sexta-feira, 24 de julho de 2026
sexta-feira, 17 de julho de 2026
Biblioteca no Prédio
Existem vários tipos de
biblioteca: bibliotecas comunitárias, que focam numa comunidade local;
bibliotecas escolares, que focam nos alunos e professores de uma escola;
bibliotecas universitárias, que focam no corpo discente e docente de uma
universidade; bibliotecas especializadas, cujo acervo tem uma temática
específica, como por exemplo a biblioteca do CBPF (Centro Brasileiro de
Pesquisas Físicas), que é voltada para a física; e a biblioteca pessoal, que
você como leitor personaliza com base nos seus gostos. Mas vocês já ouviram
falar em uma biblioteca de prédio?
O prédio dos meus pais decidiu fazer uma e todos os
moradores podem deixar livros que não desejam mais para que outros possam pegar
e devolver após a conclusão da leitura. Achei essa ideia interessante, porém,
tenho algumas ressalvas. Por mais que essa biblioteca seja um bom incentivo
para a leitura, seu acervo é composto em sua maioria por livros de autoajuda,
que quase ninguém lê. Os livros que mais vi sendo pegos foram os infantis,
sendo que alguns deles não foram devolvidos até hoje. Por essa razão, a pessoa
que deixou o livro lá tem que estar desapegada dele, pois há chance de ele não
ser devolvido. Um bibliotecário faz falta nessas horas... O último ponto
negativo foi o local de escolha para a biblioteca. Por mais que ela esteja
localizada na parte coberta do playground, chuva com ventania ainda podem deixar
os livros molhados e úmidos. Por isso, recomendaria deixá-la num ambiente mais
fechado do prédio.
Se derem um jeito nos pontos negativos, acredito que essa
iniciativa pode dar certo e ajude a trazer mais pessoas para o mundo da
leitura. Compartilhe essa ideia com seus vizinhos e síndico. Quanto mais
leitores formarmos, mais chance temos de desenvolver pessoas inteligentes, pois
uma boa leitura ajuda a exercitar o seu cérebro, desenvolvendo sua imaginação e
te fazendo refletir.
sexta-feira, 3 de julho de 2026
Curupira e o equilíbrio da natureza
Já leram algum livro na
infância que vocês se lembram da história, mas não se lembram do título?
Aconteceu comigo e, depois de muitos anos, finalmente o encontrei. Curupira
e o equilíbrio da natureza foi escrito em 1993 pelo biólogo Samuel Murgel
Branco, que também escreveu outras duas obras envolvendo figuras folclóricas e
o meio ambiente, como O Saci e a reciclagem do lixo e Iara e a
poluição das águas. Conheci este livro através da escola pelo programa do
PLIC, que era um grupo de livros selecionados pala coordenação da escola. Cada
criança levava um deles para ler em casa e depois fazia uma atividade como
pintar a carinha feliz, normal ou zangada para indicar se gostou ou não da obra
e desenhar sua parte favorita da história. Como vocês podem ver, eu fazia
resenha de livros desde aquela época. Mas será que este livro continua bom
agora que reli depois de adulta? Vamos descobrir.
O Curupira não gosta quando os homens matam um animal sem
necessidade. Mas ele já foi bem mais rigoroso no passado, acreditando que
nenhum animal deveria se alimentar do outro e que todos deveriam comer plantas,
pois elas eram capazes de crescer de novo. Por isso, decretou uma lei que
proibia o consumo de carne na floresta. Qual será que foi o resultado?
O tema do livro é a cadeia alimentar e o quanto ela é
importante para que o ecossistema continue funcionando. Tudo isso é ensinado
através da perspectiva do Curupira, figura do nosso imaginário popular que
chama a atenção da criança, junto com os animais falantes. Apesar da história
ser curta, seu texto é grande, por isso recomendo sua leitura para crianças a
partir dos oito anos.
Além da temática, sua ilustração também havia ficado em
minha memória. Por isso, comprei a edição ilustrada por Lélis, que foi a versão
que li quando era pequena. Coincidentemente, ele também ilustrou Aventuras
do Barão de Münchhausen*, obra que já fiz resenha neste blog.
É um bom livro. Gostei de ter relido. Recomendo sua
leitura. Se deseja conhecê-lo, vá até a mata. Só não tente atacar um animal sem
necessidade. Você não vai querer ver o Curupira zangado.
*Resenha do livro
Aventuras do Barão de Münchhausen: Ponte
para o Imaginário: Looney Tunes da Literatura
quinta-feira, 11 de junho de 2026
sexta-feira, 5 de junho de 2026
A Idealização do Outro
Quando foi a última vez
que trouxe um clássico brasileiro para o blog? Já faz um tempo não? Senhora
foi publicado pela primeira vez em 1874, no formato de folhetim, e lançado como
livro um ano depois. Foi escrito por um dos grandes autores do romantismo
brasileiro, José de Alencar. Será que é bom? Vamos descobrir:
Aurélia Camargo é uma moça que roubava a atenção de
vários homens. Mas por achar que a queriam por sua riqueza, desdenhava deles. Ao
ver que uma colega sua ficou noiva de um homem que não amava, Aurélia decide
tomar este noivo para si oferecendo uma quantia maior de dote, mas pedindo a
seu tio e tutor, Lemos, que deixasse o seu nome em segredo. Porém, neste ato de
bondade, Aurélia esconde uma razão egoísta...
Desta vez, farei diferente. Ao invés de começar pela
análise da história, iniciarei pela descrição dos personagens. Como dito no
resumo acima, Aurélia é uma moça independente, que desdenha daqueles que preferem
a riqueza ao amor e por trás de sua máscara irônica, esconde uma mulher
romântica. Quanto a Fernando Rodrigues de Seixas, o homem com quem a jovem se
casa, é o seu primeiro amor, e apesar de ter trocado seu amor por Aurélia para
casar por interesse, ainda possui um certo orgulho que faz cumprir com seu
compromisso. O foco nos outros personagens é menor. As irmãs e mãe de
Seixas serviram para mostrar as dificuldades financeiras que ele passava e o
porquê de procurar uma noiva com grande dote, mas só tiveram aparição genuína
em um capítulo. Isso também ocorre com Lemos, o tio interesseiro de Aurélia,
que foi relevante para trama do casamento e para o passado de Aurélia. Depois,
perdeu a importância. D. Firmina só serve como uma viúva que acompanha a moça. Adelaide
Amaral e Eduardo Abreu, ex-noiva de Seixas e antigo pretendente de Aurélia
respectivamente só servem para fazer
ciúmes ao casal.
Como deu para perceber pelo parágrafo acima, a história
foca no relacionamento de Aurélia e Fernando, o que não é de se surpreender,
pois o livro é um clássico do romantismo brasileiro. Ambos começam seu
casamento mal pois ao descobrir que foi “comprado” por Aurélia, Fernando cumpre
o acordo, só obedecendo o que a moça deseja quando esta o ordena, sem lhe dar o
amor que a jovem desejava. Enquanto Aurélia,
queria que este se desculpasse por tê-la deixado não por amor a outra, mas sim
pelo dinheiro e, como ele é muito orgulhoso, não o fez. Então, Aurélia acabava
fazendo algumas vingancinhas para irritá-lo. A lição do livro é clara:
casamento por interesse não traz felicidade. Apesar dos dois se amarem, o
dinheiro e a “compra” os fizeram amargos um com o outro.
Porém, outra coisa me chamou a atenção que foi a idealização de Aurélia com relação ao amor: “Aurélia amava mais seu amor, do que seu amante; era mais poeta do que mulher; preferia o ideal ao homem”. Isso de esperar que seu amado seja do jeito que você imaginou ao invés de quem ele é verdadeiramente, é algo que várias mulheres fazem e acabam se decepcionando. Aurélia quis se casar com seu primeiro e único amor esperando que acontecesse tudo do jeito que ela queria só para se decepcionar depois. Para um livro da era do romantismo, ele é bastante realista.
Senhora faz parte dos três romances urbanos de
Alencar, junto com Lucíola e Diva. Este último é mencionado na
obra, tendo sido lido pelos protagonistas, com Fernando achando a mocinha pouco
realista e Aurélia discordando dele, dizendo que se alguém contasse a história
deles, também soaria inverossímil. Não sou contra esse tipo de artimanha, só
acho que seria mais fascinante para o fã dessas histórias que os personagens de
Diva existissem no mesmo mundo que os de Senhora. Algo
interessante é que o narrador comenta que a história de Aurélia seria escrita
por este mesmo autor, como se o que tivesse ocorrido no livro fosse real.
Esperava mais dessa história. Apesar do final feliz, achei
que teve poucos momentos de Aurélia e Fernando se amando para merecer este
final. Mas se você deseja começar a ler clássicos brasileiros, este é um dos
mais fáceis de entender. E por se tratar de um clássico, existem várias
edições. Apesar da letra ser bem pequena, a minha edição contém curiosidades no final sobre o autor e a
obra. Então, escolha com carinho e deixe de lado o seu valor monetário.
sexta-feira, 29 de maio de 2026
Dois Irmãos
Lá vou eu fazer a resenha
de um livro que era para ter lido na época de faculdade, mas só li agora. Dois
Irmãos foi escrito por Milton Hatoum no ano 2000. Do que será que ele se
trata? Vamos descobrir:
Yaqub e Omar são gêmeos, descendentes
de libaneses, que moram em Manaus. Apesar da aparência idêntica, Yaqub é mais
introvertido, estudioso e tem uma cicatriz no rosto feita por Omar devido a
ciúmes, enquanto este último é um garoto problema mimado. Quando Yaqub voltou ao
Brasil após passar cinco anos no Líbano, sua relação com Omar parece não ter
melhorado...
A estrutura do livro não é linear. O narrador, que é
filho da empregada, vai e volta na contação da história. O primeiro capítulo
começa com a morte de um dos membros da família enquanto o segundo conta sobre
a infância dos gêmeos, em que a pessoa ainda era viva. Por ser um narrador
personagem, grande parte do livro é contada sobre sua perspectiva e, o que ele
não vivenciou, foi lhe contado por outros personagens. A história, como disse
acima, acontece em Manaus e vai do início do século XX até a ditadura militar.
Por isso, senti um pouco de dificuldade com o nome de animais e plantas dessa
região, além de algumas palavras em árabe, devido a descendência libanesa da
família.
Apesar do título, a história não foca apenas nos irmãos,
e sim na família como um todo. Ela é completamente disfuncional. Já comentei sobre
os Dois Irmãos do título no resumo. Então, dedicarei este parágrafo aos
outros membros da família. O patriarca Halim nunca quis ter filhos e só os teve
devido a uma promessa que fez a esposa. Apesar disso, ele se dá bem com Yaqub e
Rânia. Mas tem uma relação péssima com Omar, que além de ter uma personalidade
“bon vivant” e não quer nada com nada, é muito agarrado com a mãe, Zana, que
desde que Omar era novo, superprotege o filho devido a este ter nascido com
problemas de saúde. Ela não deixa que ele namore sério com nenhuma mulher. Rânia,
a irmã mais nova, parece ter uma admiração incestuosa com os gêmeos. Domingas é
uma indígena que foi “adotada” para ser a empregada da casa, e infelizmente,
nunca conseguiu voltar para sua aldeia. E por último, o narrador, filho de
Domingas, que suspeita que um dos gêmeos seja o seu pai.
Não é um livro que te traz uma sensação boa. Há muitos
conflitos entre os familiares, raiva, ciúmes, rancor e será assim do começo ao
fim. A minha opinião sobre ele é a mesma que sinto com relação aos textos de
Clarice Lispector: é bem escrito, mas me traz desconforto. Por isso, não sei se
devo recomendar ou não. Se a minha resenha te atraiu para o livro, vá em
frente. Espero que o romance não te deixe no mesmo estado de Yaqub quando este
voltou do Líbano.
sexta-feira, 22 de maio de 2026
sexta-feira, 15 de maio de 2026
Releitura Asiática de Os Seis Cisnes
Já
ouviram falar do conto Os Seis Cisnes* dos irmãos Grimm? Ele envolve uma
princesa que deve costurar seis camisas feitas de flor para quebrar a maldição
de seus irmãos, que foram transformados em cisnes por sua madrasta, e tudo
isso, sem que ela pudesse dizer uma palavra sequer. Sabia que esta história
possui uma releitura com elementos asiáticos? Os Seis Grous foi escrito
por Elizabeth Lin em 2021, sendo lançado no Brasil em 2022. Ele possui uma
sequência chamada A Promessa do Dragão e uma prequela com o título Uma
Maldição Dourada. Será que a leitura valeu a pena? Vamos descobrir.
A princesa Shiori era a mais nova de sete irmãos e estava
indo para sua indesejada cerimônia de noivado.
Mas escondida em suas vestes estava Kiki, um pássaro de papel que a
jovem dera vida usando magia, algo proibido em sua nação. Kiki escapou e com
medo de ser descoberta e punida, Shiori foi atrás dela, indo parar no Lago
Sagrado. A moça nadou até lá, porém, suas vestimentas a puxaram para o fundo e
lá ela viu um dragão...
Além dos Seis Cisnes, várias histórias e
lendas asiáticas foram mencionadas na história, como a lenda do coelho da lua,
que é o símbolo do clã Bushian, a lenda da Princesa Kaguya e o mito do fio
vermelho do destino. Mas o que mais me surpreendeu foi a menção do Pote
Vazio, um conto chinês em que o imperador dá a cada criança uma semente
para plantar uma flor e quem plantasse a flor mais bonita dentro de um ano,
seria o seu sucessor. Todos plantaram belas flores, menos um garoto, que tentou
de tudo, mas nada brotou. O imperador o escolheu devido a sua honestidade pois
as sementes que havia dado eram de mentira, indicando que as outras crianças roubaram
na competição. Este livro tem uma releitura legal que combinou com a história.
A história por si só, é o que se espera de uma fantasia
juvenil focado para um público feminino, com uma protagonista de personalidade
forte e a única de seu povo com a habilidade de realizar magias, um romance e
um provável triângulo amoroso. O livro termina em aberto dando margem para sua
sequência.
Quanto
aos personagens, como dito acima, a princesa Shiori, tem personalidade forte e
arrogante, mas teve que passar por uma jornada que a deixou mais humilde e a
valorizar as pequenas coisas. Algo que pode se destacar é seu interesse por
comida. Seus seis irmãos são diferentes o suficiente para sabermos
diferenciá-los. Kiki, o grou de origami é a amiga confidente de Shiori que
coloca bom senso em sua cabeça. Seryu é um dragão arrogante que se importa com
a princesa e foi seu mentor por um tempo. Ele não apareceu muito nesse livro, porém
é bem provável que o vejamos mais na sequência. Takkan, o noivo prometido que Shiori se recusa a conhecer e deseja que desapareça da sua vida. Porém,
ele provou não ser o bárbaro que a princesa havia imaginado. A primeira
antagonista, Raikama, madrasta de Shiori, não é o que parece ser. Os outros
antagonistas são genéricos, vilões típicos que querem poder.
O livro é cheio de clichê? Sim, mas depois de ter lido Lilith
de George MacDonald, ler algo mais simples e familiar ajudou a relaxar. Os
Seis Grous é um bom livro para o público designado, apesar de não ser perfeito.
Veremos se melhora na sequência. Nos encontramos no Reino dos Dragões.
* Vídeo do conto dos Seis Cisnes narrado por mim e ilustrado por Maya Flor: Os Seis Cisnes dos Irmãos Grimm
sexta-feira, 1 de maio de 2026
O Castelo no Espelho
Gostam de um livro que faz referências a contos de fadas? Então é bem provável que esse livro seja para você. O castelo no espelho foi escrito por Mizuki Tsujimura em 2017, sendo lançado no Brasil em 2024. O romance teve uma adaptação cinematográfica em formato de anime em 2022 no Japão, que infelizmente não consegui assistir.
Kokoro deixou de ir para a escola devido ao bullying que ela sofria. Ela vivia em seu quarto assistindo televisão, até que seu espelho começou a brilhar. Ao tocá-lo, ele a transportou para um castelo magnífico com uma estranha garotinha usando máscara de lobo. Kokoro quis voltar para casa, mas a menina-lobo a agarrou, dizendo que se ficasse, poderia realizar um desejo...
Como disse no primeiro parágrafo, este livro traz muitas referências aos contos de fadas, que também são ditas pela boca da própria protagonista, que é fã dessas histórias. Mas os dois contos mais mencionados são A Chapeuzinho Vermelho e O Lobo e os Sete Cabritinhos*, sendo este segundo escrito pelos irmãos Grimm e é bastante popular no Japão, onde a história se passa. Aconselho a ler este último para melhor entendimento. Clássicos como Alice no País das Maravilhas, As Crônicas de Nárnia e Harry Potter também são mencionados.
A história mistura a realidade com a fantasia, em que a protagonista sai de sua vida normal e vai para um local diferente, e este lugar se torna literalmente, a sua forma de escape. Mas também a ajuda a lidar com seus problemas através da conversa e da amizade que ela forma com os outros competidores que estão em busca da chave. Dentre os dois, o livro foca mais no drama dos personagens e suas relações enquanto a fantasia fica como pano de fundo, o que pode deixar aqueles que esperavam encontrar seres mágicos e outros desafios fantásticos decepcionados, pois não há nada disso aqui.
Quanto aos personagens, os que mais se destacam são os jovens que competem pela chave. Kokoro, a protagonista, é uma menina tímida que gosta de ler, jogar e assistir novela. Fuka é introvertida, séria e não tem medo de dizer algumas verdades na cara. Aki é extrovertida, mas um pouco problemática. Masamune é um garoto sarcástico, viciado em jogos. Ureshino é um garoto gordinho que se apaixona facilmente e não tem medo de se expressar. Subaru é um garoto calmo e Rion é o mais atlético. Tanto ele quanto o Subaru são os mais genéricos do grupo em termos de personalidade. De importância, obviamente a Kokoro vem em primeiro por ser a principal, seguida por Rion e Aki. Os outros tiveram um tempo razoável para brilhar, com exceção de Subaru, que poderia ter tido um pouco mais de desenvolvimento.
O livro tem um final agridoce, porém, sua leitura valeu a pena, por isso o recomendo para jovens e adultos. E lembrem-se: se tiver em um dia ruim, dê uma olhada no seu espelho. Talvez ele brilhe e abra uma passagem para outro mundo.
*Se desejam conhecer mais dessa história, assistam este vídeo: O Lobo e os Sete Cabritinhos dos Irmão Grimm
sexta-feira, 17 de abril de 2026
sexta-feira, 23 de janeiro de 2026
sexta-feira, 16 de janeiro de 2026
Lilith
Volto depois de muito
tempo com o “avô” da fantasia moderna. Lilith foi escrito por George
MacDonald em 1895. Será que é bom? Vamos descobrir:
Vane herdou uma casa dos pais e aproveitava sua
biblioteca, até que numa tarde, avistou um velho desconhecido pegando um dos
livros. Como este desapareceu, acreditou que não passasse de uma ilusão, mas ao
ir em direção onde estava o livro, viu que este havia realmente sumido. Na
manhã seguinte, o objeto estava de volta ao seu lugar. Porém, três dias depois, o mesmo fenômeno
voltara a acontecer, só que com um livro que estava preso e ninguém nunca
conseguiu tirar. O mordomo lhe contou sobre a lenda do senhor Corvo, um antigo
bibliotecário que servia o senhor Ascendente, um homem que lia de tudo, até que
os dois sumiram, e disse que esta aparição que Vane vira era o senhor Corvo.
Semanas depois, ele o viu novamente e o seguiu até um sótão. O velho sumira de
novo. No local, havia um espelho que não refletia e sim mostrava um local
selvagem. Vane achou que fosse uma pintura, até que avistou um corvo se mexer
lá dentro e ao se aproximar, começou a cair de uma grande altura...
Como você espera que seja a escrita do autor que foi
mentor de Lewis Carroll (Alice no País das Maravilhas)? Como devia
esperar do escritor de Phantastes, Lilith tem uma narrativa nonsense,
que só começa a fazer sentindo no meio até que chega no final e volta a ser nonsense.
Este
livro também é classificado como ficção cristã, contendo personagens da Bíblia
que não irei mencionar para não dar spoilers. Mas uma figura que posso comentar
é a de Lilith. Existe um mito de que ela foi a primeira mulher de Adão apesar
da Bíblia nunca mencionar o seu nome. Há esta interpretação devido a uma
passagem bíblica que Deus menciona que criou um homem e uma mulher e em outro capítulo
especifica que criou Adão e das costelas dele, criou Eva. Na história do Alfabeto
de Bem Sirach (entre 700 e
1000 d.C), Lilith é mulher de Adão, que o abandona e
se junta a espíritos do mal. Três anjos tentam buscá-la e ameaçam matar cem
filhos dela se ela não voltar. Ela recusa e os anjos ameaçam afogá-la. Ela
recusa novamente, dizendo que foi criada para causar doenças em bebês. Ela faz
o juramento aos anjos que aceitaria ter cem filhos dela mortos e se visse os
nomes dos três anjos, não faria mal a nenhum bebê. Essa é uma explicação do
porquê os judeus faziam amuletos com o nome desses anjos para proteger os
bebês. O autor deve ter se inspirado nessa história para criar a vilã do seu
romance.
Agora
que falei da vilã, nada mais justo do que eu comentar do mocinho. O senhor Vane
(traduzido como Catavento em português. Prefiro o nome original e é este que
usarei para mencioná-lo) é com quem o leitor irá se identificar nesse mundo
estranho. Seria o equivalente a Alice quando entra no País das Maravilhas, a
pessoa normal que tem que lidar e se adaptar num mundo estranho. Faz perguntas,
mas só recebe enigmas em respostas. Outro personagem que se destaca é o senhor
Corvo, que serve como guia e mentor para o protagonista. Ele é típico homem
misterioso cujas respostas apenas confundem o herói. Não gostei desse
personagem.
Outra
coisa interessante de se comentar é como esse livro demonstra a crença
religiosa do autor. George MacDonald era cristão universalista e acreditava que
todas as almas seriam salvas, mesmos as ruins, passariam por um processo de
purificação antes de irem para o céu.
Devido a este livro se passar num mundo fantástico
estranho, onde minhocas que saem da terra podem voar, certos aspectos podem ser
interpretados de várias formas pelo leitor. Por exemplo, o senhor Vane encontra
em sua jornada um grupo de crianças (os pequeninos) que não cresciam e, se
crescessem, se tornavam gigantes burros e maus. Interpretei como uma metáfora
para o crescimento, onde a criança começa inocente e pura e quanto mais
cresce, mais peca e sua inocência vai desaparecendo. O senhor Vane teve medo de
ensinar coisas para os pequeninos devido a esse acontecimento, mas ele aprende com
o senhor Corvo que não é o conhecimento em si que é perigoso e sim o grau de
importância que é dado a ele que pode ser nocivo.
O livro tem uma temática interessante, mas por entrar
muito nesse território nonsense, ele fica confuso e chato para quem não gosta
desta loucura, que é o meu caso. Mesmo que seja um livro dirigido ao público
infanto-juvenil, indico que leia As Crônicas de Nárnia para quem deseja
ler uma fantasia cristã mais pé no chão. Se ainda assim deseja conhecer este
livro, abra a porta para este mundo, só tenha cuidado com os monstros que
encontrar na floresta.
sexta-feira, 9 de janeiro de 2026
Se Tu Me Quisesse
Depois de um bom tempo, vamos para uma leitura do Kindle.
Se Tu Me Quisesse foi escrito por Jadna Alana em 2022. Escolhi este
livro após assistir um vídeo* que falava sobre literatura steampunk. Será que é
bom? Vamos para a resenha.
Lila saiu de sua velha torre, próxima ao Rio das Piabas,
e viajou até uma vila distante, carregando nas costas asas mecânicas. Ela
assistiu a um show de mágica e seu olhar atraiu o artista Dino. Ele puxa
conversa, mas no final, ela acaba se despedindo dizendo que não o veria mais.
Porém, uma dor no seu coração fez com que ela ficasse...
Os
elementos steampunk são poucos, como as asas mecânicas de Lila e o chapéu de
mágico de Dino, que abre com uma chave. Isso me decepcionou, pois imaginava que
tivesse mais coisas.
O livro é bem curto, contendo apenas oito capítulos e se
trata de duas pessoas, Lila e Dino, que se apaixonam à primeira vista, mas têm
dificuldade de expressar esse sentimento um para o outro. Ambos têm traumas
envolvendo os pais que, no caso de Dino, explica o porquê dele não querer pedir a Lila que ficasse com ele. Enquanto os sentimentos de Lila são representados através
de suas asas, que quando são consertadas por Dino, tira o peso de suas costas e
a faz voar como se a presença do mágico a deixasse mais leve e feliz, fazendo-a
esquecer da solidão.
Uma
história bonitinha, porém previsível. Esperava algo mais dela. Mas se deseja
conhecê-la, saia de casa e caminhe. Quem sabe você não encontre um mágico no
caminho.
*Link para o vídeo: Cyberpunk, Solarpunk e
Steampunk - O que são? + Dicas de livros ✨ - YouTube
quarta-feira, 31 de dezembro de 2025
sexta-feira, 26 de dezembro de 2025
quinta-feira, 25 de dezembro de 2025
quarta-feira, 24 de dezembro de 2025
sexta-feira, 31 de outubro de 2025
O Primeiro Lobisomem da Literatura
Ao contrário do monstro
de Frankenstein, o lobisomem não tem uma história específica, tendo surgido das
crenças de vários povos. Mas vocês sabem qual foi a história que iniciou a
entrada deste monstro na literatura? Foi O Lobisomem, conto escrito por
Richard Thompson em 1828. Será que ele teve um bom início? Vamos descobrir:
Na cidade de St. Yrieux, havia relatos de que tinha um ou
mais lobisomens habitando a floresta de Limousin. Um grupo de seus cidadãos
estava reunido na Taverna do Cavaleiro Bayard, incluindo o doutor Antoine Du Pilon,
conhecido por sua grande inteligência, até que um homem entra ferido no local...
Infelizmente, este resumo acima é a parte mais misteriosa
do livro, pois a identidade do lobisomem é previsível. Estava torcendo para ser
surpreendida no final, mas não foi o caso. A única surpresa interessante que
tive foi que o doutor, que nas histórias de terror, costuma ser o mais
inteligente e o que resolve tudo, não é o herói da história, e sim a parte
cômica.
Aqui, o lobisomem não morre por bala de prata, sendo morto
por armas normais. Aparentemente, ele parece ter controle da sua transformação
e tem consciência quando transformado, algo que não é visto nas adaptações
focadas no terror.
Pelo que escrevi acima, deu para concluir que não gostei
muito da história. Se o autor invertesse a ordem da narrativa e começasse pelo
meu resumo, teria sido um pouco melhor na parte do mistério. Porém, ainda assim
recomendo a leitura para aqueles que gostam de lobisomens e queiram saber como
ele entrou no universo literário. Por isso, dê uma espiada. Só cuidado ao
entrar na floresta Limousin.
sexta-feira, 17 de outubro de 2025
O Fantasma da Ópera
O Fantasma da Ópera
é um clássico do teatro musical. Vocês sabiam que ele foi adaptado de um romance?
Sua publicação foi serializada no jornal Le Gaulois de setembro de1909 a
janeiro de 1910, sendo lançado em livro três meses depois. Foi escrito pelo
francês Gaston Leurox, que usou como inspiração acontecimentos históricos ocorridos
na Ópera de Paris no século XIX, com a descoberta de um cadáver em 1907 e a
queda de um lustre em 1896. Também se inspirou na lenda de um pianista que
sobreviveu a um incêndio de 1873 e se refugiou no andar de baixo do teatro para
esconder suas queimaduras. A junção desses elementos pode dar uma boa história.
Será que o autor entregou? Vamos descobrir.
Há uma lenda de um fantasma circulando pela Ópera de
Paris, causando vários acidentes e assustando as dançarinas e trabalhadores. Enquanto
isso, Christine Daaé se destaca em sua música. Ela chamou a atenção do jovem
Visconde Raoul, que esperou que a moça ficasse sozinha para falar com ela.
Porém, ele a ouviu conversando com um homem em seu camarim. Quando Christine
saiu, Raoul entrou para encarar o seu rival. Mas não encontrou ninguém...
A estrutura do livro lembra um pouco a do Drácula,
em que a história é contada através de memórias escritas e entrevista de
personagens. A diferença é que aqui, elas são recolhidas por um investigador do
caso, cujo nome é o mesmo do autor. Ele é o narrador que junta toda informação para
formar uma narrativa coesa. Leurox (o personagem) também complementa usando
notas de rodapé. Por ser conhecido na França como um escritor de romances investigativos,
como O Mistério do Quarto Amarelo de 1907, faz sentido que o escritor
utilize desses recursos na contação de sua obra. Uma pena que por causa da peça
de teatro, a revelação de que o fantasma era um homem faz com que o romance
perca seu mistério.
Quanto aos personagens, diria que o triângulo amoroso
poderia ter sido melhor. Christine é ingênua e boazinha demais, sentia pena do
fantasma apesar deste ter se mostrado um assassino louco. Apesar disso, se não
fosse seu bom coração, a história e o desfecho não teriam acontecido. Raoul era
para ter sido o mocinho cujos leitores deveriam torcer para que Christine
ficasse no final, mais sua personalidade infantil, ultrarromântica e ciumenta
fez com que achasse o personagem chato e me fez querer que a moça não ficasse
com nenhum dos dois. O fantasma é um vilão cartunesco que você sente prazer ao
vê-lo derrotado. Um gênio das maquinarias e da arte que teria sido bem aclamado
se não parecesse um zumbi com olhos amarelos que brilham no escuro. Seu passado
explica o porquê dele não sente nada ao matar. Mas isso não justifica suas ações
e dá para entender o motivo de Christine não querer ficar com ele, pois além de
sua aparência horrorosa, era maligno. Um quarto protagonista que foi
introduzido no momento do perigo e que a adaptação musical cortou por
considerar um estereótipo racista é o Persa, o que é uma pena pois achei ele o
melhor personagem devido ao seu passado com o fantasma. Há também o “drama” dos
novos diretores, Richard e Moncharmin, tentando descobrir a identidade do
fantasma, que sai um pouco da parte séria e vai para um tom mais leve da trama.
Há muitas diferenças entre o livro e o musical. Além da
aparência do fantasma, que mencionei acima, que no musical aparece só com
metade do rosto deformado, sua icônica máscara é preta no livro enquanto no
musical é branca. Christine é sueca e descrita como loira enquanto suas
adaptações a retratam como morena. A senhora Giry, que é a lanterninha que
recebe gorjeta do fantasma por fazer favores, mas nunca o viu pessoalmente, virou
professora de balé e tomou o lugar do Persa na adaptação teatral. E, é claro,
muito da história foi encurtado e várias outras modificações foram feitas, como
Christine sentindo atração romântica pelo fantasma no musical.
Apesar das minhas ressalvas com relação ao triângulo
amoroso, o livro me entreteve. Recomendo aos fãs de literatura gótica
romântica. Só não entrem no Camarote Cinco.
sexta-feira, 3 de outubro de 2025
O Privilégio do Belo
O que você faria se parasse
de envelhecer aos dezessete e um retrato seu envelhecesse em seu lugar? Será
que isso é tão bom quanto parece? O Retrato de Dorian Gray escrito por
Oscar Wilde em 1890 responde essas perguntas. Gostaria de saber as respostas?
Vamos para o resumo:
Dorian Gray é um belo jovem que foi a casa de seu amigo,
Basil Hallward, para que este pintasse o seu retrato. Lá também encontrou lorde
Henry Wotton, amigo de Basil, e numa conversa entre ele e Gray, acaba
mencionado que a juventude não é eterna, que o tempo passaria, que Dorian
envelheceria e sua beleza esvaneceria. Quando Basil terminou a pintura, todos
acharam bela e Dorian desejou que a pintura envelhecesse em seu lugar...
Devo dizer que fiquei surpresa em saber que a história
não envolveu pacto com o Diabo. O retrato de Dorian começou a envelhecer e mudar
sua aparência misteriosamente conforme o jovem fazia suas maldades. Não há
explicação para o ocorrido, mas saber o porquê de isto estar acontecendo não
importa. O foco do livro é a consequência deste fenômeno.
Dentre os personagens, três se destacam: o pintor Basil
Hallward, que conheceu Dorian e vê nele não só um modelo, mas um ser próximo do
divino que o inspira na hora de fazer suas pinturas; Henry Wotton, um sujeito
que tem um pensamento individualista, que acha que todos deviam agir pelo
prazer sem pensar nas consequências. Ele faz o papel do diabo no ombro de
Dorian enquanto Basil faz o papel de anjo. Wotton influencia o rapaz a ir pelo
mal caminho por mera diversão. E por último, temos o protagonista, Dorian Gray,
um rapaz que começa bom, ingênuo e bastante emotivo até que começa a seguir
esta vida de prazer sem se importar com os outros. Ele é descrito como um jovem
de cachos loiros e olhos azuis, algo que a capa do livro não ilustrou. Isso dá
a ele uma aparência angelical.
Por sua aparência se manter a mesma, Dorian se entrega
aos vícios e prazeres libidinosos, fazendo com que várias pessoas que ele se
relacionou o detestassem por ter sido má influência e arruinado a vida delas.
Mesmo assim, Dorian conseguia manter algumas de suas amizades, pois sua beleza
era encantadora e pueril. Estas acreditavam que tudo aquilo que ele fez não
passava de boatos. Creio que muitos têm este sentimento quando descobrem que
uma celebridade fez algo de errado, principalmente quando ela tem uma beleza
estonteante. Este é privilégio do belo. É quase que instintivo nós vermos algo
bonito e associarmos com o bom e o feio com o mal. Mas nunca julgue o livro
pela capa. Devemos julgar pelo conteúdo.
Respondendo à pergunta do primeiro parágrafo, não seria
ruim se um retrato envelhecesse em seu lugar. Só que o retrato de Dorian Gray
não apenas envelheceu. Ele se desfigurou conforme as maldades e os vícios do
jovem. Ele então deixa de ser um retrato de belo moço e passa a refletir a alma
de um homem corrompido. Você aguentaria conviver com um espelho que refletisse
todos os seus pecados?
O Retrato de Dorian Gray é um ótimo livro para se
entreter e pensar, não só nos assuntos que mencionei acima, mas também pelas opiniões Wotton, que apesar de discordar de vários
de seus pensamentos, muitas de suas falas podem dar bons temas para debates. Então,
venha dar uma olhadinha. Só não faça isso próximo de seu retrato.






















