Texto: Mariana Torres
Desenho: Maya Flor
Ao contrário do monstro
de Frankenstein, o lobisomem não tem uma história específica, tendo surgido das
crenças de vários povos. Mas vocês sabem qual foi a história que iniciou a
entrada deste monstro na literatura? Foi O Lobisomem, conto escrito por
Richard Thompson em 1828. Será que ele teve um bom início? Vamos descobrir:
Na cidade de St. Yrieux, havia relatos de que tinha um ou
mais lobisomens habitando a floresta de Limousin. Um grupo de seus cidadãos
estava reunido na Taverna do Cavaleiro Bayard, incluindo o doutor Antoine Du Pilon,
conhecido por sua grande inteligência, até que um homem entra ferido no local...
Infelizmente, este resumo acima é a parte mais misteriosa
do livro, pois a identidade do lobisomem é previsível. Estava torcendo para ser
surpreendida no final, mas não foi o caso. A única surpresa interessante que
tive foi que o doutor, que nas histórias de terror, costuma ser o mais
inteligente e o que resolve tudo, não é o herói da história, e sim a parte
cômica.
Aqui, o lobisomem não morre por bala de prata, sendo morto
por armas normais. Aparentemente, ele parece ter controle da sua transformação
e tem consciência quando transformado, algo que não é visto nas adaptações
focadas no terror.
Pelo que escrevi acima, deu para concluir que não gostei
muito da história. Se o autor invertesse a ordem da narrativa e começasse pelo
meu resumo, teria sido um pouco melhor na parte do mistério. Porém, ainda assim
recomendo a leitura para aqueles que gostam de lobisomens e queiram saber como
ele entrou no universo literário. Por isso, dê uma espiada. Só cuidado ao
entrar na floresta Limousin.
O Fantasma da Ópera
é um clássico do teatro musical. Vocês sabiam que ele foi adaptado de um romance?
Sua publicação foi serializada no jornal Le Gaulois de setembro de1909 a
janeiro de 1910, sendo lançado em livro três meses depois. Foi escrito pelo
francês Gaston Leurox, que usou como inspiração acontecimentos históricos ocorridos
na Ópera de Paris no século XIX, com a descoberta de um cadáver em 1907 e a
queda de um lustre em 1896. Também se inspirou na lenda de um pianista que
sobreviveu a um incêndio de 1873 e se refugiou no andar de baixo do teatro para
esconder suas queimaduras. A junção desses elementos pode dar uma boa história.
Será que o autor entregou? Vamos descobrir.
Há uma lenda de um fantasma circulando pela Ópera de
Paris, causando vários acidentes e assustando as dançarinas e trabalhadores. Enquanto
isso, Christine Daaé se destaca em sua música. Ela chamou a atenção do jovem
Visconde Raoul, que esperou que a moça ficasse sozinha para falar com ela.
Porém, ele a ouviu conversando com um homem em seu camarim. Quando Christine
saiu, Raoul entrou para encarar o seu rival. Mas não encontrou ninguém...
A estrutura do livro lembra um pouco a do Drácula,
em que a história é contada através de memórias escritas e entrevista de
personagens. A diferença é que aqui, elas são recolhidas por um investigador do
caso, cujo nome é o mesmo do autor. Ele é o narrador que junta toda informação para
formar uma narrativa coesa. Leurox (o personagem) também complementa usando
notas de rodapé. Por ser conhecido na França como um escritor de romances investigativos,
como O Mistério do Quarto Amarelo de 1907, faz sentido que o escritor
utilize desses recursos na contação de sua obra. Uma pena que por causa da peça
de teatro, a revelação de que o fantasma era um homem faz com que o romance
perca seu mistério.
Quanto aos personagens, diria que o triângulo amoroso
poderia ter sido melhor. Christine é ingênua e boazinha demais, sentia pena do
fantasma apesar deste ter se mostrado um assassino louco. Apesar disso, se não
fosse seu bom coração, a história e o desfecho não teriam acontecido. Raoul era
para ter sido o mocinho cujos leitores deveriam torcer para que Christine
ficasse no final, mais sua personalidade infantil, ultrarromântica e ciumenta
fez com que achasse o personagem chato e me fez querer que a moça não ficasse
com nenhum dos dois. O fantasma é um vilão cartunesco que você sente prazer ao
vê-lo derrotado. Um gênio das maquinarias e da arte que teria sido bem aclamado
se não parecesse um zumbi com olhos amarelos que brilham no escuro. Seu passado
explica o porquê dele não sente nada ao matar. Mas isso não justifica suas ações
e dá para entender o motivo de Christine não querer ficar com ele, pois além de
sua aparência horrorosa, era maligno. Um quarto protagonista que foi
introduzido no momento do perigo e que a adaptação musical cortou por
considerar um estereótipo racista é o Persa, o que é uma pena pois achei ele o
melhor personagem devido ao seu passado com o fantasma. Há também o “drama” dos
novos diretores, Richard e Moncharmin, tentando descobrir a identidade do
fantasma, que sai um pouco da parte séria e vai para um tom mais leve da trama.
Há muitas diferenças entre o livro e o musical. Além da
aparência do fantasma, que mencionei acima, que no musical aparece só com
metade do rosto deformado, sua icônica máscara é preta no livro enquanto no
musical é branca. Christine é sueca e descrita como loira enquanto suas
adaptações a retratam como morena. A senhora Giry, que é a lanterninha que
recebe gorjeta do fantasma por fazer favores, mas nunca o viu pessoalmente, virou
professora de balé e tomou o lugar do Persa na adaptação teatral. E, é claro,
muito da história foi encurtado e várias outras modificações foram feitas, como
Christine sentindo atração romântica pelo fantasma no musical.
Apesar das minhas ressalvas com relação ao triângulo
amoroso, o livro me entreteve. Recomendo aos fãs de literatura gótica
romântica. Só não entrem no Camarote Cinco.
O que você faria se parasse
de envelhecer aos dezessete e um retrato seu envelhecesse em seu lugar? Será
que isso é tão bom quanto parece? O Retrato de Dorian Gray escrito por
Oscar Wilde em 1890 responde essas perguntas. Gostaria de saber as respostas?
Vamos para o resumo:
Dorian Gray é um belo jovem que foi a casa de seu amigo,
Basil Hallward, para que este pintasse o seu retrato. Lá também encontrou lorde
Henry Wotton, amigo de Basil, e numa conversa entre ele e Gray, acaba
mencionado que a juventude não é eterna, que o tempo passaria, que Dorian
envelheceria e sua beleza esvaneceria. Quando Basil terminou a pintura, todos
acharam bela e Dorian desejou que a pintura envelhecesse em seu lugar...
Devo dizer que fiquei surpresa em saber que a história
não envolveu pacto com o Diabo. O retrato de Dorian começou a envelhecer e mudar
sua aparência misteriosamente conforme o jovem fazia suas maldades. Não há
explicação para o ocorrido, mas saber o porquê de isto estar acontecendo não
importa. O foco do livro é a consequência deste fenômeno.
Dentre os personagens, três se destacam: o pintor Basil
Hallward, que conheceu Dorian e vê nele não só um modelo, mas um ser próximo do
divino que o inspira na hora de fazer suas pinturas; Henry Wotton, um sujeito
que tem um pensamento individualista, que acha que todos deviam agir pelo
prazer sem pensar nas consequências. Ele faz o papel do diabo no ombro de
Dorian enquanto Basil faz o papel de anjo. Wotton influencia o rapaz a ir pelo
mal caminho por mera diversão. E por último, temos o protagonista, Dorian Gray,
um rapaz que começa bom, ingênuo e bastante emotivo até que começa a seguir
esta vida de prazer sem se importar com os outros. Ele é descrito como um jovem
de cachos loiros e olhos azuis, algo que a capa do livro não ilustrou. Isso dá
a ele uma aparência angelical.
Por sua aparência se manter a mesma, Dorian se entrega
aos vícios e prazeres libidinosos, fazendo com que várias pessoas que ele se
relacionou o detestassem por ter sido má influência e arruinado a vida delas.
Mesmo assim, Dorian conseguia manter algumas de suas amizades, pois sua beleza
era encantadora e pueril. Estas acreditavam que tudo aquilo que ele fez não
passava de boatos. Creio que muitos têm este sentimento quando descobrem que
uma celebridade fez algo de errado, principalmente quando ela tem uma beleza
estonteante. Este é privilégio do belo. É quase que instintivo nós vermos algo
bonito e associarmos com o bom e o feio com o mal. Mas nunca julgue o livro
pela capa. Devemos julgar pelo conteúdo.
Respondendo à pergunta do primeiro parágrafo, não seria
ruim se um retrato envelhecesse em seu lugar. Só que o retrato de Dorian Gray
não apenas envelheceu. Ele se desfigurou conforme as maldades e os vícios do
jovem. Ele então deixa de ser um retrato de belo moço e passa a refletir a alma
de um homem corrompido. Você aguentaria conviver com um espelho que refletisse
todos os seus pecados?
O Retrato de Dorian Gray é um ótimo livro para se
entreter e pensar, não só nos assuntos que mencionei acima, mas também pelas opiniões Wotton, que apesar de discordar de vários
de seus pensamentos, muitas de suas falas podem dar bons temas para debates. Então,
venha dar uma olhadinha. Só não faça isso próximo de seu retrato.
Vocês já pularam o
episódio de alguma série ou deixaram de ver o primeiro filme e foram direto
para a sequência? Tarzan, o Magnífico é o vigésimo livro da série do
personagem homônimo, escrito por Edgar Rice Burroughs em 1936. Li o primeiro
livro da coleção há muito tempo atrás. Este volume foi meu padrinho que
emprestou e pertencia ao pai dele. Suponho que os outros volumes também tenham
sido publicados, mas devem ser raros de se encontrar pois nenhum deles possui
uma edição recente. Infelizmente, parece que o Brasil quase não publica a
sequência de livros cuja adaptação animada só tenha usado o primeiro livro como
base. Bambi* e Entregas Expressas da Kiki**, por exemplo, são
livros antigos que até agora não tiveram suas sequências traduzidas para o
português. Espero que não aconteça o mesmo com Robô Selvagem***. Vamos
para a resenha:
Tarzan caminhava por uma planície até que encontrou um
esqueleto morto há muitos anos. Próximo a ele, encontrou a carta de lorde
Mountford, dizendo ter sido capturado junto a esposa, pela tribo de mulheres
guerreiras kajis. Ele e a filha que nasceu pouco tempo antes da morte de sua
esposa eram prisioneiros e suas captoras usavam magia para mantê-los cativos. Ele
ofereceu um diamante como recompensa para o resgate. Tarzan guardou a carta
para entregar às autoridades, até encontrar um homem ferido...
Acredito que a primeira pergunta que vocês estão fazendo
é: dá para ler este livro sem ter lido os outros? Sim. É uma aventura que
começa e termina no mesmo volume. Porém, é interessante que tenha um pouco de
conhecimento sobre o nosso protagonista, Tarzan. Por isso, recomendo que leiam
o primeiro livro de sua série, que será bem mais fácil de encontrar do que suas
sequências.
Indo para a história, não esperava encontrar magia no
mundo do Tarzan. Não lembro de ter nenhuma menção disto no primeiro volume, apesar
de coisas improváveis terem acontecido, como por exemplo um jovem ter sido
criado por uma espécie humanoide entre gorila e ser humano, e este aprender a
ler um livro sozinho, algo impossível de acontecer na realidade (quem estudou
linguística sabe do que estou falando). Ainda assim, era um romance mais pé no
chão. O gênero é aventura, então obviamente tem ação e luta neste livro. Alguns
leitores que podem achar o livro problemático devido a crença das kajis de
quererem ter filhas com brancos para que se tornassem brancas. A motivação para
tal crença não é justificada. Ela existiu há vários anos e ninguém se lembra o
porquê dela existir. Há também algumas falas preconceituosas, que são ditas
por pessoas de má índole. Resumindo, pessoas do politicamente correto
encontrarão vários motivos para não gostarem deste livro. Como disse no
primeiro parágrafo, Tarzan, o Magnífico foi lançado em 1936, uma época
diferente da nossa. Como não sou tão sensível, isto não me incomodou.
Quanto aos personagens, há tantos que o livro possui um
guia de uma página com o nome deles. Vou me ater apenas aos que me chamaram
atenção. Temos obviamente Tarzan, o personagem que dá nome a obra, o homem que
foi criado na selva, sabe a linguagem dos animais além de ter uma grande força
e sentidos aguçados. Ele é tão incrível que seu nome virou lenda. Não é muito
expressivo, mas tem bom coração e ajuda aqueles que considera seus amigos,
apesar de considerar a humanidade inferior aos outros bichos devido aos
conflitos que ela causa entre si por coisas que Tarzan considera fúteis. Um
herói perfeito para aqueles que gostam desse gênero. Me lembra um pouco o Conan,
o Bárbaro, só que mais honrado. Stanley Wood é o homem ferido que Tarzan
encontra e a motivação para ele entrar nessa aventura. Uma pessoa honrada que
fará de tudo para ficar com Gonfala, a rainha dos kajis, que parece ter dupla
personalidade. Esta personagem fez uma coisa que me irritou, porém, se der
muitos detalhes, será spoiler. Woora e Mafka foram bons antagonistas iniciais
(aqui tem muitos antagonistas), introduzindo a magia na narrativa. E, para quem
é fã do desenho animado, saiba que Tantor, o elefante, existe aqui nos livros e
ele até que tem um papel relevante neste romance.
O livro me entreteve. Sua leitura é simples, apesar dos
muitos personagens e locais. Porém, acredito que este livro ficaria melhor no
formato de quadrinhos, em que podemos visualizar as lutas. Sou da opinião que
os gêneros de ação e terror ficam melhor em mídias visuais do que escritas. Se
vocês desejam conhecer, boa sorte. Talvez o encontrem em algum sebo. Ou nas
misteriosas selvas africanas...
*Resenha de Bambi:
Ponte
para o Imaginário: O príncipe da floresta
**Resenha de Entregas
Expressas da Kiki: Ponte
para o Imaginário: O rito de passagem de uma bruxa
***Resenha de Robô
Selvagem: Ponte
para o Imaginário: Instinto e Programação
Já ouviu falar do gênero das
garotas mágicas? Ele está presente em muitos mangás e animações japonesas como Sailor
Moon e Sakura Card Captor, que são sobre garotas, geralmente jovens,
com poderes mágicos. Normalmente, elas passam por uma transformação que muda sua aparência e roupa. Também costumam usar seus poderes para salvar o mundo. Agora
imagine se várias delas existissem em nosso mundo, cada uma com seu poder mágico.
O livro Uma garota mágica se aposenta fez esta proposta. Escrito pela
coreana Park Seolyeon no ano de 2022 em seu país, foi lançado no Brasil
recentemente em junho deste ano. E como fã de Sakura Card Captor, o
título desta obra me atraiu e aqui estou eu fazendo sua resenha. Vamos para o
resumo:
Uma mulher de vinte nove anos está prestes a se suicidar na
ponte Mapo em Seul, após várias dívidas no cartão e a falta de emprego fixo.
Mas uma moça com vestidinho branco e fofo a impede, dizendo que seu destino é
se tornar uma “Garota Mágica”.
Como funciona as garotas mágicas numa história mais
realista? Torne-as o equivalente do que seria os super-heróis, com uma escola dos
X-men para treinar as garotas, junto a um lugar que ajuda encontrar emprego
para elas ganharem dinheiro como por exemplo o de guarda-costas e o de caçadora
de recompensas. Achei um conceito interessante. Existe, porém, aquele dilema do
herói estar ganhando dinheiro pelo seu heroísmo ao invés de fazer por razões
nobres, algo que a própria protagonista julga. Mas não é isso que os policiais
e os bombeiros fazem? Os poderes normalmente são despertados quando a moça se
sente vulnerável, o que explica o porquê de a maiorias delas ser jovem.
A protagonista, que não é nomeada na história, é pessimista
e esforçada. Devido ao seu problema financeiro, tem muito foco nos gastos e
tenta ao máximo conseguir um emprego. No primeiro capítulo cheguei a me
identificar com ela quando desejou cometer suicídio sem incomodar ninguém, mas
no fundo, gostaria que alguém a consolasse, o que mostra como temos que nos
mostrar forte para os outros, mesmo querendo nos abrir para alguém. A segunda
personagem com mais foco é Ah Roa, a Garota Mágica da Clarividência. Foi ela
que impediu a protagonista de tirar a própria vida. Por trás de sua
positividade, esconde uma mulher que tem autoestima baixa, pois apesar de útil,
seu poder não é tão forte para luta. Há um romance implícito entre as duas
personagens que achei um tanto desnecessário pois a trama era rápida e quase
não teve tempo para desenvolvê-las como amigas, muito menos como par romântico.
Há outras personagens como Choi Heejin, Garota Mágica do Espaço, que é
arrogante e a presidente do Sindicato de Garotas Mágicas, Yeon Riji, a primeira
Garota Mágica da Coréia do Sul, que já é uma senhorinha. Ambas tiverem sua
relevância apesar de aparecerem pouco. Não vou comentar sobre a antagonista
pois seria um grande spoiler. Só direi que seu passado não justifica suas
ações.
Apesar da proposta interessante, acho que o livro deveria
ter sido maior. Focado mais na protagonista fazendo amizade com Ah Roa e possivelmente,
com outras garotas mágicas. O mundo das Garotas Mágicas em geral podia ser mais
explorado, dando a perspectiva de outras personagens e não apenas da
protagonista. A resolução do problema foi criativa e até cômica, fazendo
parecer uma paródia por um momento.
O livro me entreteve o suficiente. Daria três de cinco
estrelas. Se você gosta do gênero e é a favor do meio ambiente, pode dar uma
olhada e lembre-se: quando sentir que tudo está para ruir, não desista. Deixe
que sua chama de poder surja e siga em frente. Você não está sozinho.
E para comemorar o Dia do
Folclore, estamos aqui com o livro de um ser brasileiro muito popular, escrito
por um renomado autor. O Saci foi escrito por Monteiro Lobato e faz
parte da coleção do Sítio do Picapau Amarelo. Lobato foi quem
popularizou a criaturinha travessa de uma perna só desde antes deste livro. Em
1917, através do “Estadinho”, edição vespertina do jornal O Estado de
S. Paulo, ele lançou uma pesquisa pedindo aos leitores que enviassem
histórias do endiabrado. Em 1918, ele selecionou setenta e quatro desses
depoimentos e transformou no livro O Sacy-Pererê: Resultado de um Inquérito.
Depois disso, ele introduziu o saci para o sítio em 1921, no livro que tenho em
mãos. Vamos dar uma olhadinha...
Pedrinho foi passar as férias no sítio da avó, o Sítio do
Picapau Amarelo. Num dia, ele estava querendo ir para o Capoeirão dos Tucanos
para caçar. Dona Benta, sua avó, foi falando dos bichos perigosos que tinham lá
e o menino foi negando ter medo deles até ela mencionar o saci. Do saci,
Pedrinho tinha medo. Quando foi consultar Tia Nastácia, a empregada da avó,
para falar dessa criatura, a mulher mencionou que ela existe sim e que Tio
Barnabé já tinha visto. Então, Pedrinho foi atrás de Tio Barnabé para saber
mais sobre o saci...
O livro faz um bom trabalho dando foco ao Saci, que foi
praticamente o herói da história, apesar de Pedrinho ser o protagonista da
história. O Saci é aliado e mentor do menino quando se trata dos seres da noite
e da floresta, trazendo discussões interessantes entre ele e o menino como o do
homem ser mais burro que os outros animais, pois não nasce sabendo o que fazer
para sobreviver, ou seja, não tem instinto, e que mata sem necessidade. Apesar dessa
discussão do homem caçar por prazer ser errado já ter sido feita em várias
histórias infantis, aqui é feita de uma forma criativa e só aparece num
capítulo, fazendo com que não desperdicemos nosso tempo. Outra discussão que a
narrativa traz é sobre o medo, que vem da incerteza e do escuro, que os
monstros só existem nos olhos de quem acredita. Algo bem interessante para se
ensinar a uma criança.
Os sacis são descritos neste livro como negros pequeninos,
de uma perna só, com o gorro vermelho e mãos furadas, que me faz lembrar da
lenda do fradinho da mão furada*, vinda do folclore português. Eles nascem dos
gomos de taquaruçus (bambus grandes) e se desenvolvem dentro dessa planta por
sete anos. Depois de saírem, vivem até setenta e sete anos, virando depois
cogumelos venenosos ou orelhas-de-pau (tipo de fungo). Se escondem do sol, pois
gostam das trevas, sendo chamados de “filhos da Lua”. Além de fazer travessuras, também chupam o sangue
dos cavalos como morcegos.
Outros seres do folclore brasileiro também apareceram
ou foram mencionados no livro como o Jurupari, ser do folclore indígena que
causa pesadelos, insônia e agarra o pescoço das pessoas para não gritarem
enquanto tem sonhos ruins; o Curupira; o Boitatá, que é uma cobra flamejante
com olhos gigantes e fica próximo de carniça; a Iara, que aqui é uma espécie e
não um indivíduo, possui cabelos verdes e na ilustração, é desenhada com pernas
ao invés de cauda de peixe; Negrinho do pastoreio; Cuca, que dorme a cada sete
anos; o Lobisomem, que aqui é o sétimo filho de sete irmãos, se transforma nas
sextas-feiras e é curado ao cortar uma das patas. Ele tem a pele virada. Por
dentro é pelo e por fora é carne; a Mula sem cabeça que aqui era uma rainha que
ia para o cemitério comer cadáveres e quando o rei a viu fazer isso, ela se
transformou na mula sem cabeça e galopou pelo mundo; a Porca dos Sete Leitões
que era uma baronesa muito má com seus escravos até que um feiticeiro negro
transformou ela e seus sete filhos em porcos. Só um anel pode transformá-los de
volta; o Caipora, um duende peludo, meio homem meio macaco, que cavalga em
porcos-do-mato para exigir fumo dos viajantes. Não pude deixar de notar que
alguns destes seres tem relação com o número sete, que aparece muito nos contos
de fadas junto com o três e o treze. Me pergunto se o autor descreveu estes
seres exatamente como ele ouviu nas histórias ou se ele inventou alguma coisa.
Se é para dizer algo negativo, diria que teve algumas
palavras que tive que parar para pesquisar o significado, como modorra,
jacarandá e barba-de-pau. Isso pode ser um pouco incomodo para quem gosta manter
o ritmo da leitura.
Gostei do livro e recomendo sua leitura tanto para
adultos quanto para crianças. Só tomem cuidado ao andarem pela mata à noite. Uma
onça pode te encontrar. Ou a Mula sem cabeça.
*Resenha do livro Obras
do fradinho da mão furada: Ponte
para o Imaginário: Obras do Fradinho da Mão Furada
Vocês conhecem a história
de Cupido e Psiquê? História essa que inspirou o conto da Bela e a
Fera e muitos outros que envolvem um noivo animalesco que na verdade é um príncipe
amaldiçoado? Sabiam que Cupido e Psiquê é apenas um texto dentro de um
romance maior? O Asno de Ouro ou Metamorfoses foi escrito por
Lucio Apuleio. Não se sabe quando exatamente foi a sua data de publicação, mas
é estimado que tenha sido no final do século II, sendo o único romance a ter
sobrevivido completo desde o Império Romano. Vamos para o resumo:
Lucio Apuleio estava indo em direção a Tessália em busca
de conhecimento mágico. Quando chegou na cidade de Hipata, Lucio foi se
instalar na casa de Milón, um homem avarento, por recomendação de seu amigo
Demeas. Ele encontra uma prima de sua mãe, que avisa para tomar cuidado com a
mulher de Milón, Panfilia, que era uma feiticeira poderosa. Depois de saber
mais detalhes por sua amante e empregada do casal, Fotis, isso o deixou mais
curioso, querendo ver as artimanhas de Panfilia. Ao ver que esta era capaz de
se tornar uma ave após passar um unguento, Lucio pediu para que Fotis também
passasse nele para ter essa experiência antes de se tornar humano novamente. Porém,
a moça passou o unguento errado e ele virou um asno, começando assim suas
desventuras.
O texto é dividido em onze livros, tendo cada um deles de
três a seis capítulos. Em cada capítulo, tem um resumo do que ocorrerá, o que é
algo ruim para quem deseja ser surpreendido conforme lê a narrativa. Enquanto
estes resumos o narrador é onisciente, o resto é narrado pelo próprio
protagonista. Por ser um texto antigo, houve momentos em que não entendia
certas palavras. Outra coisa que vale mencionar é que o nome do protagonista é
o mesmo do autor. Talvez, assim como a maioria de nós, ele desejasse viver uma
aventura mágica.
O Asno de Ouro é, como dito no resumo, uma
narrativa que foca nos perrengues que Lucio passa na forma de asno, sendo
roubado, vendido e trabalhando feito um condenado. E depois de tanto
sofrimento, ele consegue por fim voltar ao normal, graças a deusa Isis, que
aqui incorpora todas as deusas romanas. Assim, ele se torna um fiel seguidor
dela, tentando ao máximo seguir seus mandamentos e se afastar dos pecados. Acabei
dando um grande spoiler, mas era previsível que ele fosse voltar ao normal. Isso
do protagonista que vai para uma religião após esta resolver o seu problema me
lembrou do conto da Dama Bai, a serpente branca*. É comum nas
histórias que quando a gente faz um trato com um deus benéfico, ele cumpra e te
beneficia, ao contrário dos tratos do diabo. Porém, para deixar a história mais
interessante, o autor acaba fazendo com que o humano descumpra o trato com seu
beneficiador. Isso não acontece aqui. O escritor quis que o protagonista
tivesse sua redenção e cumprisse com sua palavra, o que também acontece com
várias pessoas religiosas que dizem que seu Deus as ajudou. Não teria me desgostado
do final se as aventuras de Lucio transformado em asno fossem interessantes, o
que infelizmente não foram.
Assim como em Mil e uma Noites, o livro contém
várias histórias que Lucio vai ouvindo no decorrer do livro, sendo Cupido e
Psiquê uma delas e a que mais durou, tendo começado no final do quarto
livro e terminado no penúltimo capítulo do sexto livro. A história foi contada
por uma velha comungada com ladrões, tentando acalmar uma noiva sequestrada.
Apesar de ter minhas críticas com Cupido e Psiquê, entendo o porquê dentre
todos os contos contidos deste livro, esta é a que chama mais atenção. Além da
presença dos deuses greco-romanos, esta é uma das poucas com um final feliz enquanto
a maioria é trágica.
A única outra história que achei interessante foi esta,
contada por um convidado da prima da mãe do protagonista: este homem, que cobre
a face conta que topou o trabalho de vigiar um defunto por causa das bruxas que
gostam de roubar membros dos mortos. Ele cai no sono e ainda assim ganha o
dinheiro por seus contratantes não saberem disso. O morto retorna a vida por um
tempo, brigando com a viúva e contando que as bruxas passaram sim por ali, mas
confundiram ele com o vigia dorminhoco, e acabaram cortando as orelhas e o
nariz dele, que caíram depois. Esta foi a única história que chamou me atenção
por seu final tragicômico.
Quanto a história de Cupido e Psiquê, o conto se
trata da mais nova de três filhas, que era tão bela que as pessoas ofereciam
oferendas como se fosse a própria deusa da beleza, Vênus. Mas Vênus não gostou
nem um pouco disso e mandou que seu filho, Cupido, se livrasse dela. Apesar de
suas irmãs terem conseguido se casar, Psiquê não estava tendo a mesma sorte
apesar do quão venerada ela era. Seus pais foram para o oráculo, que disse que
deveriam vesti-la com roupas de luto e deixá-la na montanha, pois o genro deles
não seria um mortal. Seria um ser venenoso como uma serpente... Aqui temos o
clichê das irmãs mais velhas invejosas que se dão mal, e a realidade da sogra
malvada (brincadeira...). Também temos o noivo fugitivo e a noiva que vai atrás
dele e recebe ajuda de aliados. O meu problema está nessa ajuda. Ao invés de
Psiquê oferecer algo em troca para eles, ela tenta cometer suicídio e, com pena
dela, os aliados a ajudam. Os contos que vieram dessa base foram melhores. Outra
coisa que me faz questionar se Cupido e Psiquê com o cânone da mitologia
greco-romana é a relação de Vênus (Afrodite) e Juno (Hera). Juno é esposa de
Júpiter (Zeus) e deusa do casamento enquanto Vênus é a deusa da luxúria. Ela
competiu com Vênus pelo pomo de ouro, que foi dado a Vênus por ser considerada
a deusa mais bela. Como ela pode ser considerada amiga de Vênus aqui no conto? Se
a história condissesse com a personalidade de Juno, que é ciumenta e invejosa e
se opõe a Vênus em suas crenças, teria feito dela uma das aliadas de Psiquê,
por ser a favor do casamento e contra sua rival do Olimpo. Outra coisa que me
confunde é parentesco entre Marte (Ares) e Cupido. Aqui é dito como ele se
fosse o padrasto enquanto na mitologia grega, Cupido é o filho que ele teve
Afrodite enquanto esta estava casada com Hefesto.
Não gostei muito do livro. O que Lucio passou enquanto
estava transformado em asno foi repetitivo e foram poucas as histórias que me
interessaram. Entendo agora o porquê do conto de Cupido e Psiquê ser
mais lembrado. Este pelo menos inspirou A Bela e a Fera e vários outros
contos de fada. E existem vários livros só dele para que ninguém tenha que ler O
Asno de Ouro. Mas se ainda assim, desejam ler este romance, fiquem avisados: ele contém várias cenas de sexo e escatologia.
Desde homens travestidos que enganavam os outros com sua religião, mulheres que
mijam em corpos, uma madrasta que se apaixona pelo seu enteado e zoofilia. E
nunca passem unguento de bruxa.
*Resenha de Dama Bai,
a serpente branca: Ponte
para o Imaginário: Contos de Fadas do Leste Asiático
Já ouviram falar do filme
As Aventuras de Pi, lançado em 2012? Sabia que ele foi adaptado de um romance
que entrou em polêmica por ter supostamente plagiado a história de um livro
brasileiro? É sobre este livro que irei analisar agora. Max e os Felinos
foi escrito por Moacyr Scliar, filho de imigrantes judeus da Bessarábia, em
1981 enquanto A Vida de Pi foi lançado em 2001. Será que houve mesmo
plágio ou foi apenas uma coincidência? Vamos descobrir:
Max se relacionou com Frida, que era casada com um
nazista. Ao descobrir o relacionamento da esposa com Max e Harald, amigo
socialista de Max, o marido de Frida os denunciou e o jovem é obrigado a fugir
de Berlim. Ao perder o navio que o levaria para o Brasil, Max dá um jeito de ir
em um cargueiro com o mesmo destino. Mas um dia, o navio começou a afundar e
Max não encontrou ninguém da tripulação para ajudá-lo. Por sorte, encontrou um
escaler e fugiu. Numa das caixas do naufrágio, algo saltou para seu escaler. Este
algo era um jaguar...
O navio em que o protagonista está afunda e ele fica
preso num barco com um felino de grande porte em alto mar. A semelhança entre
as duas histórias termina aí. É dito que o autor de A Vida de Pi, Yann
Martel, baseou o seu livro numa suposta resenha negativa do livro de Scliar. Quanto
ao escritor de Max e os Felinos, este não considerou a obra de Martel
como plágio, já que apesar dessa pequena semelhança, o desenvolvimento de ambos
os livros é completamente diferente. Mas gostaria que Martel tivesse mencionado
sua inspiração em sua publicação.
Indo para os felinos do título, enquanto no filme As
Aventuras de Pi, o tigre no barco de Pi representava o seu lado selvagem
tentando sobreviver ao naufrágio, os felinos de Max são representados como
medos e desafios que ele deve enfrentar. Como o tigre empalhado da loja de seu
pai, cujo Max tinha pavor quando era criança e o jaguar no barco, que não se
sabe se era ou não real, pois ele estava tendo alucinações enquanto estava
perdido no mar. Sendo reais ou não, Max teve que conviver e enfrentá-los até os
domesticar no final.
O protagonista passa por muita coisa no decorrer da
história que o faz mudar. Ele passa de um rapaz assustado para um homem
corajoso, enfrentando com ousadia e fúria algo que ele teme. Porém, não confio
muito no narrador deste livro. O final passa como se ele saísse como um herói
vitorioso fazendo algo criminoso, mesmo tendo que arcar com as consequências
depois. Max já tinha dúvidas se o jaguar no escaler era ou não real, o que pode indicar que esse grande problema não tenha sido criado de sua mente
traumatizada? A narrativa está mais ao lado dele, mas eu tenho um pé atrás nisso.
O livro é
interessante e de leitura rápida, contendo apenas três capítulos. Se deseja conhecê-lo,
arrume um navio de confiança para se caso afundar, você não acabe dividindo o
seu barco com um jaguar.
Agora,
vou analisar o livro de um autor clássico da literatura brasileira: Graciliano
Ramos. Mas, não será por sua obra mais conhecida. O escritor de Vidas Secas
também escreveu outras duas histórias chamadas Histórias de Alexandre
(1944) e A Terra dos Meninos Pelados (1939), que foram publicadas
postumamente no livro Alexandre e Outros Heróis (1962) junto com o texto
Pequena História da República (1940).
Em Histórias de Alexandre, Alexandre
é um sertanejo velho de olho torto. Mas ele teve muitas aventuras e várias
pessoas vão até sua casa para ouví-las. Então, ele e sua esposa Cesária os
entretém com suas histórias...
Histórias de Alexandre me
lembrou bastante o livro Aventuras do Barão de
Munchhausen*, em que o protagonista conta
suas aventuras de cunho cartunesco, bastante improváveis de acontecer na
realidade, como por exemplo montar num bode do tamanho de um cavalo, colocar um
olho do lado contrário, podendo visualizar o interior da sua cabeça e seus
pensamentos, uma cascavel de dois metros morder um estribo e um mês
depois ele inchar com o veneno etc. Acho que o diferencial dessas histórias são
que além de terem ocorrido em lugares e épocas diferentes, Alexandre possui
ouvintes mais memoráveis, sendo eles: Cesária, a esposa que ajuda a contar as
histórias, Das Dores, benzedeira de quebranto e afilhada do casal; seu Libório,
cantador de emboladas; mestre Gaudêncio, curandeiro; e o cego preto Firmino,
que é o que mais pede detalhe e critica quando algo falta na narrativa,
deixando Alexandre irritado.
Tive um pouco de dificuldade com
algumas palavras nordestinas sobre a fauna e flora local como por exemplo
guariba, que descobri ser depois uma espécie de macaco. Isso é recorrente em
toda leitura que faço de um livro tanto regionalista quanto antigo.
Em A Terra dos Meninos Pelados,
Raimundo tinha a cabeça calva, um olho preto e outro azul. Por causa de sua
aparência incomum, era caçoado pelos outros meninos. Mas ao fechar os olhos, ia
para a terra de Tatipirun, onde todos tinha a mesma aparência que ele...
Este conto é para o público
infanto-juvenil e mostra uma criança usando a imaginação para escapar da
solidão. Também mostra o desejo de Raimundo de se encaixar, desejando que
sua aparência fosse comum. Por esse motivo as crianças de Tatipirun são carecas
e tem um olho preto e outro azul.
O último texto do livro é Pequena
História da República, onde o autor descreve como surgiu a república no
Brasil até 1930, dando um pouco de sua opinião sobre estes eventos. Tenho que
confessar que não consegui ler até o final pois achei o assunto muito chato.
As duas primeiras narrativas valem
a pena ler. Quanto a última, apenas se você gostar da história do Brasil. Todas
elas são encontradas em livros separados, mas se deseja encontrá-las num só
lugar, recomendo esta edição. Só cuidado para não a confundir com outra como
Alexandre confundiu uma onça com uma égua.
*Resenha
do livro: Ponte
para o Imaginário: Looney Tunes da Literatura
Já conhecemos um pouco dos contos de fadas portugueses.
Por que não conhecer suas lendas locais? Lendas Tradicionais Portuguesas
traz várias delas. E, como sempre faço quando o livro é de contos, comentarei
cada um individualmente antes de dar meu veredito. Comecemos:
A Cabeça da Velha
(Arcos de Valdez, Viana do Castelo) – Leonor era uma
jovem que vivia com D. Bernardo, seu cruel tio. Ela se apaixonou por D. Afonso,
um jovem fidalgo arruinado cujo relacionamento seria visto com maus olhos pelo
tio. Marta, a aia, ajudava o casal a se encontrar escondido. Mas D. Afonso veio
em um dia não planejado, deu uma carta para Marta entregar a Leonor e a fez
jurar não contar para o tio da moça. Ela jurou e caso descumprisse sua
palavra, se transformaria em pedra. Tive pena da aia.
O Túmulo dos
Quatro Irmãos (Guimarães, Braga) – Quatro irmãos se apaixonaram
pela sobrinha do padre. Como ela não decidiu com qual deles queria ficar, os
quatro concordaram em disputar sua mão, através de paulada. Pelo título, já
se sabe o desfecho da história.
O Conde e a
Cabreira (Vila do Conde, Porto e Serra da Cabreira) – Antes
da fundação do território português, havia um conde que saiu para caçar. Andou
vários quilômetros até chegar numa serra de paisagem magnífica. Lá, encontrou
uma bela pastora de cabras por quem se apaixonou. Ambos passaram vários dias
juntos até que o conde teve que partir, prometendo voltar para buscá-la. História
triste.
Duas Chaves para
Lúcia (Chaves, Vila Real) – Quando o imperador
romano Tito Flávio Vespasiano chegou à Península Ibérica, encontraram água
quente brotando no solo. Eles a chamaram primeiramente de Aquae Flaviae. O
primo e procurador do imperador, Décio Flávio, escreveu para cônsul Cornélio
Máximo e sua filha Lúcia sobre o local, além de mandar duas chaves para a moça,
uma que significa saúde e a outra amor. Apesar de também amar Décio, Lúcia
estava aflita devido a uma doença que enfeiara o seu rosto, não sabendo o que
fazer com esta declaração. História fofa, mas previsível.
O Milagre da Torre
da Princesa (Bragança) – Quando Bragança ainda era
uma aldeia, havia uma princesa órfã que morava com o tio. Ela era apaixonada
por um jovem de bom coração, que infelizmente era pobre. Num de seus encontros secretos,
o rapaz disse que ia sair em busca de fortuna para que o tio da nobre aceitasse
o casamento e pediu para a dama esperá-lo. Ela prometeu que iria e ele se foi.
Anos se passaram e a princesa recusou todas as propostas de casamento. Cansado
de esperar, o tio decidiu casá-la com um amigo a força. Não imaginava que esta
lenda teria um lado cômico.
Ramiro e os
Encantos da Ria de Aveiro (Aveiro) – Ramiro estava
pescando na Ria de Aveiro quando ouviu uma bela voz cantando. Ao andar com seu
barco, viu que essa voz vinha de uma linda moça, de cabelos de alga e pele cor
de areia, que estava nua da cintura para cima. Ao conversarem, Ramiro declarou
o seu amor, mas ela disse que era uma sereia e, infelizmente, era
noiva de Tritão. O único jeito deles ficarem juntos seria que ela se
transformasse em humana. Amor trágico.
Ardínia, a
Princesa Moura (Lamego e Tabuaço, Viseu) – No
século X, quando a Península Ibérica ainda era dominada pelos mouros, havia uma
bela princesa moura chamada Ardínia. Seu pai sempre a vigiava para que esta não
se apaixonasse por nenhum jovem, ainda mais se fosse cristão, pois já prometera
sua mão a um príncipe mouro. Mas com os cristãos tentando retomar sua terra, o
nome de D. Tedon foi ouvido por Ardínia, que sentiu o desejo de conhecê-lo. História
de amor trágica.
As Lágrimas da
Princesa da Serra da Estrela (Guarda) – Há muito tempo,
nasceu uma linda princesa na serra da Estrela chamada Esmeralda. Quando chegou
a mocidade, se apaixonou por D. Diego. Mas depois de um tempo, D. Diego foi
obrigado a partir por ordem do rei para enfrentar os mouros. Ela então prometeu
esperar. Final bem parecido com a lenda do Conde e a Cabreira. Lição
aprendida: nunca prometa a um homem que vai esperá-lo. Estabeleça uma data
limite e se ele não voltar até lá, siga com sua vida.
Os Amores de Pedro
e Inês (Coimbra) – Em 1340, D. Pedro de Portugal se
casou com D. Constança, mas era apaixonado por uma de suas aias, D. Inês de
Castro, tendo encontros escondidos com ela. Quando sua esposa morreu, ele
passou a viver com Inês. Porém, seu pai, o rei D. Afonso IV, não gostava desse
relacionamento por temer a influência castelhana da mulher. Então, mandou
executá-la. História bastante conhecida em Portugal. Foi bom saber de mais
detalhes apesar de ser um texto curto.
Os Passos de D.
Leonor (Peniche, Leiria) – Em Peniche, viveram duas
famílias rivais: os Praça e os Outeiro. Um dia, no meio de uma briga com os
Outeiro, D. Rodrigo Praça acabou fixando seus olhos em D. Leonor Outeiro de tão
bela que ela era. Romeu e Julieta português.
A Gruta de Camões
– O poeta Luís Vaz de Camões foi obrigado a viver em
Macau, e gostava particularmente de uma gruta, onde é dito que escreveu boa
parte de Os Lusíadas. Depois de um tempo, foi obrigado a partir num navio,
junto com seus escritos. No navio, ele encontrou uma nativa chamada Tin-Nam-Men.
Assim, ambos se apaixonaram, mas algo trágico estava para acontecer. Uma lenda
que explica a origem de uma poesia escrita por Camões.
A Torre dos
Namorados (Fundão, Castelo Branco) – Num lugar chamado Torre
dos Namorados, é dito que havia uma cidade governada por um rei justo, mas tão
rígido que os pretendentes de sua bela filha tinham medo de pedir a mão dela. Até
que dois jovens valentes decidiram fazê-lo. Para decidir qual deles seria o
noivo, o pai propôs que cada um fizesse uma obra que ajudasse o povo e quem
terminasse primeiro, se casaria com a princesa. Um final inesperado e cruel.
As Obras de Santa
Engrácia (Lisboa) – No século XVII, um homem chamado
Simão Pires e uma mulher chamada Violante estavam apaixonados. Mas a família
dela não aprovava a relação e a mandou para um convento. Simão deu um jeito
de se encontrar com a amada às escondidas, próxima a Igreja de Santa Engrácia. Ele marcou um dia para fugir com Violante,
porém, foi pego pelos guardas do rei, dizendo que este era responsável pelo
furto de relíquias da igreja. Uma lenda que conta por que a Igreja de Santa Engrácia
demorou trezentos anos para ser reformada, surgindo a expressão “obras de Santa
Engrácia” em Portugal, que se refere a algo que nunca fica pronto. Gostei da
história, apesar de simples.
De Fátima a
Oureana (Ourém, Santarém) – Fátima era uma princesa
moura cujo pai construíra uma torre para protegê-la. Apesar de estar noiva de
seu primo Abu, se apaixonou à primeira vista por D. Gonçalo Hermingues, cristão
que combatia os mouros. Este também se apaixonara por ela e ao saber que esta
iria para a Festa das Luzes, arquitetou um plano... Acho estranho uma princesa
moura se chamar Fátima. Também acho uma falta de consideração da princesa não
sentir nada ao ver seu povo sendo sequestrado pelo seu amado.
A Paixão de D.
Lopo de Mendonça (Elvas, Portalegre) – No século XVII, em
Elvas, viveu um fidalgo muito festeiro chamado D. Lopo de Mendonça. Quando foi para
a Espanha, conheceu D. Mência, por quem se apaixonou. Mas ela já era noiva e
seu pai a colocou num convento para impedir D. Lopo que fosse encontrá-la.
Mesmo assim, o homem apaixonado planejou fugir com a moça. Outra história
trágica. Só que desta vez, o protagonista se sente mal por matar alguém específico.
Almira, a Moura
que ficou para trás (Alcácer do Sal, Setúbal) – Quando
as tropas de D. Afonso II invadiram uma cidade conquistada pelos mouros, estes
fugiram, mas uma menina foi deixada para trás. Os soldados portugueses acolheram
a criança e a chamaram de Almira. A garota foi criada como cristã e tinha uma
grande habilidade para poesia e música. Ao chegar na idade de casar, não se
interessou por ninguém, até conhecer D. Gonçalo. Uma história sem final.
O Solar da Sempre
Noiva (Arraiolos e Évora) – Um noivo teve que partir
para a guerra contra os mouros, deixando sua noiva esperando. Anos se passaram
e ele voltou para consumar seu matrimônio, mas a mulher disse que estava velha
demais para casar e não queria que vissem o seu rosto com rugas. Porém, o homem
tinha uma solução... História bonitinha. O livro também possuí outras duas
versões diferentes da origem do Solar da Sempre Noiva.
A União de Vila
Nova de S. Bento (Serpa, Beja) – Quando Portugal estava
sob o domínio espanhol, havia uma jovem nascida em Fonte do Canto que era
apaixonada por um rapaz da aldeia vizinha chamada Cabaço de Vaqueiros. Por
achar que seu amor não era correspondido, a moça aceitou se casar com um soldado
espanhol. Uma lenda ok, com um final feliz, pelo menos para os portugueses.
D. Rodrigo, o
Protector dos Enamorados (Loulé) – Na época em que os
portugueses enfrentavam os mouros, D. Rodrigo de Mascarenhas estava entre os
soldados cristãos e conseguiram acabar com o domínio mouro de Loulé, capturando
alguns como prisioneiros. Dentre eles estava o jovem Abindarráez, que estava
muito abalado. D. Rodrigo perguntou o motivo e este lhe contou que vivia um
amor impossível com uma moura chamada Jarifa e que planejavam se encontrar com
ela para fugirem juntos. Mas Abindarráez foi capturado e nada podia fazer. Sentido
compaixão pelo rapaz, D. Rodrigo permitiu que ele fosse encontrar sua noiva,
com a condição de ambos voltarem como cativos. Às vezes, é bom cumprir
promessas. Uma lenda bonita e a única que vi até agora que mostra um português
tendo simpatia por um mouro.
O Amor Imortal de
Machim (Machico, Madeira) – Antes dos portugueses
descobrirem a Ilha da Madeira, o inglês Roberto Manchim, cavaleiro do rei
Eduardo III, e Ana de Arfert, dama da nobreza, estavam apaixonados. Mas seu
amor era proibido devido às diferentes classes. Então, os dois fugiram num
navio com destino a França. Porém, as tempestades e o mar revolto não lhe deram
paz e tiveram que parar numa ilha próxima. História trágica.
A Lagoa das Sete
Cidades (Ponta Delgada, São Miguel, Açores) – Antes
de surgir a freguesia de Sete Cidades, o local era governado por um rei que
tinha uma bela filha de olhos azuis. Num passeio que a jovem teve pelos campos,
encontrou um pastor de olhos verdes e se pôs a conversar. Se encontraram várias
vezes até que o rei descobriu e proibiu a princesa de vê-lo. Mas este lhe deu a
oportunidade para uma última visita... Lenda triste que pelo exagero, lembra o
final de O Conde e a Cabreira.
O que há de comum entre essas lendas é o romance entre um
casal, muitos deles sendo proibidos e variando entre tragédia e final feliz. E,
é claro, todas elas dão origem a algo. Os dois primeiros contos por exemplo, envolvem
o surgimento de penedos específicos. O terceiro é um nome de uma serra. O
quarto o nome de uma cidade e assim por diante. É isso que a humanidade faz
quando não entende um fenômeno ou não sabe explicar algo: ela inventa uma
história.
Outra coisa que notei é um número considerável de lendas
envolvendo um romance proibido entre um português e uma princesa moura. Como
aqui no Brasil só estudamos a história de Portugal quando este tinha relação
com o nosso país, creio que poucos brasileiros sabem que a Península Ibérica
foi invadida pelos mulçumanos, que eram conhecidos como mouros, e passou a ser território
deles por muitos anos até os portugueses retomarem. Quanto as lendas envolvendo
esses casais, muitas delas envolvem a moura abandonar sua fé e seu povo para
ficar com seu amado. Nas histórias que li, nenhuma das princesas teve receio de
fazer isso para ficar com o seu amor, que era inimigo e lutava contra o seu
povo, o que deixou as histórias um pouco rasas. Mas não podia esperar muito já
que a maioria das lendas deste livro são ultra românticas.
Recomendaria este livro para quem deseja conhecer um
pouco das lendas das várias regiões de Portugal. As histórias variam de três a
seis páginas, bem fáceis de ler. O único problema é onde encontrá-lo. Dá para comprá-lo
na Amazon por um preço bem alto. Tive que pedir para meus pais comprarem-no
durante uma viagem a Portugal. Uma pena que quase não tem livro de lendas e
folclore português aqui no Brasil, afinal, muito de nossa cultura veio de
Portugal. Mas se por acaso conseguir encontrá-lo, cuidado ao se apaixonar. Seu
amor pode virar uma lenda.
Acredito que muitos leitores tenham lido ou ao menos
ouvido falar de Monteiro Lobato. Ele foi o precursor da literatura infantil
brasileira, adaptando as obras dos Grimm, Andersen e Lewis Carroll e escrevendo
o clássico Sítio do Picapau Amarelo, que possui várias referências a
nossa cultura. Vocês sabiam que existe uma pessoa equivalente a Lobato em Portugal?
Ana de Castro Osório, nascida em 1872, foi responsável por criar histórias e
coletar vários contos orais portugueses, como o livro Contos Tradicionais
Portugueses, publicado pela primeira vez em 1908. Como faço na maioria dos
livros de contos, analisarei uma história de cada vez e no final darei meu
veredito. Comecemos:
História do rei turco – Um
pobre pai morreu, deixando como herança para seus três filhos uma velha manta
para se cobrirem. Os dois mais velhos decidiram comprar a parte do mais novo.
Como este era esperto, aceitou, na condição que ele ficasse no meio. Vendo o
quão foram enganados, os mais velhos decidiram sair pelo mundo em busca de
riqueza. O caçula pediu para ir junto e que este seria servo dos dois. Eles
aceitaram e foram os três viajar até pararem numa laje para descansar. Mas
aparece o gigante Rei-Turco, dizendo esta ser a porta do seu palácio. Com medo,
os rapazes se desculparam e o rei pediu para virem com ele, pois este lhes
daria emprego. Deu lhes comida e os deixou dormir, sem saber que o mais novo
estava acordado... O típico conto em que o mais novo se dá bem e os mais velhos
invejosos se dão mal. Teve uma parte em específico que me lembrou do conto do Pequeno
Polegar. Tem um ponto do conto que pessoas do politicamente correto não
irão gostar, que é quando o protagonista se pinta de preto para parecer de
outra etnia.
O conto da
cabacinha – Uma velhinha foi convidada para ir ao
batizado do netinho. Mas tinha medo de ir e ser comida por um lobo. A filha
disse para deixar de besteira e ir. A senhora foi e encontrou o lobo, porém
disse ao lobo que lhe traria um bolo do batizado e foi se embora. Então,
encontrou uma raposa... Um conto meio bobo. O final me lembrou Chapeuzinho
Vermelho.
História da menina
que deita pedras preciosas dos cabelos – Após a morte de
sua mãe, um irmão e uma irmã decidiram percorrer mundo afora. Quando ambos
adormeceram debaixo de uma árvore, três damas passaram por eles. Elas se
encantaram tanto com a menina que cada uma deu a ela uma benção: a de ter o rosto mais lindo; a de cair pedras
preciosas em seus cabelos e debaixo de suas mãos nasçam flores; e a de onde
suas mãos tocassem, surgiria água e peixinhos. A história me lembrou o conto Noiva
Galhuda* .
O príncipe das
maçãs de oiro – Um rei tinha três filhos e uma árvore que
dava maçãs de ouro. Mas quando dava, acontecia um temporal que ninguém tinha a
coragem de enfrentar e no dia seguinte, não havia mais maçãs. Até que um dia, o
príncipe mais velho se ofereceu para descobrir quem era o ladrão... Vocês
realmente acham que o príncipe mais velho tem a chance de ser o protagonista numa
história com três irmãos? Claro que não. O mais novo obviamente foi o herói e
os dois mais velhos invejosos se deram mal no final. Além desse clichê, tem também
o de fazer favores aos outros e do protagonista que desobedece o conselho de um
aliado. Pelo menos, na terceira vez, ele aprende e segue o conselho que lhe foi
dado e numa das vezes, o herói tinha um bom motivo para não segui-lo.
A fé é que nos
salva – Um homem do campo ficou doente e um médico
foi atendê-lo. O doutor escreveu a receita e a deitou na areia para secar a
tinta. Por fim, mandou o paciente seguir o que estava ali. Um conto cômico.
O criado Pedro – Um
padre teve vários criados chamados Pedro e com todos eles deu confusão.
Pediu então a uma pessoa encarregada que encontrasse um servo que não tivesse
esse nome. Acabou encontrando um rapaz chamado Pedro e pediu para este mudar
seu nome para José e servir ao abade. Mas este moço era por má sorte um Pedro
das malas artes. Outro personagem que faz literalmente o que pedem e se faz
de esperto. É impressão minha ou esse Pedro das malas artes foi
referência a Pedro Malazarte?
O príncipe do Lodo
– Um rei e uma rainha eram tão teimosos que viviam
brigando, até que o rei se cansou e mandou sua esposa para outra terra. No meio
da viagem de barco, nasceu o príncipe cuja mãe o chamou de Lodo. Após dezenove
anos, eles conseguiram sair da ilha pelo mesmo navio e, por algum motivo,
pararam no meio do caminho novamente. O príncipe pediu para ser amarrado e
jogado no mar. Lá embaixo, ele encontrou duas belas damas no castelo de conchas
com uma delas oferecendo uma tábua de jogo. Não tenho muito o que falar. Um
conto de fada típico.
História do senhor
Manuel Valente – Manuel Valente era um galego que depois
de tanto trabalhar, combinou com seus colegas de voltarem juntos para casa. Até
que no caminho, quando estavam passando por uma ponte, um deles olhou para a
água e viu a lua refletida. Ele achou que fosse queijo e chamou os outros
companheiros para olhar, até Manuel Valente ter uma ideia de como pegá-lo.
Conto decepcionante.
Os três galegos – Três
galegos foram para Lisboa aprender a falar lisboeta. Cada um ouviu uma frase e
ficou repetindo para aprendê-la, até que viram um corpo morto e foram para a
justiça. O próprio conto fala qual é a moral: “quem fala sem pensar, nem sabe o
valor das palavras.” Uma boa lição, mas senti pena dos personagens.
A raposa e o sapo
– A Raposa combinou com o Sapo de semearem trigo
juntos. Mas na hora de ceifar, a Raposa disse que não era boa e pediu ao Sapo
que arranjasse outro companheiro e para compensar, ela traria uma panela de
manteiga para o almoço. O Sapo aceitou e chamou o Texugo para ajudar. Na hora
de comer, a Raposa os convenceu comer no dia seguinte e que se acordasse suados,
teriam comido a manteiga antes da hora. Os dois foram dormir enquanto a Raposa
botava o seu plano em prática. É típico a raposa ser considerada um animal
esperto nas histórias, mas aqui, o enganado supera as dificuldades.
A princesa e o
pobre aldeão – Um rei e uma rainha tiveram uma filha com
dois sinais peculiares: dois cabelos em formato de um colchete e uma colcheta
que apertavam seu coração. Decidiram casá-la com quem adivinhasse seus sinais.
Vieram vários príncipes, mas nenhum acertou. Até que um pobre aldeão, vendo que a
família não tinha mais nenhum tostão, decidiu tentar. Ele embarcou numa jornada
até o palácio e no meio do caminho, encontrou um homem com o ouvido encostado
na terra. Ao perguntar o que ele estava fazendo, este respondeu que estava
ouvindo dois alfaiates a muitas léguas de distância... Um conto em que o
protagonista ganha vários aliados pelo caminho que o ajudam a conseguir seu
objetivo. Esse em específico, me lembrou o conto O Ignorante do livro O
Conto dos Contos - Pentameron**.
O doutor Grilo – Um
homem pobre chamado Grilo decidiu esconder a vaca do vizinho e se passar por
adivinho. O plano deu certo e o vizinho o recompensou. Só que sua fama chegou
aos ouvidos do rei, que o chamou para adivinhar quem foi que roubou o seu
tesouro. Às vezes, os enganadores têm sorte
e palavras fora do contexto podem ser interpretadas de outra maneira. Gostei do
conto.
A raposa e o gaio
– Um Gaio fez o ninho numa árvore bem alta até que uma
raposa chegou, dizendo que se não desse um de seus filhotes, cortaria a árvore
e comeria a todos. Com medo o gaio o fez. Só que no outro dia, a Raposa voltou,
exigindo a mesma coisa do dia anterior... Outro conto em que a raposa é
superada em esperteza. Este também possui uma moral no final da história de que
“se perde pela vaidade os que mais espertos se julgam”. Também gostei desse
conto, apesar da morte de filhotes de passarinho.
A raposa que foi
ao galinheiro – Uma raposa rondava o terreno de um rico
lavrador em busca de um jeito de comer suas galinhas. Até que viu
um pequeno buraco e usou-o para entrar. Primeiramente, ia só estudar o local
para planejar melhor, mas ao ver o tanto de galinha, pato e peru, não resistiu
e comeu tudo, ficando com a barriga enorme... Nesse conto, a raposa foi esperta
e se deu bem.
A afilhada de S.
Pedro – Um casal pobre tinha vários filhos , sendo
o último uma menina. Envergonhados de terem que pedir para mais um vizinho
apadrinhar, o pai foi ao mundo com a menina procurar um padrinho. Até que um
mendigo, que na verdade era São Pedro disfarçado, aceitou ser padrinho da
menina, na condição em que não dissessem para ninguém que era uma garota,
vestindo-a com roupas de menino e a chamando de Pedro. Este conto possui o
clichê de uma pessoa invejosa que tenta acabar com o protagonista dizendo que
este é capaz de fazer tarefas impossíveis, mas o ajudante mágico do herói ajuda
a cumprir estas missões. Apesar disso, achei a história boa, só não gostei da
parte em que o homem velho se casa com a moça jovem.
A amendoeira e o
diabo – Era janeiro e o diabo estava entediado.
Foi então para Terra ver como estavam as coisas. Viu que a amendoeira já havia
florescido e como ele era guloso, decidiu esperar os primeiros frutos
amadurecerem para ser o primeiro a pegar. Essa é a primeira vez que vejo o
diabo sendo enganado por uma planta.
Os três grãos de
milho – Um homem vivia preocupado com sua esposa, pois ela não comia
nada a não ser três grãos de milho. O amigo sugeriu que ele se escondesse no
telhado para ver se a mulher não estava escondendo nada. Ele gostou da ideia e
falou para esposa que ia viajar e pôs o seu plano em prática. Um conto meio
bobo.
O compadre do
diabo – Um homem pobre tinha um compadre muito
rico. Ele era o diabo, mas o homem não sabia disso. Um dia, o diabo lhe fez uma
proposta: o homem podia semear o que quisesse em seu campo, desde que ele
ficasse com o que estivesse embaixo e o homem ficasse com o que tivesse em
cima. Adoro histórias em que a pessoa engana o diabo.
O tolo e as moscas
– Um homem meio doido estava cansado das moscas
pousarem em sua cabeça raspada e foi a um juiz prestar queixa contra elas. O
juiz, que já o conhecia, quase riu, mas o atendeu com seriedade, dizendo que
toda vez que o homem visse uma mosca, podia dar lhe uma palmada. O juiz devia
ter tido cuidado com as palavras...
Sumido sejas tu
como o vento – Num reino, havia uma princesa muito
estimada por todos. Um dia, quando brincava com seu noivo de pique-esconde, a
jovem não o achava e, irritada, falou: “Sumido sejas tu como o vento!” E o
príncipe sumiu, não o achando em lugar nenhum. Depois de um tempo, a moça foi
ao jardim cortar uma flor para pôr no cabelo até que ouviu uma voz perguntando
se preferia passar os trabalhos em nova ou em velha. Conto que mostra a
rivalidade entre um pai e seu genro, fazendo a garota escolher entre os dois.
Março Marçagão – Uma
mulher era muito preguiçosa e não gostava de trabalhar enquanto seu marido dava
um duro danado. Ele sempre pedia para ela coser, mas ela sempre dava uma
desculpa, até que ele falou que Março Marçagão iria aparecer e que se não
tivesse meadas, ela iria pagar... Este conto com certeza seria cancelado pelas
feministas. Pelo que pesquisei, Março Marçagão vem do ditado popular português
“Março marçagão, manhã de Inverno, tarde de Verão” que descreve o clima
imprevisível do mês de março.
São contos bons. Alguns têm aqueles mesmos clichês que já
vi em contos de fada, mas teve outros que achei interessante, como o das
histórias em que a raposa se dá mal, pois mostra que, algumas vezes, quem se
acha esperto e tenta dar o golpe em outro, pode se dar mal, e que alguém pode
superá-lo em esperteza. Também gostei dos textos que um personagem fala uma
frase e é interpretado de outra forma como em A fé é que nos salva e O
doutor Grilo.
Algo que se deve ter em mente quando ler este livro é que
a autora é portuguesa, por isso, terão algumas palavras que nós não iremos
entender. Como por exemplo quinteira e saloio. Tentei procurar o significado de
coifa, mas não tive sucesso.
Recomendo a leitura deste livro a todos que queiram
conhecer alguns dos contos de fadas portugueses. Se deseja ler este ou qualquer
outro livro da autora, te desejo sorte, pois os livros lançados dela aqui no
Brasil são raros. Este volume que analisei foi comprado em Portugal. Mas se
conseguir obtê-lo, cuidado. Não seja enganado pela raposa.
*Resenha do conto Noiva
Galhuda: Ponte
para o Imaginário: Os Melhores Contos de Fadas Nórdicos
**Resenha do livro O
Conto dos Contos - Pentameron: Ponte
para o Imaginário: Pentameron