sexta-feira, 10 de maio de 2019

Através do espelho...




          Os Noivos do Inverno é o primeiro volume de quatro livros da coleção chamada A Passa-Espelhos, sendo que o último livro ainda não foi lançado na França e está programado para sair no dia 28 de novembro. Foi escrito pela escritora Christelle Dabos, que ganhou o prêmio Grand Prix de L’Imaginaire com esse livro, e publicado aqui no Brasil pela editora Morro Branco.

            Ophélie é uma jovem desastrada que pode passar por espelhos. Na Arca (país) em que vive, lugares tem vida própria e ela adora visitar o prédio dos Arquivos, guardado por seu tio-avô. Mas terá que deixar tudo para trás quando descobre estar prometida para alguém do Polo, lugar frio e distante do lugar aonde cresceu.

            Antes de me dedicar à história do livro, devo comentar que a ilustração da capa me encantou. Parece uma arte vinda do Studio Ghibli. Dentro dele, também há um mapa da Cidade Celeste, onde Ophélie vai viver sua aventura no decorrer do livro, apontando cada lugar, o que ajuda na localização, e uma árvore genealógica, que os leitores devem ter certo cuidado, pois contém um pouco de spoilers. Uma pequena reclamação a ser feita é sobre a facilidade com que as letras da capa vão sumindo conforme são tocadas. O nome da autora quase desapareceu devido a eu ter colocado o meu dedo muitas vezes para ler o livro. Acho que deviam colocar algum tipo de material que resista mais. Mas como disse antes, não é nada demais, ainda mais quando se foca na beleza da capa.


         Pelo resumo, parece que seria uma história de amor em um universo mágico. Mas não é. Apesar de Ophélie e Thorn (o noivo) terem uma química interessante, podendo ou não desenvolver um romance no futuro, Ophélie não se apaixona por ele nesse livro, e conforme vai se desenvolvendo a trama, ela vai ficando com mais raiva de seu noivo. Pelo romance estar sob o ponto de vista de Ophélie, não sabemos o que Thorn e outros personagens realmente sentem, o que por um lado é bom, pois o leitor descobre segredos junto com a protagonista, mas por outro lado, nem tudo é desvendado nessa história, já que não acompanhamos os outros personagens.
Por falar nos personagens, Ophélie não é a típica protagonista desse tipo de história. Apesar da aparente fragilidade e do quão desastrada ela é deixando cair e quebrar tudo (e para ser sincera, uma característica que desgosto da personagem), ela resiste a tudo que lhe é imposto com firmeza, sem medo de vestir e falar o que quer nas horas em que acha apropriadas e não tem interesse nenhum pelo amor romântico. Thorn não é o típico rapaz bonito. Ele é sério e suas ações ao decorrer do livro farão o leitor querer saber o que ele realmente pensa. Berenilde (tia de Thorn) é outra que apesar da aparência bela e de sua cortesia, esconde raiva e tristeza e pode machucar os outros para conseguir o que quer, ao contrário de Roseline (tia de Ophélie), que apesar da aparência séria e orgulhosa, se preocupa com Ophélie e faz de tudo para protegê-la. O principal antagonista desse livro era alguém que não esperava e me fez ter um certo ódio dele por suas ações e como isso prejudicou a protagonista, a reação que a maioria dos antagonistas causam e isso não é algo de ruim. Os demais personagens secundários cumprem bem suas funções e até aqueles que não apareceram tanto tinham alguma característica que os distinguia dos demais.
O mundo que é construído nesse romance me atraiu. Cada Arca (país) tem um espírito familiar imortal que fundou as famílias e cujo os seus descendentes herdaram poderes. Por exemplo, em Anima, terra natal de Ophélie, o espírito familiar é Ártemis e seus descendentes herdaram o poder de, ao tocar em objetos, ver sua origem e os sentimentos das pessoas que tocaram nele antes. No caso da Arca de Polo, tem vários clãs com poderes diferentes herdados do mesmo espírito.
Concluo minha resenha dizendo que apesar de ter um começo lento, a metade para o final fica interessante e estou ansiosa para que traduzam o segundo volume aqui para o Brasil. Descobri que a autora tem um blog*, onde posta novidades sobre suas histórias. Infelizmente está em francês, mas nada que um Google Tradutor não possa resolver. Passe através do espelho e veja pelos olhos de Ophélie o perigo que é morar na Cidade Celeste.




*http://www.passe-miroir.com/

sexta-feira, 3 de maio de 2019

A Cigarra e a Formiga (Final Alternativo)


              Era uma vez uma cigarra, que vivia na moleza, apenas se divertindo e cantando para todos os insetos que passavam por ela. Enquanto isso, a formiga só trabalhava. O inverno estava se aproximando e era melhor se precaver.

            O inverno chegou. A cigarra, desesperada, vai até a casa da formiga pedir abrigo. A formiga permite que ela fique. Mas no dia seguinte, a formiga descobre que a cigarra comeu toda a comida que havia guardado para o inverno inteiro.



Moral: Do que adianta você guardar sua comida favorita se o companheiro que vive com você vai lá e come sem pedir? (Mensagem dirigida para certas pessoas com quem convivo).

sexta-feira, 19 de abril de 2019

Roda de conversa no Colégio Angelorum



Nesta segunda, dia 15 de abril, eu e minha irmã Luísa (Maya Flor) participamos de uma roda de conversa na Feira Literária do Colégio Angelorum, na Glória. Foi uma experiência nova. Fiquei muito nervosa na hora de falar, mas acho que deu tudo certo. Teve sorteio de livros e acredito que os alunos tenham gostado. Espero que tenhamos mais eventos como esse no futuro.

E mais uma novidade, lançamos um novo livro: O Peixe-Lula.


Interessados? É só me contatar pelos comentários 😊.






sexta-feira, 29 de março de 2019

Urupês resenha




          Monteiro Lobato é conhecido por suas obras infantis, principalmente as relacionadas ao Sítio do Picapau Amarelo, como Reinações de Narizinho e Caçadas de Pedrinho. Mas ele também escreveu contos para adultos. O livro Urupês é uma coletânea desses contos. Aproveitando que os livros de Monteiro Lobato passaram a ser de domínio público este ano, vou analisar um por um e ver se suas histórias para adultos são tão boas quanto as do público infantil.
Os faroleiros – Ao avistar um farol, um dos marinheiros lembra da tragédia que presenciou durante sua estadia em tal construção, envolvendo um faroleiro que lá trabalhou desde os vinte e três anos. Outro insiste para que ele conte, e é o que ele faz. Não sei o porquê, mas ao ouvir a palavra tragédia relacionada a um farol, pensei logo que haveria algo de sobrenatural envolvido. Mas não, o conto se mantém realista e não é exagerado como uma história de pescador.
O engraçado arrependido – Francisco Teixeira de Souza Pontes é conhecido pelo seu senso de humor. Mas o que acontece quando um homem cômico que nem ele quer ser levado a sério? Este conto me fez pensar naqueles atores cômicos que decidem fazer filmes mais sérios. Esta história é uma versão exagerada e trágica do que acontece quando esse tipo de pessoa falha.
A colcha de retalhos – O narrador visita uma família pobre que mora na roça e está tendo dificuldades financeiras devido ao pouco desenvolvimento de suas plantações. A família é composta pelo pai, que se esforça em seu trabalho na roça, mãe, que fica doente a cada dia, filha que é encabulada e só saiu de casa no dia em que foi batizada, e avó, que anda bem de saúde e adora a neta, fazendo uma colcha de retalhos com pecinhas antigas de roupas para a adolescente. Como é de se esperar em histórias assim, a situação foi de mal a pior. Tive pena da avó. Duas passagens me fizeram lembrar do Sítio do Picapau Amarelo: quando a avó fala que a neta “andava pela casa armando reinações...” (Reinações de Narizinho) e quando a neta pedia para ela contar a história da Gata Borralheira (as crianças do sítio adoravam histórias e já encontraram os personagens pessoalmente). Porém, esse conto foi publicado pela primeira vez em 1915 enquanto o primeiro livro do sítio, Reinações de Narizinho, foi lançado em 1931, dezesseis anos depois.
A vingança da peroba – Nunes tem uma rivalidade com o seu vizinho, Porunga, desde que o último matou e comeu sua paca. Nunes também invejava muito o vizinho e queria provar ser melhor. Ao conseguir ter uma boa plantação de milho, decidiu construir um monjolo, objeto que mói o milho com água, contratando um homem que não é muito bom no serviço. E as coisas se tornam ruins. Sinceramente, não me simpatizei nem um pouco com o personagem, por isso, ver ele se dando mal não me afetou, apesar da tragédia no final.
Um suplício moderno – Biriba é um estafeta (carteiro) que começou bem graças ao coronel Fidêncio, que disputa um cargo político. Mas a vida de Biriba começa a se degradar. Finalmente um conto com final feliz.
Meu conto de Maupassant – Em um trem, um homem narra um caso de assassinato. Conto curto e simples.
“Pollice verso” – Desde pequeno, o pai de Inacinho acreditava que um dia ia ser médico por ter o costume de dissecar animais. E foi o que ele se tornou, mas não é um médico em que os colegas confiavam. Já pelo histórico de infância do personagem, identifiquei que ele seria mal caráter. Conto previsível, mas interessante.
Bucólica – Cada casa do local discute como uma menina morreu. Conto meio confuso.
O mata-pau – Um capataz define para o narrador o que é a árvore mata-pau, uma planta que começa pequena, mas parasita uma outra árvore, e quando cresce, ultrapassa o tamanho da outra e mata a original. Então, eles passam pelo sítio abandonado de Eslebão do Queixo d’Anta e o capataz conta a história deste. Como o próprio narrador conclui, a natureza do mata-pau está relacionada com a vida de Eslebão. Gosto desse tipo de paralelo.
Bocatorta – O major possui um escravo chamado Bocatorta, de uma aparência horrenda. Quando seu futuro genro chega com ele em sua cidade, há a notícia de um ser que anda desenterrando o corpo de moças. Conto interessante, mas que me deixou um pouco irritada. Por que os autores de antigamente tinham a mania de matar mulheres por uma febre que vem do nada? Isso pode dar um ar de mistério que envolve misticismo, mas as histórias desse livro têm sido tão realistas que não acredito nisso.  O conto faz referência ao Corcunda de Notre Dame. Não sei se foi proposital ou não, mas o nome da noiva, Cristina, me faz lembrar do nome da protagonista de O Fantasma da Ópera, Christine, que também teve um elo com um “monstro” e o lançamento desse livro é anterior ao do conto. Também houve passagens que me lembraram do "Sítio do Picapau Amarelo", como a menção da Cuca e de uma leitoa “rabicó”.
O comprador de fazendas – Moreira, que se considera sem sorte por sua terra não dá muitos frutos, decide vendê-la. Demorou, mas veio um comprador, que via na fazenda algo estupendo. Bem, se os outros contos (com exceção de um) não tiveram um final “feliz”, por que esperar que esse também o tenha? Porém, o final te dá uma ironia que pode ser considerada cômica, de forma um pouco trágica.
O estigma – Em uma viagem, Bruno encontra seu velho amigo Fausto, que se vê dono da fazenda Paraíso, morando com os filhos, uma prima na adolescência chamada Laura e a esposa, que pela expressão em sua face, indica que não é uma boa pessoa. Vinte anos depois, Bruno reencontra Fausto, que conta a tragédia ocorrida em ao decorrer desses anos. Esse conto consegue ser previsível na tragédia, mas imprevisível do jeito como o mistério é solucionado.
Velha praga – O narrador reclama da maior praga, responsável por causar queimadas na mata: o caboclo. Sinceramente, senti que isso era mais uma crítica exemplificada do que um conto crítico. Foi o conto mais sem graça que li em toda essa coletânea.
Urupês – O conto descreve o personagem Jeca Tatu, um caboclo roceiro de vida e pensamento simples. A história que mais esperava ler, pois Jeca Tatu, assim como os personagens do Sítio, é um dos mais icônicos das criações de Lobato. E de fato, o jeito que ele descreve o personagem me faz querer uma história com ele. Mas o conto em si não entrega isso. Ele dá pequenos acontecimentos para conhecermos o personagem, porém nada mais que isso. Este conto foi vítima de minhas expectativas altas e me decepcionou muito. Velha Praga foi o conto que menos gostei, mas Urupês fica logo em segundo ou terceiro. Dez anos depois, Monteiro Lobato lança o livro infantil Jeca Tatuzinho, inspirado no personagem, que ensina as crianças a terem mais higiene. Em 1959, Amácio Mazzaropi finalmente pega o personagem e utiliza em seu filme Jeca Tatu. Não é um dos filmes mais originais do mundo, mas finalmente vi o personagem inserido em uma história, além do filme ser um marco no cinema nacional. Uma curiosidade: urupê é um tipo de cogumelo e a figura de Jeca Tatu é relacionada a ele no final.
            A maioria dos contos trata de personagens que vivem na área rural, ou seja, regionalista. Por serem de uma outra época e local, tive dificuldade com algumas expressões. Mesmo com rodapés explicativos, tive dificuldade nos primeiros contos. Concidentemente ou não, pelo menos em três contos, aparece um cachorro chamado Brinquinho. Fico pensando se o autor tinha um cachorro com esse nome para usá-lo várias vezes.
            Como é tradicional da literatura regionalista, os contos transmitem alguma crítica e acabam em sua maioria das vezes com um final triste. Muitas pessoas acham isso interessante, pois o final feliz é usado na maioria das histórias e é considerado um clichê e o final triste é mais realista. Mas discordo disso, pois o final “infeliz” também é um clichê pois na grande maioria da literatura regionalista e realista acaba em desgraça. O realismo não é realista. É pessimista. A vida tem altos e baixos e as histórias realistas insistem em finalizar de forma pessimista que nem sempre ocorre. É sempre bom ter um fiozinho de esperança de que as coisas podem melhorar.
            Analisando o livro como objeto, não gostei da capa. Entendo que o autor seja famoso e que colocar o nome dele em letra grande seja uma jogada para chamar a atenção, mas o título do livro podia ser maior do que é. Além disso, a capa é sem graça, não possuindo nenhuma imagem que chame sua atenção, colocando em letras grandes o nome de textos de Lobato que nem aparecem nessa coletânea.
            Por esse livro, vejo que Monteiro Lobato tinha capacidade tanto para o imaginário divertido da literatura infantil quanto para a realidade crítica da literatura adulta. Aconselho a ler tendo em mente a cultura da época.


sexta-feira, 8 de março de 2019

Dragões que contam histórias



            A Caçadora de Dragões é o primeiro livro da trilogia Iskari escrito por Kristen Ciccarelli. No momento em que posto esta resenha, ainda não foi lançado o segundo livro em português, apenas em inglês. Este é um livro High Fantasy, ou seja, que se passa em uma terra completamente imaginada. O Low Fantasy possui os elementos fantásticos dentro do mundo realista, como Harry Potter.
            Asha cometeu um crime terrível aos dez anos: contar histórias, que atraem perigosos dragões. Isso ocasionou a morte de várias pessoas. Sendo filha do rei, foi poupada, mas teria que caçar essas criaturas como meio de se redimir, inclusive o primeiro e mais forte dragão, Kozu.
            A premissa me atraiu. Dragões que são atraídos por histórias é algo novo em sua mitologia, que no ocidente é visto como seres poderosos e ferozes, enquanto no oriente, apesar da força, são vistos como entidades possuidoras de grande conhecimento. Nesse romance, eles são apresentados como uma mistura dos dois. Mas me decepcionei um pouco pois esperava que eles falassem. Porém, eles transmitem suas histórias através de algo que lembra telepatia. E só fazem isso para contar histórias e não para conversarem. Queria também que essa relação entre o humano e o dragão de contar histórias um para o outro fosse mais explorada no livro, que foi algo bem rápido, focando mais na revolta e no romance.
            Algo que também me atraiu enquanto fui lendo foi o romance. Faz um tempo que não leio algo que envolva duas pessoas se apaixonarem e senti falta disso. No geral, foi uma história rápida. E não rápida por causa de seus capítulos curtos, mas no sentido de que as coisas estavam andando depressa demais. Talvez seja pelo livro se centrar no ponto de vista de Asha.
            Tive uma reação mista. O livro me deixava ansiosa para ler o próximo capítulo, mas como uma leitora com certa experiência, esperava que essa briga entre os draksors e os dragões não era o que parecia e que havia algo como “a história é contada apenas pelos vencedores”, e que o lado dos perdedores tinha uma outra versão. SPOILER: estava certa. Algo que acho que a autora cometeu um pequeno deslize foi quando o Antigo, o mais poderoso dos deuses do povo de Asha, mandou um presente específico e mandou que a garota tomasse conta, senão receberia uma punição. Ela sem querer não conseguiu tomar conta e não recebeu nenhuma punição, algo que achei incoerente, pois ele a puniu anteriormente quando esta o desobedeceu.
            Quanto ao livro como objeto, a capa apresenta um dragão branco com uma espada perfurando o coração, que é o símbolo da família real de Asha, e um dragão negro que representa Kozu, a fonte de histórias. Esses desenhos dialogam bem com o livro. Na orelha detrás do livro, veio um marcador para recortar, e pra variar, cortei muito mal. Mas gostei da ideia.
            Não sei se vou ler a continuação se sair aqui no Brasil. Apesar do livro dar a entender que os personagens enfrentarão mais perigos em sua jornada, a trama tem um final fechado. O romance é curto e fácil de ler. Para quem deseja lê-lo, escute com atenção o que ele tem a lhe contar.


sexta-feira, 15 de fevereiro de 2019

Contos para uma noite fria resenha



          Tenho lido muitos livros de contos ultimamente. É porque eles são rápidos e me distraem quando estou fazendo bicicleta na academia. Voltando para a resenha, Contos para uma noite fria foi escrito por Bruno Anselmi Matangrano e editado pela Lly.r Editorial, selo da editora Vermelho Marinho. Como faço em todos os livros de contos, resumirei um por um:
            O viajante – Um homem viajava em seu carro novo e decidiu dar uma parada e descansar. Um morador da cidade sugeriu um chalé, que era um pouco mais afastado das outras casas. Mas esse chalé tinha a aparência de abandonado. Achei que seria um conto de terror até o final quebrar com as minhas expectativas.
            O germe da imaginação – Após um governo dito popular ser eleito, este começa a proibir qualquer coisa que incentive a imaginação, desde livros de literatura a músicas e filmes, deixando apenas livros científicos e políticos. A narrativa tem duas linguagens: a de diário e a do narrador observador, que deu um bom diálogo. Esse conto me fez pensar na rivalidade tola que têm as ciências exatas e as humanas, em que a primeira acha que a outra não tem importância. Quando é que vão entender que elas são complementares e não opostas? Outra coisa foi o jeito que o personagem principal diz que o governo quer alienar as pessoas, proibindo-as de ouvirem música e verem filmes, algo que nos dias de hoje são considerados meios de alienação. Não sei o que pensar disso.
              Estátuas – O narrador e seus amigos alugaram uma casa antiga para ficarem. Mas quando o protagonista acorda durante a noite, percebe que seus amigos sumiram e vai procurá-los pela casa. Um conto ok.
            Gravidade às avessas – Como o título já sugere, o narrador acorda com sua casa virada às avessas. Ele levou numa boa, o que uma pessoa normalmente não levaria.
             A dama de branco – O narrador se encontra em sua casa em uma noite chuvosa e quente. Ele tem dificuldades para dormir e um suposto visitante que apareceu em seu quarto não ajuda.
            A melancolia do piano – Um homem que não gosta de sons que não sejam os de melodias, decidi tocar no piano. Até que uma jovem entra no aposento e canta a música que ele havia acabado de compor. Curto, mas dá para entreter.
            O futuro da humanidade – Willian acorda e se vê em uma cidade sem movimento, com todas as pessoas mortas. O primeiro conto em que o narrador não é o personagem principal. Não sei bem se o classificaria como conto, pois ele se divide em pequenos capítulos.
           Encontro às escuras – Um homem atravessa uma rua vazia até sentir que estava sendo seguido e aumenta o seu passo. Final que deixa um mistério no ar.
            A donzela e o rubi – Um homem que vive em uma casa longe de tudo, recebe uma visita inesperada de uma garota, no meio de uma nevasca. A menina sofre de amnesia.
             Mize em abyme (ou Como um poema de Poe) – O narrador dorme em sua cama e acorda em um belo bosque. Um sonho dentro de outro sonho ou um sonho que prevê o futuro?
            O Beco dos Aflitos – O narrador é cético e não acreditava em nada que não podia ver. Até que um dia, quando foi para o Bairro da Liberdade, um bairro oriental. Perto dele, havia uma capela conhecida como a Capela dos Aflitos e um de seus amigos decide contar sua história. Graças à internet, descobri que essa capela de fato existe e que parte do que o amigo do narrador contou realmente aconteceu.
         Entre o tempo e o espaço – Sabe o conto O viajante que falei lá em cima? Este é sua continuação. Já esperava um final sem resposta, só não esperava sentir muita pena do protagonista.
            Normalmente comento o que achei dos contos quando falo deles individualmente. Mas não consegui fazer nisso em todos. Não sei bem o que comentar quando a história termina sem te dar uma resposta, principalmente agora que posso me considerar vacinada nesse gênero, de tanto tê-lo lido. De certa forma isso é ruim, porque já esperava que os contos não me dessem nenhuma resposta. Os meus favoritos foram O germe da imaginação, pois este me lembrou o filme Fahrenheit 451, também baseado em um livro do mesmo nome; Mize em abyme; O viajante e sua continuação Entre o tempo e o espaço.
            Este livro também contém ilustrações interessantes. Cada conto tem uma, e todas são em preto e branco para dar um clima de suspense e sobrenatural antes de começar a ler.


             Contos para uma noite fria é um livro bem tranquilo de se ler para quem está acostumado com esse tipo de conto. Mas não acho que o leitor que seja novo nesse gênero chore de medo dessas histórias. As que me chamaram a atenção não deram medo, porém me fizeram refletir. A maioria desses contos é curta e de leitura rápida. Se quiser dar uma espiadinha neles, esperem uma noite fria para fazê-lo e entre no clima.

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2019

A Princesa e o Dragão


            Isabel acordou. Quando a visão voltou ao normal depois de tanto dormir, ela o procurou. Cadê ele?! Não era ele quem iria me acordar depois de derrotar o dragão? Pensou ela. Ela então se levantou e saiu à sua procura pelo castelo. A princesa havia sido enfeitiçada por uma bruxa vingativa, e dormiria até um príncipe vir acordá-la. Mas para isso, teria que derrotar o terrível dragão.
            Não havia ninguém no castelo. Procurou em todos os cômodos em vão. Isabel começou a se desesperar. Foi para o jardim. A grama parecia não ter crescido muito após ter pegado no sono. Quanto tempo se passou? No meio das flores, tropeçou em algo. Ajeitou o seu vestido e foi ver o que era. O objeto era duro e tinha um tom verde escuro, parecendo uma esmeralda bruta. Tinha o tamanho do antebraço da princesa e formato oval. Um ovo? Isabel o colocou no colo. Era pesado e quente e começou a se mexer. Ela largou o ovo e se afastou, vendo que dele, nasceu um pequeno dragão verde, que como todo animal recém-nascido, começou a andar desengonçadamente.
           A princesa se afastou um pouco mais. Esse é o dragão que meu príncipe vai ter que enfrentar? Para que devo esperar então?! O dragão começou a se aproximar dela, mas Isabel saiu correndo para os portões. A bruxa parece ter errado as palavras na hora de amaldiçoá-la. Não podia perder esta oportunidade. Quando ia encostar no portão, uma força a empurrou para trás. Tentou de novo, mas aconteceu a mesma coisa. Parece que o encanto da bruxa não deu totalmente errado. Será que...
          O filhote ainda estava no jardim, explorando os arredores. Isabel chegou até ele, segurando uma lança, que era usada de enfeite junto com armaduras de cavaleiros. Ela a apontou para o dragão que só a olhava curioso:
            - Esse será o seu fim, criatura maligna! Prepare-se para...
            O dragão começa a brincar com a lança, tentando pegá-la com suas garras, igual a um gato. Ele consegue e fica mordendo a ponta da lança. Isabel o olha com pena:
            - Não consigo. Não sou um cavaleiro corajoso para fazer isso. Por que pensei que seria capaz de fazer isso?
            Ela solta a lança no chão. O filhote a balança como se esta fosse um mero pano de chão. Fez isso até a madeira da lança se soltar. A princesa decidiu fazer algo que nunca pensou que faria em sua vida. Ela pegou a madeira da lança e a balançou, chamando a atenção do dragão:
            - Aqui garoto, aqui...
            O réptil soltou a ponta da lança, que estava toda amassada e babada e tentou pegar a madeira:
            - Aqui garoto, aqui. Pega!
        Isabel joga o pedaço de madeira para longe. O pequeno dragão vai atrás dele e volta carregando-o na boca. Essa cena se repetiu umas dez vezes até Isabel sentir fome. Foi procurar algo no estoque do castelo. Viu que tinha comida o bastante. Os servos devem ter ficado tão apavorados com a maldição que saíram correndo sem nem ao menos levar nada. Pensou a princesa. Nunca pensou que algum dia, ela mesma teria que cozinhar. Pegou um livro de receitas da biblioteca e fez sua primeira tentativa. Aproveitou e também trouxe um livro sobre constelações para se distrair. Mas acabou se distraindo tanto que queimou todo o fundo da sua estranha gororoba. Ofereceu ao dragão, mas este cheirou e logo se afastou enojado:
- Vejo que seu paladar também tem limites.
Isabel teve que se contentar com essa gororoba, pois não iria arriscar queimar outra panela. Ela deu pedaços de carne crua para o filhote, que as recebeu com excitação:
- Espero que isso dure até eu ser resgatada. E que você não me coma até ela acabar – disse Isabel em voz baixa.
O bicho só a olhou com curiosidade, enquanto mastigava o pequeno cubo de carne:
- Acho que você precisa de um nome. Ou pelo menos algo que irei chamá-lo antes de tentar me devorar.
O filhote se aproximou dela, e começou a cheirá-la, procurando outro pedaço de carne. Isso a deixou paralisada de medo e deixou o livro de constelações cair. Mas quando ele cheirou os seus dedos, lambeu-os, pois sentia o gosto da carne picada que ele havia comido anteriormente. Isabel se acalmou e fez uma coisa que jamais pensaria que iria fazer. Ela acariciou a cabeça do filhote. Este a parou de lambê-la e a olhou por um momento com seus olhos verdes. Depois passou a fazer o mesmo com a outra palma. Isabel olha rapidamente para o livro caído no chão. Ele estava aberto na constelação do dragão:
- Vou chamá-lo de Draco.
Dias se passaram. Draco crescia de pouquinho em pouquinho. Com um mês, já alcançava os joelhos de Isabel. Aprincesa se distraia lendo livros, brincando com seu companheiro e cozinhando. Queimou a comida umas três semanas. Tinha vezes que lia para o pequeno dragão, que parecia entender o que era dito conforme aumentava de tamanho. Parecia ter um entendimento mais de humano do que de um animal. Isso deixou Isabel tão curiosa, que procurou sobre o assunto na biblioteca. O único que tratava os dragões como seres portadores de grande sabedoria e não seres loucos por carne e queimadores de vilas estava em um canto bem escondido em uma das prateleiras. Só que os dragões lá ilustrados não possuíam asas e tinha uma aparência mais similar a de uma serpente do que a de um lagarto ou salamandra, como era o caso de Draco.
Uma noite, enquanto Isabel estava apreciando as estrelas com Draco, os portões do castelo se abriram. A princesa, sem saber quem havia entrado, puxou o dragão, que naquele momento tinha a sua altura, para um quarto do andar de baixo. Eles ouviram os passos. Seus visitantes eram bandidos, armados até o último fio de espada, adagas e várias armas cortantes:
- Chefe, tem certeza que estamos seguros aqui?
- E se tiver alguma armadilha?
- Deixem de ser medrosos! Vão procurando a princesa. Assim que acordá-la, serei rei e darei uma recompensa bem gorda para todos. Serei mais poderoso do que nunca!
- E se não tiver nenhuma princesa, chefe?
- Então saquearemos tudo que tiver no castelo. Também poderemos usá-lo como esconderijo...
Isabel começou a tremer com a aproximação deles no quarto onde estavam escondidos. Mas Draco tinha um olhar de fúria e determinação. Ele sai de perto da princesa e vai em direção a porta:
- Draco, não! – sussurrou Isabel.
Draco derruba a porta, se revelando para os ladrões:
- Um dragão! – gritou um deles apavorado.
- Mas olha o tamanho dele! Ele nem chega a altura dos nossos ombros.
- Homens, atacar! – gritou o chefe.
Porém, não conseguiram encostar um dedo sequer na pele escamosa do dragão, pois chamas verdes saíram de sua boca, queimando os corpos dos invasores. Estes saíram correndo do castelo e nunca mais foram vistos. Isabel assistiu a cena de dentro. Essa era a primeira vez que via Draco soprar fogo. Ela saiu do quarto e foi abraçar Draco:
- Graças aos céus que você está bem. Nunca mais me dá um susto desses!
Draco lambeu a face da princesa, limpando suas lágrimas de preocupação. Mas dois meses se passaram e a carne conservada havia acabado. Draco já media uma Isabel e meio quando ficava em duas patas. Ainda estava aprendendo a voar, mas como havia sido mostrado pelos bandidos, seu bafo de fogo funcionava como nunca. Ao notar que os estoque de carnes havia acabado, a princesa ficou nervosa. Quando foi para cozinha ver se não havia nenhuma carne escondida, encontrou Draco próximo ao fogo. Seus olhos estavam fixos nela. O dragão se aproximou dela com rapidez. Já a princesa deu uns passos para trás. Quando Draco se aproximou o máximo que pôde, ele abriu a boca e... Cuspiu um gavião morto. Tinha sinal de queimaduras na ave. Draco então se sentou e olhou para Isabel, que teve uma reação de surpresa e depois de nojo ao ver a ave toda babada. Ela voltou o seu olhar para ele:
- Você quer que eu cozinhe isso?
Ele acenou que sim com a cabeça. Já ela, pegou um pano e tentou limpar o gavião antes de depená-lo. Seus dotes culinários haviam melhorado nesses meses, mas em nenhum desses pratos havia depenado um animal. Acabou que deixou três penas no cozido, mas o dragão não ligou. Draco caçava uma ave por dia para a refeição dos dois. Aos poucos, o dragão aprendia a voar cada vez mais alto. Isabel chegou pensar na possibilidade de ele ir embora e nunca mais voltar. Mas ele nunca saía dos arredores do castelo, e até aquele momento, seus voos não passavam dos muros fortificados do palácio. Será que o feitiço da bruxa também o prende? Ele está preso aqui comigo até que alguém tire a sua vida?! Pensou a princesa. O desejo de sair um dia daquele castelo foi substituído pelo medo. Medo de perder o único companheiro que teve durante todo o ano.
Então, o dia chegou. O portão do castelo se abriu novamente. Isabel e Draco estavam no jardim quando ouviram o portão se abrir:
- Fique aqui – ordenou a princesa.
Isabel foi silenciosamente para o salão principal. Ao invés de um grupo de homens, havia apenas um cavaleiro de armadura e espada montado num jovem corcel. Sua salvação havia chegado. Mas ela não correu para ele. A princesa voltou ao jardim sem que o pretendente a visse e abraçou Draco chorando:
- Ele chegou! Sei que é ele! Sua aparência é igual a dos livros. Eu não quero que você morra...
Draco olha para o céu estrelado. Depois olha para Isabel. Seus grandes olhos não demonstravam medo, mas sim uma serenidade. Ele não estava com a sede de sangue nem a raiva de quando enfrentou os bandidos. Draco gentilmente se afasta do abraço de Isabel e faz um sinal com a cabeça, encostando em seu ombro:
- Você quer que eu suba em você? – perguntou ela, tentando conter as lágrimas.
Ele fez que sim com a cabeça. Ela subiu e ele voou. Voou tão alto que os muros do palácio pareciam um pequeno ponto. Eles seguiram com sua jornada, pois a primeira parte já havia sido completada: A princesa derrotou (domou) o dragão.