito que tem um pensamento individualista, que acha que todos deviam agir pelo prazer sem pensar nas consequências. Ele faz o papel do diabo no ombro de Dorian enquanto Basil faz o papel de anjo. Wotton influencia o rapaz a ir pelo mal caminho por mera diversão. E por último, temos o protagonista, Dorian Gray, um rapaz que começa bom, ingênuo e bastante emotivo até que começa a seguir esta vida de prazer sem se importar com os outros. Ele é descrito como um jovem de cachos loiros e olhos azuis, algo que a capa do livro não ilustrou. Isso dá a ele uma aparência angelical.

            Por sua aparência se manter a mesma, Dorian se entrega aos vícios e prazeres libidinosos, fazendo com que várias pessoas que ele se relacionou o detestassem por ter sido má influência e arruinado a vida delas. Mesmo assim, Dorian conseguia manter algumas de suas amizades, pois sua beleza era encantadora e pueril. Estas acreditavam que tudo aquilo que ele fez não passava de boatos. Creio que muitos têm este sentimento quando descobrem que uma celebridade fez algo de errado, principalmente quando ela tem uma beleza estonteante. Este é privilégio do belo. É quase que instintivo nós vermos algo bonito e associarmos com o bom e o feio com o mal. Mas nunca julgue o livro pela capa. Devemos julgar pelo conteúdo.

            Respondendo à pergunta do primeiro parágrafo, não seria ruim se um retrato envelhecesse em seu lugar. Só que o retrato de Dorian Gray não apenas envelheceu. Ele se desfigurou conforme as maldades e os vícios do jovem. Ele então deixa de ser um retrato de belo moço e passa a refletir a alma de um homem corrompido. Você aguentaria conviver com um espelho que refletisse todos os seus pecados?

            O Retrato de Dorian Gray é um ótimo livro para se entreter e pensar, não só nos assuntos que mencionei acima, mas também pelas opiniões Wotton, que apesar de discordar de vários de seus pensamentos, muitas de suas falas podem dar bons temas para debates. Então, venha dar uma olhadinha. Só não faça isso próximo de seu retrato.