sexta-feira, 24 de fevereiro de 2023
sexta-feira, 10 de fevereiro de 2023
O príncipe da floresta
Como várias pessoas devem
ter notado, a Disney baseou vários de seus filmes em contos e livros. Bambi
é um deles. Bambi: A história de uma vida na floresta foi escrito pelo
austríaco Felix Salten, pseudônimo de Siegfried Salzmann, em 1923. Será que a
empresa de animação mais famosa conseguiu manter a essência da obra original?
Vamos descobrir.
Numa pequena clareira escondida, nasceu Bambi, um filhote
de corça. Agora que chegou ao mundo, Bambi tem que aprender como é a vida na
floresta, com suas maravilhas e perigos.
Como dito na resenha, a história foca no crescimento de
Bambi, que vai aprendendo a lidar com a vida na floresta e com uma entidade que
perambula por lá e mata com o seu terceiro braço. Este deus maligno é conhecido
pelos animais como “Ele”. Nós o conhecemos como homem ou caçador. O conflito
entre “Ele” e os animais selvagens é a parte mais interessante do livro. A obra
mostra como “Ele” é poderoso, só para no final revelar que este não passava de
um outro ser vivo, que assim como os outros bichos, não pode escapar da morte.
Também é interessante como o autor tenta humanizar os animais.
Apesar de terem sentimentos complexos dos seres humanos, seus comportamentos
animalescos ainda são mantidos. Como por exemplo o tratamento que a mãe de
Bambi dá ao seu filhote vai mudando conforme passa o tempo. No começo, ela é
mais amável e cuidadosa com ele, mas ela vai ficando mais distante, dando
bronca nele por querer dormir ao seu lado. Para nós, isso parece algo cruel, mas
é algo normal para uma corça, que cresce mais rápido e mais rápido terá que se
desapegar dos cuidados da mãe para ter uma vida independente. Também mostra como
a corça macho não tem nenhuma obrigação na criação de seus filhotes, pois é
assim que isso ocorre na natureza.
Vamos para as diferenças entre o livro e sua adaptação da
Disney: Começando com a espécie de Bambi que foi trocada no filme. Aqui, ele é
uma corça, uma espécie de cervo pequeno que vive na Europa e na Ásia enquanto
em sua versão cinematográfica ele é um veado norte-americano. Os amigos de
Bambi, Tambor e Flor, são exclusivos do filme. Mas acredito que a inspiração para
criação de Tambor tenha sido num coelho que aparece poucas vezes no livro,
conhecido apenas como “amigo coelho”. Faline, o interesse romântico de Bambi,
aparece em ambas as obras, mas o mesmo não ocorre com seu tímido irmão Gobo, que
foi excluído do filme. Uma pena, pois a história de Gobo daria um belo
acréscimo na relação entre o homem e animal. Outros personagens também foram
descartados da animação da Disney ou tiveram suas aparições reduzidas como
Ronno, a corça que luta com Bambi pelas afeições de Faline. Este só aparece
mais na sequência pouco conhecida chamada Bambi 2, e ainda assim tiveram
mudanças, como fato dele ser manco por ter levado um tiro. O grande príncipe,
conhecido como velho príncipe na obra de Felix Salten, é pai do Bambi no filme
enquanto sua relação de parentesco não é assim tão clara no original, além ter
muito mais aparições, sendo o mentor misterioso do protagonista.
Bambi: A história de uma vida na floresta é um
livro que pode ser lido tanto por crianças quanto por adultos. Apesar de ter
algumas partes que considero entediantes, é uma obra boa que discute numa
linguagem simples a relação da natureza com o homem. Seu final é melancólico, mas
recomendo sua leitura. Por isso, venha explorar a floresta. Só não traga o seu
terceiro braço.
sexta-feira, 3 de fevereiro de 2023
sexta-feira, 27 de janeiro de 2023
Zumbis x Unicórnios
Bem... Esse com certeza é
um livro título bem chamativo, juntando dois seres que nada têm a ver. Zumbis
x Unicórnios é uma coletânea de contos lançada no Brasil em 2013 (2010
mundo a fora) e organizada pelas autoras Holly Black e Justine Larbalestier. A
proposta do livro é fazer uma disputa em qual dessas criaturas é a melhor,
sendo Holly Black a líder do Time Unicórnio enquanto Justine Larbalestier
lidera o Time Zumbi. A decisão de quem ganha fica nas mãos do leitor, que nesse
caso, sou eu. Qual dos dois será o vencedor? Vamos descobrir:
A Mais Alta
Justiça – Escrito por Garth Nix. Jess busca justiça
pela morte de sua mãe, a rainha. Por isso, ela pede ajuda para que o unicórnio
Elibet traga parte de sua mãe à vida e juntas vão até o culpado para julgá-lo. Um
conto que seria típico do personagem que busca vingança ou justiça, se não
fosse pelos elementos bizarros. O unicórnio desta história é bem mais
sanguinário, além de ter uma forma de ser mais parecida com a de uma nuvem, se
aproximando de algo que não pode ser tocado, algo mais místico. Apesar da
proposta desse livro ser zumbis vs unicórnios e Garth Nix estar do lado dos
unicórnios, aqui também possui um elemento zumbi na forma da rainha.
Love Will Tear Us
Apart (O Amor Irá Nos Separar) – Escrito por Alaya Dawn
Johnson. Grayson é um zumbi que não sabe se quer trancar ou comer seu amigo
Jack. Ou quem sabe os dois? Quando se pensa em zumbi, você imagina aquele morto-vivo,
lento e incapaz de pensar. Pois bem, este aqui pensa. Um conto longo, dividido
em partes, narrado pelo próprio Grayson. Um romance típico entre uma pessoa e
um ser sobrenatural.
Teste de pureza –
Escrito por Naomi Novik. Depois de passar a noite bebendo, Alison acaba
dormindo num banco do Central Park. Mas é acordada por ninguém menos que um
unicórnio, que pede sua ajuda para recuperar filhotes de sua espécie raptados
por um mago. Uma outra subversão do que conhecemos do unicórnio, só que mais
cômica.
Buganvílias –
Escrito por Carrie Ryan. Iza passou a vida inteira em uma ilha, sendo protegida
dos piratas e dos “mudos” pelo pai. E era assim que levava a vida, até um rapaz
sair da água. Piratas que usam zumbis como armas para atacar? Isso com certeza daria
um bom jogo de Zombicide. Brincadeiras à parte, este conto é um daqueles que
não tem herói ou vilão. Todos são imperfeitos.
Essa história te dá uma visão pessimista e termina com um final aberto.
Mil flores –
Escrito por Margo Lanagan. Manny Foyer estava acampando com seus amigos na
floresta até que quando este sai para fazer suas necessidades, ele avista um
unicórnio. Ele segue o animal até um rio, até que o bicho some e Manny encontra
uma bela donzela desmaiada, próxima a água. Um conto que apresenta mais de um
ponto de vista sendo o de Manny um deles. Por coincidência, esta história
apresenta algo bem atual, que é a de um homem ser falsamente acusado de assédio
e pagar por um crime que não cometeu. O unicórnio daqui, além de ser bastante
relacionado com as plantas, também parece ser atraído por belas donzelas, mas
não de um jeito inocente. História trágica e seu final me deixou com um gosto
amargo na boca.
As crianças da
revolução – Escrito por Maureen Johnson. Depois de
levar um golpe e ser forçada a trabalhar em uma fazenda na Inglaterra, Sofie tentava
arrumar um jeito de ganhar dinheiro para escapar desse lugar. Até que finalmente
surgiu uma oportunidade: ela teria que tomar conta de cinco crianças enquanto
sua mãe estava fora. Mas estas crianças eram um tanto estranhas... Se você ver
crianças acinzentadas cuja alimentação envolve apenas carne crua, corra! O
primeiro conto de zumbi desse livro que senti uma aura mais para o terror.
O cuidado e a
alimentação de seu filhote de unicórnio assassino –
Escrito por Diana Peterfreund. Wendy foi com seus amigos para um parque de
diversões, sendo uma de suas atrações um unicórnio. O grupo quis ir vê-lo e
apesar de ter um bom motivo para não ir, Wendy foi com eles. Diferente de
várias versões que vi, os unicórnios daqui são venenosos e tem instinto
assassino, além de serem carnívoros. Esta história lembra muito aqueles filmes
de crianças ou adolescentes cuidando de uma criatura mágica, o que acaba
resultado em inúmeras confusões. Infelizmente, este conto acaba em um final. Mas
pelo que vi, existe uma série de livros dessa autora chamada A Ordem da Leoa,
onde este conto faz parte de seu universo.
Inoculata –
Escrito por Scott Westerfeld. Allison está há anos vivendo em uma antiga
fazenda de maconha junto a outras pessoas para se proteger dos zês (zumbis).
Mas o que ela vai fazer após descobrir que Kalyn, uma garota que ela tem uma
queda, já foi infectada com que parece ser um novo vírus zumbi, que Kalyn
considera uma vacina para o antigo, e deseja que Allison faça o mesmo? Adolescentes
que sentem que são mais espertos que os adultos pois estes querem viver na
mesmice da falsa segurança enquanto eles aceitam mudar e viver uma nova vida
como outra espécie. Sinceramente, esse nível de arrogância juvenil me fez
torcer para que a protagonista se ferrasse no final. Mas a história estava do
lado dela.
Princesa Bonitinha
– Escrito por Meg Cabot. Liz Freelander era uma garota
com poucos amigos, com um rapaz que vivia implicando com ela na escola e cujo
namorado a traíra com outra. No seu aniversário de dezessete anos, seus pais
lhe deram uma surpresa: um unicórnio. Drama escolar típico de Sessão da Tarde,
só que com um unicórnio no meio. O unicórnio aqui é mais parecido com a visão
popular que a gente tem hoje (crina colorida, com um peido cheiroso).
Mãos geladas –
Escrito por Cassandra Clare. Adele vivia em uma cidade amaldiçoada, cujos mortos
voltam à vida e se alguém da cidade sair, eles vão atrás. Infelizmente, seu
namorado James foi morto por um carro, provavelmente a mando de seu tio, pois
ele se tornaria duque ao completar dezoito anos. Mas nem a morte pode separá-los.
Uma história com ideias interessantes, mas bem previsível. Os zumbis daqui não
comem cérebro e nem são atacados, além de possuírem uma inteligência normal,
apesar de não falarem muito. Estranhei a mistura do antigo (duques no comando,
enforcamento em praça pública) com o recente (garrafas de refrigerante, calça
jeans etc.).
A Terceira Virgem
– Escrito por Katleen Duey. O unicórnio espera
encontrar, após vários anos, uma pessoa virgem para que esta lhe possa fazer um
favor. Um unicórnio que se alimenta sugando a vida das pessoas que cura e só
consegue se comunicar com um tipo de virgem. Um conto bem interessante para se
pensar, mas que tem um final bem anticlimático.
A noite do baile –
Escrito por Libba Bray. Tahmina e Jeff eram alunos do conselho estudantil da
escola de Buzz Aldrin High School. Mas quando uma infecção se espalhou e chegou
na escola, transformando todos os infectados em zumbis, os planos que eles
tinham para o próximo ano tiveram que mudar, se tornando policiais de uma cidade
sem adultos, em meio a um caos de pessoas desesperadas e zumbis. Buscar a
felicidade ou manter a esperança pode ser difícil em certas situações. O
interessante desse conto é que ele parece dialogar com o Inoculata,
mostrando como seria os adolescentes no comando sem os adultos por perto em um
apocalipse zumbi. Enquanto em Inoculata eles fogem dos adultos por estes
não quererem se desapegar do passado, os daqui tentam buscar a normalidade que
tinham através do baile.
Antes de anunciar o time ganhador, tenho que deixar bem
claro que dentre as duas criaturas, a minha preferida é o unicórnio. Não gosto de
zumbis (com exceção da Júlia), pois a maioria deles é apresentada como monstros
sem a capacidade de pensar, que comem todo ser vivo que vê pela frente. Mas
dito isso, talvez por gostar mais dos unicórnios, eu acabe sendo mais exigente
com os contos que estes aparecem. Quanto aos zumbis, como não consumo muito a
mídia em que estes aparecem, acabam por me surpreender mais. Então, a decisão do
vencedor será através do meu conto favorito do livro que foi: As crianças da
revolução. Parabéns, Time Zumbi! Vocês fizeram uma adoradora de unicórnios
gostar de um de seus contos. Porém, devo dizer que Mil flores e A
Terceira Virgem chegaram perto. Se ficaram insatisfeitos com o resultado,
recomendo que leiam o livro e tirem suas próprias conclusões.
Quanto
às outras histórias foram em sua maioria mediana. Essa coletânea foi obviamente
feita para o público juvenil, devido às suas menções sexuais em certos contos. Também
achei bem aleatório juntar duas criaturas que não têm nada a ver para disputar
entre si, sendo uma mais voltada para a fantasia enquanto a outra vai mais para
o terror e o suspense, apesar de alguns contos trocarem e acrescentarem outros
gêneros.
Como
sou mais certinha, preferiria juntar dois seres que se encaixam no mesmo gênero
como um zumbi com um fantasma, se é que vocês me entendem😊. Ou um unicórnio com um dragão. Quem
sabe um dia...
sexta-feira, 20 de janeiro de 2023
De volta ao Mundo das Fadas
É claro que depois de ser
apresentado a magia, ela não sairia mais da vida de Tim Hunter. Os Livros da
Magia: Encantos é a sequência de Os Livros da Magia: O Convite,
escrita por Carla Jablonski em 2003 (2005 no Brasil), baseado num quadrinho
criado por Neil Gaiman e John Bolton.
Um pouco mais de um mês se passara desde que Tim Hunter encontrou
a Brigada dos Encapotados e nada mais de estranho acontecera. Mas após um dia
ruim na escola, o pai do garoto o manda brincar lá fora. Zangado, o menino foi
e não demorou muito até homens estranhos aparecerem e quererem levá-lo. Depois de
uma briga, um deles o transporta magicamente para um lugar desértico, dizendo
ser este o Mundo das Fadas.
Além de Tim, temos os pontos de vista de Tamlin e
Titânia, personagens que apareceram no brevemente volume anterior, com a
Titânia sendo uma pequena antagonista na jornada de aprendizado de Tim em Os
Livros da Magia: O Convite. Sua personalidade se mostra como alguém egoísta
e ciumenta enquanto Tamlin é mais sério e demonstra uma grande preocupação com
o Mundo das Fadas. Uma curiosidade: Tamlin é baseado no personagem de um conto
celta* que é condenado a viver na terra das fadas até que uma mulher chamada Janet o
liberta.
Indo para a história do livro, ela se foca em dois temas:
o Mundo das Fadas se acabando e o parentesco de Tim. E, como é de se esperar, as
duas temáticas se encontram. O fim do Mundo das Fadas é introduzido no começo,
mostrando o quanto a rainha ignora a urgência, preferindo viver em suas
ilusões, alienada até ser encarada com a verdade e de que não adianta fingir que
os problemas não existem, pois eles não irão embora até serem resolvidos. Quanto
os verdadeiros progenitores de Tim, é falado mais tarde e não direi mais nada
para não dar mais spoilers.
O vilão me decepcionou um pouco. Não que ele seja ruim,
mas não acho que ele combina como o chefão final de uma história. Ele está mais
para um antagonista que aparece rapidamente no meio da jornada do herói, como
foi a Baba Yaga no volume anterior.
De uma maneira geral, achei o livro ok. E novamente, o
título parece ser enganoso pois não apareceu nenhum livro relacionado a magia,
a menos que um bestiário de criaturas mágicas conte como tal. Acredito que esta
história tenha continuação nos quadrinhos, mas para quem é conhecedor dessa
mídia, sabe o quanto ela é confusa. Se deseja ler este livro, vá ao Mundo das
Fadas, só cuidado para não ser comido.
*Para ver a resenha desse
conto, segue o link: Ponte
para o Imaginário: Contos de fadas celtas (ponteparaoimaginario.blogspot.com)
sexta-feira, 13 de janeiro de 2023
sexta-feira, 6 de janeiro de 2023
Contos de fadas celtas
Depois de fazer resenha
sobre contos russos, ciganos, japoneses e chineses, chegou a vez dos celtas. Os
melhores contos de fadas celtas, como o próprio nome diz, é uma coletânea
de contos celtas, composta por diversos autores, lançada em 2020. Como sempre
em livros assim, resumirei cada um deles separadamente e direi minha opinião
geral no final. Comecemos:
A História de
Deirdre – Escrito por Joseph Jacobs em 1892. Um
profeta disse a Malcolm Harper que por causa de sua filha, muito sangue seria
derramado no país, inclusive o de três célebres heróis. Para que isso não
acontecesse, Malcolm mandou sua filha Deirdre junto a sua parteira para ser
criada em uma colina bem longe. Anos se passaram sem nada acontecer, até um
caçador aparecer pedindo abrigo... Por causa da beleza de uma mulher, uma briga
foi travada. Me lembrou a guerra de Tróia, só que com um final mais trágico
para a mulher e seu amado.
Filhos de Lir –
Escrito por Joseph Jacobs em 1894. Para que o rei Lir da Colina do Campo Branco
o aceitasse como Rei dos Reis da Irlanda, Dearg ofereceu três mulheres para que
Lir escolher uma delas para desposar. Lir elege a mais velha e tem quatro
filhos com ela. Após sua mulher morrer no seu segundo parto de gêmeos, Lir
ficou muito triste. Sentindo sua tristeza, Dearg dá a ele a mão de Oifa, a irmã
da falecida. Mas após o casamento, Oifa começou a nutrir ciúmes da relação de
seu marido e seus enteados e decidiu se livrar deles de vez, os transformando
em cisnes com apenas uma chance de sua maldição ser quebrada. O começo parece o
seu típico conto de fadas, porém, este não teve um final feliz.
O Lobo Cinzento –
Escrito por George MacDonald em 1871. Um jovem estudante inglês se perdera do
seu grupo em uma das ilhas do arquipélago de Shetland. Após usar uma caverna de
abrigo, uma mulher aparece em sua entrada, falando que ele poderia se abrigar
na cabana de sua mãe. Parece uma versão diferente da Chapeuzinho Vermelho.
O Rei do Deserto
Negro – Escrito por Douglas Hyde em 1904. O Rei
O’Connor tinha um filho muito rebelde. Um dia, este saiu e encontrou um velho
grisalho sentado ao pé de um arbusto. O idoso oferece uma partida de cartas.
Quem ganhasse, teria que atender o pedido do outro. O príncipe ganhou e para
testar o homem, desejou que este trocasse a cabeça da madrasta por a de uma
cabra por uma semana. E seu pedido foi atendido. Essa é a típica história com a
famosa regra dos três* dos contos de fadas e que o protagonista consegue
aliados para fazerem tudo por ele.
Lis Amarela –
Escrito por Laure Claire Foucher e Herschel Williams em 1908. Há muito tempo
atrás, o príncipe de Erin, que gostava muito de apostas, acabou por apostar com
o Gigante de Loch Lein e ganhou. Mesmo sendo avisado para não fazer mais isso,
ele jogou uma segunda e uma terceira vez. Ele ganhou a segunda mas perdeu a
terceira, cujo pagamento seria a sua cabeça. Porém, o gigante o deixou viver
por um ano e um dia. O que será que o jovem vai fazer para fugir dessa
enrascada? Estrutura bem parecida com O Rei do Deserto Negro, incluindo as
apostas e o príncipe tendo que ir até um lago roubar um utensílio da filha do
antagonista para esta o ajudar a se safar de pagar sua dívida. Só que aqui, Lis
Amarela, a filha do gigante, tem uma personalidade mais zombeteira que Finnuala,
a filha do Rei do Deserto Negro. Além de não apostar demais, o conto dá outra
lição que é de dar mais valor ao objeto antigo ao invés do novo, pois com o velho
você tem mais familiaridade. Isso serve para esta história, mas na vida real, varia
de situação para situação.
Tam Lin –
Escrito por Francis James Child em 1860. Janet foi a Cartehaugh, onde encontrou
Tam Lin, um homem amaldiçoado a viver na terra das fadas. Mas, ele conta a Janet
um jeito de libertá-lo para assim se tornar seu marido. Interessante saber a
origem do nome de um dos personagens de Corte de Espinhos e Rosas. Ao contrário
das anteriores, esta história está em forma de poesia.
A Floresta de
Dooros – Escrito por Edmund Leamy em 1890. Após o
antigo rei ser morto e ter seu trono usurpado, seu filho Niall foi mandado para
longe enquanto sua filha Rosaleen, uma das moças mais bonitas do reino, foi enfeitiçada
e sua aparência se tornou uma das mais feias. Morando sozinha num celeiro, Rosaleen
era rejeitada por todos. Mas seu único amigo, um pintarroxo, decide ir para a
Floresta de Dooros pegar uma frutinha mágica que a faria recuperar a sua beleza,
e estava sendo guardada por um gigante. Quem diria que um passarinho poderia
ser um herói. Uma história bem bobinha.
O Caçador de Focas
e o Sereiano – Escrito por Elizabeth W. Grierson em 1910.
Um caçador ganhava o seu sustento caçando e vendendo peles de focas. Um dia,
ele acabou atingindo uma foca com sua faca e esta fugiu com a arma presa em sua
pele. No caminho para casa, o caçador encontrou um estranho e alto cavaleiro,
que pediu uma enorme quantia de pele de focas para aquela noite. O caçador
disse não possuía essa grande quantidade então, o cavaleiro ofereceu levá-lo a
um lugar onde ele pudesse caçar. As sereias aqui têm uma aparência mais similar
a das focas, me lembrando as selkies. Um conto que mostra que boas ações podem ser
recompensadas.
A Donzela do Mar –
Escrito por Joseph Jacobs e J. F. Campbell em 1892. Um pescador estava tendo
dificuldade para apanhar peixe. Até que uma donzela do mar aparece e oferece sua
ajuda em troca do filho primogênito do homem. O velho aceita e consegue o que
quer. Após vinte anos, chegou a hora de ele entregar o que deve. Não querendo
fazer isso, o filho se oferece sair de casa e embarca em sua própria jornada. Outra
história que tem a famosa regra dos três dos contos de fadas, além de possuir
uma semelhança com o conto russo A princesa sapo, em que o antagonista
guarda a sua alma dentro de várias coisas.
O Gigante Egoísta
– Escrito por Oscar Wilde em 1888. Após sete anos, o Gigante
retorna a sua moradia, só para encontrar crianças brincando em seu jardim. Ele
as expulsa e constrói um muro em torno de seu jardim, proibindo qualquer um que
quisesse entrar lá. Com as crianças fora do jardim, a Primavera se recusou a
vir até ele, deixando o Inverno fazer a festa. Já esperava que o Gigante fosse
aprender a lição, mas não esperava que tivesse uma tonalidade religiosa no
final.
A Tosa da Lã
Encantada – Escrito por Anna MacManus em 1904. Um
reino está sendo atormentado por balidos de ovelhas fantasmas. Preocupado, o
rei pede aos seus druidas que investiguem a causa e eles acabam descobrindo que
isso é obra de Manannan-Mac-Lir, o Deus do mar. Mas que não sabem o motivo pelo
qual ele fizera isso. Até que um dia, um estranho veio até o castelo e oferece
encontrar e tosquiar o rebanho encantado. Um conto bem fraquinho.
O Dragão Relutante
– Escrito por Kenneth Grahame em 1898. Após seguirem rastros
de um animal que consideravam ser um dragão, duas crianças vão parar na moradia
do homem do circo. Ficaram lá por um tempo antes de chegar a hora de ir para
casa. O dono do circo oferece acompanhá-las. Aproveitando a situação, a menina
pede que ele conte uma história. Então, o homem conta a história de um menino
que vira amigo de um dragão preguiçoso que ama poesia. Mas o povo, que adora
uma luta, chama São Jorge para matar o dragão. Como resolverão este problema? Achei
um conto bem infantil. Uma curiosidade: este conto inspirou uma animação de
mesmo nome, lançada em 1941.
O Gatinho Branco –
Escrito por Edmund Leamy em 1890. Após o Rei das Torrentes ser morto pelo
gigante Trencoss, a Princesa Eileen é foi forçada a viver com o assassino de
seu pai e este logo a deseja desposar. A jovem se desespera, mas um gatinho
branco logo lhe diz um jeito dela enrolar o gigante. Enquanto isso, o gato vai
ao encontro do Príncipe do Rio da Prata e diz como salvar a princesa. Outro
conto que possui a regra dos três, com o herói desobedecendo as regras do aliado,
mas conseguindo salvar a mocinha no final.
A Dama da Fonte –
Escrito por Andrew Lang e Lady Charlotte Schreiber. Após Kynon contar sobre sua
fracassada luta contra um cavaleiro misterioso, Owain decide ir até lá. Depois
de derrotá-lo, Owain segue o homem até um castelo. Não conseguindo entrar, uma
moça oferece ajudá-lo, dando a ele um anel de invisibilidade para que esse não
fosse morto pelos homens do castelo. No meio da noite, foi anunciado que o cavaleiro
que Owain enfrentou faleceu e após ver a viúva dele, a condessa da fonte, Owain
acaba se apaixonando por ela. Luned, a donzela que entregou a ele o anel, o
ajuda a enganar e a se casar com sua senhora. Depois de alguns anos, o Rei
Arthur começa a sentir falta de seu cavaleiro e decide procurá-lo com seu grupo
de homens e trazê-lo de volta. Aparentemente, você pode ficar com a mulher do
cara que matou e esquecê-la por três anos desde que passe por grandes lutas em
sua jornada de volta para casa.
O Cavalo Preto – Escrito
por Joseph Jacobs em 1898. Tendo o rei falecido, sua herança teve que ser
dividida entre seus três filhos. Mas os mais velhos não deixaram nada para o
caçula a não ser um garrano branco, velho e manco. Cavalgando com o ele, o
príncipe encontra um rapaz, que oferece trocar seu cavalo negro pelo garrano,
dizendo que este podia levar seu cavaleiro para qualquer lugar que ele desejasse.
Com a troca feita, o príncipe pensou em ir ao Reino Sob as Ondas, que foi uma
má ideia pois o filho do rei deste local o ordenou que trouxesse a filha do Rei
dos Gregos para ele antes do sol nascer senão o enfeitiçaria. Outro conto em
que quem resolve os problemas é mais o aliado do que o protagonista.
Os Animais Gratos
– Escrito por Patrick Kennedy em 1909. Um rapaz chamado
Jack estava caminhando até a feira até ver crianças maltratando um rato. Ele as
paga e solta o rato. Ele fez o mesmo com uma doninha e um burro, sendo que o
último fica com ele. Ao tirar um cochilo debaixo de uma árvore, um gigante e
seus servos o acordam dizendo que seu burro havia feito um estrago em seu campo.
Então o prenderam dentro de um baú e o jogaram no rio. Esse é um daqueles contos
que mostra que gentileza gera gentileza.
As Mulheres
Chifrudas – Escrito por Lady Wilde em 1887. À noite,
uma senhora estava preparando sua lã enquanto seus familiares e empregados
dormiam. Até que uma voz chamou e bateu à porta. Quando ela atendeu uma mulher
com um chifre na testa entrou. Logo depois chegaram outras, cada uma com um
chifre a mais que a anterior até chegar a doze. Esse começo me lembrou um pouco
do Hobbit, quando os anãos entram na casa de Bilbo e este não tem
coragem de os expulsar. Só que ao invés de levar a protagonista para uma
jornada, as bruxas quase a fizeram de escrava. Um conto curto e meio sem graça.
As Três Coroas –
Escrito por Andrew Lang e Patrick Kennedy em 1866. Um rei tinha três filhas e
cada uma namorava um príncipe. Os dois casais mais velhos eram orgulhosos e
arrogantes enquanto o par dos mais novos era gentil. Um dia, eles encontraram
um lindo barco na beira do lago. As princesas logo entraram, mais antes que seu
pai e seus namorados fizessem o mesmo, apareceu um homenzinho que os enfeitiçou
e raptou as três moças, descendo com elas para o fundo de um poço. Os rapazes
foram atrás, um de cada vez. Quando chegou a vez do mais novo descer o poço, ao
invés de um lugar escuro e cheio de água, ele encontra um castelo. Mais um
conto com a regra dos três e cujos mais velhos são ruins e os mais novos são
bons. Pelo menos, todo mundo teve um final feliz, e as irmãs mais velhas tem
uma redenção, o que infelizmente não acontece no conto de A Bela e a Fera.
Mas o mesmo não posso dizer dos príncipes mais velhos. Eles sofrem punições
mais não aprendem. Acho que eles não mereciam ser recompensados no final.
O Violino de Nove
Centavos – Escrito por Seosamh Mac Cathmhaoil em 1904.
Um irlandês tocava o seu violino de nove centavos até um leprechaun aparecer. Esta
história é a mais curta desse livro, possuindo apenas uma página. Como Tam
Lin, O Violino de Nove Centavos também possui rimas, mas ao
contrário de Tam Lin que pelo menos tem uma pequena trama, aqui só fala
de um encontro entre um homem e um leprechaun através de um violino. Talvez, esta
história queira mostrar que mesmo um violino de nove centavos possa atrair
coisas maravilhosas nas mãos da pessoa certa, e ainda tocar uma melodia melhor
do que os mais caros. Porém, ainda achei sem graça.
A Caverna
Encantada – Escrito por Edmund Leamy em 1890. O Príncipe
Cuglas estava caçando um cervo quando este foi parar em uma caverna. O cavalo
de Cuglas o seguiu descontrolado, levando o seu dono pela escuridão da caverna.
Até que o final da caverna revelou ser uma planície verdejante e, a sua espera,
estava o mensageiro da Princesa Crede, dizendo que esta estava apaixonada por
Cuglas. Mas o príncipe já estava apaixonado por Lady Ailinn, e como prova de
seu amor, usava um bracelete que só se soltaria se ele deixasse de amá-la. Será
que um dia ela cairá? Outra história com a regra dos três e que o protagonista
desobedece aos avisos de seu ajudante. Mas ao contrário do que acontece
normalmente, em que o herói consegue seu objetivo na terceira vez após errar
nas outras duas, aqui ele falha em todas. Ainda assim, ele consegue o seu final
feliz.
A Visão de MacConglinney
– Escrito por Joseph Jacobs em 1890. Cathal, o Rei de
Munster, foi acometido com uma fome insana. Sua gula estava causando prejuízos,
até que o jovem sábio Anier MacConglinney se propõe a ajudar, em troca de uma
ovelha branca de cada curral entre Cam e Cork. Esse conto possui apenas seis
páginas, porém, poderia ser menor. Sei que a enrolação foi proposital e fazia sentido
no contexto, mas achei um tanto chato.
Nuckelavee –
Escrito por Sir George Brisbane Douglas em 1901. Tammas saiu numa certa noite e
acabou encontrando Nuckelavee, um ser horripilante, que tem a aparência de um
homem gigante montado em um cavalo, mas que não possuía pele alguma, além de
ser conhecido por causar todo tipo de pragas para a humanidade. Tentando se
salvar, Tammas correu para o lago, pois a água doce era fraqueza da criatura. Um
conto curto que serve para apresentar este ser do folclore escocês. A única
outra história que me lembro em que o Nuckelavee aparece é no livro O
Segredo do Kelpie.
Princesa Finola e
o Anão – Escrito por Edmund Leamy em 1890. Finola
vivia em uma choupana isolada com uma mulher mal-humorada, sem poder sair de
lá. O único ser vivo que passava por lá era um anão mudo que trazia saco de
milho para a casa uma vez por mês. Ele era apaixonado por ela e gostaria de tirá-la
daquele lugar. Foi então que apareceu um duende da metade do tamanho do anão,
que com uma varinha mágica, devolveu-lhe a fala e disse que sabia o jeito de salvar
Finola, mas que ele teria de pagar um preço. Outro conto com a regra dos três. Achei
a história legal, mas acredito que as pessoas do politicamente correto não irão
gostar.
A Balada de Oisin
na Terra da Juventude – Escrito por Brian O’Looney e John
O’Daly em 1909. Oisin, seu pai Fionn e o resto dos Fianna estavam em uma caçada
até aparecer uma bela mulher chamada Niamh da Cabeça Dourada, dizendo estar
apaixonada por Oisin, e querendo levá-lo consigo para a Terra da Juventude. Ele
aceita e parte com ela. Uma história de final melancólico, que me lembrou o fim
do conto Filhos de Lir. Aparentemente, quem sai da Terra da Juventude
após muitos anos, acaba envelhecendo todos os anos que se passaram.
A Princesa Leve –
Escrito por George MacDonald em 1864. Já li uma versão desta história lançada
pela editora Pulo do Gato, sob o
título de A Princesa Flutuante. Se desejam ver minha resenha deste
livro, acessem o link: Ponte
para o Imaginário: A gravidade do mundo (ponteparaoimaginario.blogspot.com)
Pelo
que notei, a maioria dos contos de fadas celtas possuem uma estrutura similar
aos contos de fadas clássicos que conhecemos. Não acho isso algo ruim. Se esse
fosse o caso, Lis Amarela, que é uma história que possui vários desses
clichês não teria sido meu conto favorito do livro.
Gostei bastante do livro. A maioria dos contos foram
bons, além é claro, de possuir belas ilustrações antigas dando o clima de uma
época antiga. Quem deseja conhecer, fique à vontade, só tome cuidado para não
encontrar um gigante no meio do caminho. Ou uma mulher chifruda.
*Em muitos contos de fadas,
o número três é relacionado, como por exemplo nos Três Porquinhos em que
os três irmãos tiveram que lidar com o lobo três vezes.






