sexta-feira, 24 de novembro de 2017

Memórias apagadas



            Como havia dito em uma postagem anterior, esta é a resenha do livro O Gigante Enterrado, livro mais recente do atual ganhador do Prêmio Nobel de Literatura, Kazuo Ishiguro.
            Axl e Beatrice são um casal de idosos que vive em uma cidade com tocas subterrâneas. Por algum motivo, eles e os aldeões não se recordam bem do passado e quando se fala um assunto e alguém fala de outra coisa, eles começam a falar dessa coisa, esquecendo praticamente o primeiro assunto, como se tivessem déficit de atenção. Suspeitam que seja a névoa que fica nas cercanias da aldeia. Tendo a vaga lembrança de seu filho, que saiu da aldeia anos atrás, o casal decide embarcar em uma viagem e procurá-lo.
            Interessante ver um casal de idosos como protagonista de uma fantasia medieval, o que é raro, pois normalmente são de adolescentes ou adultos que ocupam esse papel enquanto o idoso é, na maioria das vezes, o mentor do herói. Mas o casal também divide o ponto de vista narrativo com Edwin, um garoto saxão e Sir Gawain, antigo cavaleiro e sobrinho do rei Arthur, que também é idoso, que ao contrário dos outros, é narrado em primeira pessoa. Dentre o marido e a mulher, Axl é o que tem mais foco. O último capítulo é narrado em primeira pessoa por alguém que não havia aparecido no livro antes.
          A discussão principal desse livro é sobre a memória. Com essa névoa que faz as pessoas se esquecerem, há uma conversa entre Beatrice e Axl, durante sua jornada, se se vale mesmo a pena tentar acabar com ela, pois além de apagar as lembranças boas, ela também apaga as lembranças ruins. E, além disso, é demonstrado que por causa dela, a briga entre os bretões e os saxões foi deixada de lado, pois nenhum dos lados se lembrava direito dela. Entretanto, ao mesmo tempo, ela fazia as pessoas se esquecerem de coisas consideradas importantes, como o filho desse casal e onde ele estava, assim como outros pais esquecendo de seus filhos e até mesmo de sua existência. Então, estas são as questões: Vale a pena esquecer suas lembranças boas para apagar as ruins? Vale a pena esquecer tanto lembranças boas como ruins em prol de um bem maior? O Deus católico diz que melhor que perdoar é esquecer o que o outro fez de mal a você, mas um esquecimento forçado é realmente bom?
            Para um romance de fantasia medieval, achei meio lento. Teve um pouco de ação e a jornada de cada um dos personagens pode ser considerada uma aventura, porém o tom de melancolia e mistério foram o que mais chamaram a atenção nessa história. Não tenho mais nada a dizer a não ser que ele é mais do que uma aventura medieval, pois fará você refletir. Se for o tipo de leitura que você goste, não perca tempo e comece a ler. Não se esqueça!



sexta-feira, 17 de novembro de 2017

A sombra misteriosa


        Damian adentrou em Greenwood.  Treinava incessantemente para tornar-se um grande guerreiro.  Para isso, sempre penetrava naquela floresta combatendo os pequenos monstros que tentavam invadir sua vila.  Cada dia que passava, ele se sentia mais forte.
            Porém, matar aqueles monstrinhos não era o suficiente.  Precisava de uma missão de verdade.  Foi quando, retornando para Greenville, avistou um velho encapuzado, com um cajado na mão, perto de sua casa:
            - Oh, meu jovem!  Sinto em tua aura um espírito bravo e destemido.  Gostaria de lhe pedir um favor.
            - Quem é o senhor?
            - Sou o grande mago Olaf e vim aqui recrutar voluntários para lutarem contra o Lorde Ridden que está prestes a invadir estas cercanias com um exército de goblins e de criaturas subterrâneas.
            - Entendo.  Mas se o senhor é um mago poderoso, por que o senhor mesmo não acaba com ele?
            - Ridden possui a Manopla das Sombras que impede minha magia de alcançá-lo.  Aceita ou não?
            - Aceito, é claro.
            - Volta amanhã ao nascer do sol e falaremos de sua primeira missão.  Estarei na minha cabana, aquela choupana ali na margem do córrego.
            Ao chegar em casa, Damian não conseguiu se conter de tanta alegria e contou logo para sua mãe que assim reagiu:
            - Oh, meu filho!  Finalmente, você poderá realizar seu sonho.  Será um guerreiro extraordinário, igualzinho ao seu pai.  E esse mago Olaf é bem famoso e não conheço melhor mestre para você.  Antes de partir, irei preparar poções energéticas, pós mágicos e unguentos curativos, caso você necessite.  Nem acredito, meu filho em seus dezesseis anos se tornará num guerreiro.
            Quando escureceu, Damian saiu de casa.  Gostava de admirar as estrelas.  Naquela noite, porém, não houve estrelas.  Ao invés disso, viu uma silhueta grande se movimentando no céu, com formato de uma mulher, mas não era tão bem definida assim.  Correu e chamou sua mãe.  Quando retornou, nenhum traço daquela silhueta.  A mãe confortou o filho, em voz baixa:
            - Damian, você está cansado e começando a ver coisas.  Vai dormir que amanhã terá um longo caminho pela frente.
            Damian foi para a cama.  No entanto, tinha certeza de que o que vira não fora fruto de seu cansaço.
            No dia seguinte, Damian mal tomou seu desjejum e dirigiu-se ao local combinado com Olaf.  Quando entrou na cabana, o mago estava à sua espera sentado num pequeno banco de madeira:
            - Preparado para o seu teste?
            - Teste?
            - Acha mesmo que enviarei alguém despreparado para enfrentar o Lorde Ridden?  Começaremos com missões simples e depois as mais difíceis.  Mas, primeiro, preciso lhe testar.
            - E dará tempo de fazer tudo isso antes da invasão?
            - Sim.  Lorde Ridden é uma pessoa meticulosa, planeja tudo nos mínimos detalhes.  Ele demorará bons dias até que chegue aqui com seu exército.
            - Entendo.  Como é o teste?
            - Você irá penetrar bem fundo em Greenwood e trará a pele de um lobo de cor prata.  Para isso, tu precisarás de uma arma potente.
            O velho abriu o armário e pegou uma adaga com um cabo de ouro e deu para Damian:
            - Isto irá lhe ajudar.
            - Obrigado.
            - Boa sorte, jovem aprendiz.
            Damian seguiu seu caminho até Greenwood.  Mal entrou na mata e deparou-se com um bando de norlucks, criaturinhas verdes e gosmentas que quando eram mortas, davam agilidade para o seu matador.  “Será uma longa jornada.  Que bom que trago comigo as poções e unguentos que minha mãe me deu”. – pensou.
            Quando chegou quase no limite da floresta, avistou uma caverna.  Na entrada, cinco lobos prateados dormindo.  “Se eu atacar um deles, os outros irão acordar e me atacar.  Ataco ou não ataco?  Ataco.  Não tem outro jeito”.
            Damian partiu em direção ao lobo mais robusto, o que fez com que os outros despertassem.  Damian teve que gastar o pó do sono para que todos os lobos voltassem a dormir.  Matou apenas um deles.  Arrancou a pele que guardou na sua bolsa.  Decidiu levar a carcaça também, pois sua mãe poderia aproveitá-la no jantar.
            Quando retornou à vila, Damian foi direto à casa do velho mago e entregou-lhe a pele:
            - Eis a pele de lobo prateado.
            - Muito bem, meu jovem.  Passou no teste.  Vejo que teve uma boa luta contra os lobos.  Vai descansar.  Amanhã, eu lhe darei uma verdadeira missão, mas antes que saia, toma isto como recompensa.
            Olaf concedeu-lhe três moedas de ouro.  “Que bom, assim poderei comprar algumas poções” – pensou Damian.
            A mãe de Damian fez um saboroso cozido com a carcaça do lobo.  Damian pouco descansou e ajudou nos afazeres da casa.  A noite caiu rápida e Damian confirmaria se o que vira na noite anterior era ilusão ou realidade.  Saiu e avistou no céu um formato de mulher, só que bem mais definido.  Cabelos longos e corpo esbelto.  A figura se movimentava de um lado para o outro.  Ficou de costas.  Quando Damian se tocou no que ela estava fazendo, tapou os olhos com as mãos e pensou: “Ela está trocando de roupa!  Vejo um vulto de mulher no céu trocando de roupa!  Acho que preciso procurar outra distração”.
            No dia seguinte, Damian regressou à casa do sábio verificar qual seria sua primeira missão.
            - Bem, meu jovem.  Sua primeira missão será entregar esta joia à ninfa Potámi, que vive no Rio Makrys, que é guardado pelo troll Tork.
            Damian aceitou o desafio.  Já ouvira falar de Tork e sabia o quão difícil seria até aproximar-se do rio, por isso comprou muitas poções para se garantir.
            A luta contra o troll foi árdua.  Damian sentiu que devia beber uma poção, para ter mais energia.  Todavia, algo misterioso o impediu de tal intento.  Uma força desconhecida levou-o a desarmar o troll ao invés de beber a poção revitalizadora.  A sorte é que o troll morreu com apenas uma facada de sua própria adaga.  Porém, Damian achou tudo muito estranho.  É como que seu corpo e sua mente estivessem agindo separadamente um do outro, por um momento.  Ele parou de pensar nisso e entregou a joia para a ninfa Potámi que, por gratidão, deu-lhe outras poções e uma água miraculosa que desperta uma pessoa sem sentidos.  Damian não entendeu para que lhe serviria esse líquido se ele estava sozinho e não tinha ninguém para dar-lhe a água caso estivesse desmaiado.
            Voltando ao mago, este disse-lhe que a outra missão seria no dia seguinte.  Novamente, Damian viu a silhueta da moça no céu.  “Afinal, o que é você?  É imaginação ou realidade?  É boa ou má?” – pensou.
            Na manhã seguinte, Olaf decretou a segunda missão: capturar um kabaly, uma criatura muito rara que possui orelhas de coelho, cabeça e corpo de gato e asas grandes que parecem as de uma borboleta.  Damian o encontraria na Caverna Azul, onde mora um ogro muito poderoso.
            Damian, seguindo uma trilha, chegou até à caverna, munido de suas poções.
            No combate com o ogro, sentiu de novo aquela sensação de que sua mente e seu corpo não trabalhavam em harmonia.  Estava perdendo a luta, sentindo que ia desmaiar e suas mãos não se mexiam para alcançar a poção.  Passado meio minuto, Damian fechou os olhos e despencou-se no chão, imóvel.
            Entretanto, transcorrido outro meio minuto, Damian despertou com todas as energias recuperadas.  Olhou em sua mochila e notou que sua água mágica não estava mais lá.  Quem a usara nele?  Não podia ser o ogro, seu adversário, que, atônito, supunha que o tivesse derrotado.  Será que era essa força misteriosa que anda controlando-o?  “Será que estou sendo possuído por algum espírito?” – pensou Damian.
            Refeito, Damian não demorou em derrotar o ogro apalermado.  Porém, demorou muito para achar o tal kabaly, bem escondido no fundo da caverna.
            O bichinho foi entregue ao mago.  Damian desabafou, contando-lhe o ocorrido, seus pensamentos e suas suposições de estar sendo possuído.  Olaf não acreditou na sua teoria, pediu – lhe para descansar, pois isso era fruto do cansaço em demasia.  E que apesar de tudo sua próxima missão não seria adiada.  Seria amanhã e mais difícil ainda.
            E o estranho vulto noturno voltou a aparecer naquela noite.  Será que aquela aparição estava por trás da posse de seu corpo?  Fora ela que dera a água mágica quando inconsciente?  Tudo não passaria de alucinação?  Não, não era.
            Na terceira e quarta missões, Damian comprovou que não conseguia mais controlar seu corpo na hora dos embates.  Era como se seu corpo ganhasse vida autônoma e pensamento próprio, separado dele.
            Confuso e um pouco desolado, Damian retornou à cabana de Olaf, após a quarta missão.  O mago disse:
            - Jovem aprendiz, seus esforços foram reconhecidos pelo Conselho de Feiticeiros.  Amanhã, receberemos a visita de uma grande conselheira.  Sua magia é tão poderosa que pode atravessar dimensões.  Ela é sábia e detentora de segredos jamais conhecidos pelos ouvidos humanos.
            - Talvez ela seja capaz de saber quem anda controlando meu corpo...
            - Não seja tolo, meu jovem.  Isso deve ser sua imaginação.  Não gaste o tempo da grande maga com bobagens.
            - Mas...
            - Sem mas!  Vai para casa e prepare-se para o encontro.
            Damian obedeceu.   Após o jantar, Damian, curioso, foi até à janela de seu cômodo.  Viu aquele vulto.  Esfregou os olhos.  Lá permaneceu, mais nítido.  Nem ligou.  Foi para a cama.
            Horas depois, despertou num sobressalto.  Ansioso pelo encontro com a Grande Conselheira, nem parou para comer.  Porém, para sua surpresa, o céu ainda estava escuro.  “Que esquisito!  Estava crente que já era de manhã” – pensou ele.  Decidiu voltar a dormir.
            Três horas passadas, Damian sentou-se e olhou pela janela.  Continuava escuro.  “Não é possível!  Já era para estar claro!”  Foi até o cômodo de sua mãe acordá-la.  Para seu terror, ela não acordava.  Ele chacoalhou, gritou e ela não se movia.  Desesperado, saiu para pedir ajuda.
            Correu com as pernas bambas até o vizinho mais próximo.  Bateu palmas, bradou, mas ninguém atendia.  Foi até à cabana de Olaf e nada.  Era um pesadelo longo e sofrido.  Era como se todos estivessem num sono profundo numa noite sem fim.
            Damian caminhou cambaleante até a floresta.  Os animais que conseguiu visualizar estavam inertes como estátuas.
            Ergueu o pescoço e olhou para o céu.  Nem o vulto da mulher estava mais lá.
            Deitou-se na grama e ficou fitando o céu.  Não soube dizer quanto tempo.  Horas?  Dias?  Semanas?  O tempo não parecia passar.  A noite sempre noite.  Fome e sede, não precisava se preocupar pois por algum motivo não os sentia.
            Quanto ao estranho vulto, ele não desaparecera completamente.  Aparecia e se movia por alguns minutos e sumia, reaparecendo horas depois, raramente.  A cabeça de Damian girava.  Tudo imóvel.  Apenas o vulto tinha vida.  “Desde que você surgiu, minha existência tornou-se confusa, indecisa, imprecisa.  Tenho passado dias observando-a e me pergunto se não é você que possui o meu corpo na hora da contenda.  Sendo ou não sendo a causa de tudo isso, estou exausto de ficar parado olhando para você”.
            Damian levanta-se e urra com toda a força para a sombra celeste:
            - Ei, você!  Pode me ouvir?!
            A figura da moça postou-se de frente.  Damian não conseguia ver os olhos, mas sua expressão facial era de uma pessoa surpresa, confusa.
            - Desde que apareceste, minha vida tem estado cada vez mais sem sentido.  Primeiro, a sensação de estar sendo controlado nas lutas.  Segundo, alguém desconhecido deu-me a água mágica.  Terceiro, o mundo todo ficou paralisado, menos eu.  Isto tudo é obra tua?
            Não houve resposta.  Damian exasperou-se:
            - Por favor, faça tudo voltar a ser o que era!  Eu lhe imploro!
            A expressão da jovem parecia mais confusa do que antes.  “Por favor!” – pensou de olhos bem fechados, quase chorando.
            A sombra se mexeu e crescia como se estivesse indo em direção ao clamor de Damian.  Foi se aproximando até que... O sol despontou no horizonte.  As criaturas traçaram movimentos suaves.  Tudo ganhou vida.
            Damian correu para casa.  Logo que entrou, viu sua mãe na cozinha.  Deu-lhe um abraço apertado e um beijo.  Bebeu seu leite morno, deliciou-se com o pão e foi para a cabana do mago.  Estava feliz que tudo tinha voltado ao normal.
            Narrou a vertigem ou pesadelo quase infindável ao mago.  Porém, Olaf encarou-o decepcionado e disse:
            - Menino!  Quando você aprenderá a diferença entre sonho e realidade?!
            - É verdade, eu juro!
            - Não é hora para isso!  Temos coisas mais importantes a tratar.
            Ao lado de Olaf, havia uma mulher alta e magra.  Rugas cobriam sua face.  Trajava um vestido longo e preto e portava um chapéu pontudo.
            - Damian, esta é a Grande Conselheira da Magia.  Ela veio aqui te conhecer e te dar algo para seguires na tua jornada.
            - Encantado – disse Damian, fazendo uma reverência.
            - Encantada – disse a senhora. – Bom, como Olaf disse, vim presentear-te com algo útil para tua jornada.  Mas, quem decidirá o que será, serás tu.
            - Então, a senhora está me dizendo que atenderá um desejo meu?
            - Um desejo que seja útil para sua jornada, por isso, pense com cuidado.
            Damian pensou por um tempo.  Seus pensamentos estavam tão focados no que lhe havia acontecido recentemente que era difícil decidir.  Até que por fim, falou:
            - Eu quero que a senhora traga o ser que tem me controlado todos esses dias.
            - Garoto, você está maluco? – disse Olaf, zangado. – Pedir à Grande Conselheira algo inexistente.
            - Na verdade, esse algo existe – retrucou a maga, em tom sério.
            Os dois olharam para a conselheira, curiosos.
            - Eu ouvi a história que tu contaste ao Olaf, meu jovem, e creio que seja verdade – iniciou a feiticeira. – Pesquisas que fiz durante todos esses anos me levaram a crer que nosso mundo está conectado a outro.
            - Então, o que esse garoto relatou tem a possibilidade de ser verdade? – perguntou Olaf.
            - Sim.  E acho que este ser que anda controlando a vontade deste jovem durante suas batalhas pode ser útil.  Podemos aprender e também ensinar muitas coisas a essa entidade e assim derrotar Lorde Ridden.  Afastem-se!  Tentarei invocar esse ser.
            Olaf e Damian deram um passo para trás.  Ela cerrou os olhos e sussurrou palavras irreconhecíveis.  Mexia as mãos e delas saía um pó azul parecido com purpurina.  A Conselheira manteve esse ritual por alguns minutos até que por fim fez um rápido movimento com as mãos, jogando o pó azul mágico no chão.
            Da purpurina azul surgiu uma jovem.  Tinha cabelos presos por um prendedor, usava óculos, trajava uma camisola rosa e segurava um mouse de computador.

THE GAME CONTINUES

sexta-feira, 3 de novembro de 2017

Fronteiras do Universo parte 2: Protagonismo Duplo?


Indo para o segundo livro da trilogia, A Faca Sutil, vemos que houve mudança. Esta capa parece ser desenhada em um formato 3D, mais realista, enquanto a antiga parece ter sido desenhada a mão. Mas isso é achismo meu, pois não entendo esse tipo de coisa. Uma mudança interna que eu notei foi a troca da palavra daemon para dimon, que sonoramente é a mesma coisa.
Will era um garoto de 12 anos que vivia com sua mãe, que achava que estava sendo perseguida por gente que não existia. Mas depois, homens estranhos começaram a ir para a sua casa à procura de algo deixado pelo pai de Will. Como eles deixavam a mãe assustada e não paravam de ir a sua casa, Will deixou a mãe com uma pessoa de confiança, voltou para casa e procurou o que o pai supostamente havia deixado. Ao achar, tirou um cochilo, até notar que sua casa estava sendo invadida pelos mesmos caras. Conseguiu fugir, mas acabou por matar um dos homens acidentalmente. Em sua caminhada pela cidade achou algo que parecia ser uma janela, que dava para um lugar diferente do que conhecia. E entrou.
Já pelo resumo, se nota que a história não é apenas de Lyra, como era no volume anterior. O foco é tanto em Lyra quanto Will. Tem capítulos que focam também em Lee Scoresby, Serafina Pekkala e um capítulo na doutora Malony, só que todos eles são encaixados na jornada das duas crianças. Apesar da introdução de Will deixar a história mais interessante, eu não gostei do jeito como Lyra fora reduzida de protagonista independente e corajosa, para uma simples ajudante do menino. Ainda mais que nesse e no outro livro foi mencionado que o destino dela era importante. Entendo que ela estava em um mundo diferente do que conhece, mas mesmo assim achei a mudança drástica demais. Espero que o terceiro volume retorne.
A Faca Sutil tem uma quantidade pequena de capítulos comparada com os outros dois livros da coleção, contendo apenas quinze capítulos. Porém, teve bastantes revelações. Algumas surpreendentes e outras previsíveis. Já havia previsto como um dos personagens do livro ia morrer só com algumas poucas descrições de um capítulo anterior. E claro, como no primeiro livro, foi fechado com um cliffhanger.
Como no anterior, a saga de ciência vs religião continua, sendo reveladas mais informações sobre o Pó. E é claro, da guerra que Lorde Asriel está planejando. Acho que os católicos ultra religiosos não iriam gostar desse livro, já que SPOILER, Deus aparentemente é do mal nessa história, assim como a sua igreja. Acho que ninguém deveria ser religioso a ponto de ficar ofendido com o que uma obra literária diz. Foi lançado o seriado Deuses Americanos, baseado no livro de Neil Gaiman, que envolve vários deuses mitológicos, de culturas africanas e asiáticas e inventados pelo próprio autor. Nem por isso, vejo gente reclamando com relação a religião. Pretendo ler esse livro algum dia. Bem, isso é tudo que eu tenho a dizer por agora. Vejo vocês no próximo volume. 

sexta-feira, 27 de outubro de 2017

Ganhador do Prêmio Nobel de Literatura 2017



         Este ano, o ganhador do prêmio foi Kazuo Ishiguro. Ele nasceu no Japão, mas foi para a Inglaterra aos seis anos de idade. Escreveu obras como Os vestígios do dia (1989), que conta a história de um mordomo que trabalhou durante anos na mansão de um lorde. Quando sai em viagem, relembra os momentos de trajetória de seu ex-patrão, que simpatizava com o nazismo, assim como suas próprias paixões. Esse livro tem uma versão cinematográfica de 1993. Quando éramos órfãos (2000), que conta a história de um garoto inglês nascido em Xangai, que vai à procura de respostas para o sumiço de seus pais, que desapareceram quando tinha nove anos. Não me abandone jamais (2005), ficção científica em que a personagem Kathy relembra os anos em que viveu em um orfanato em que todos os alunos eram clones, produzidos como peças de reposição. Essa história também foi para os cinemas em 2010. Seu romance mais recente foi O gigante enterrado (2015), que se aproxima mais da fantasia.
            Dá para ver pelos resumos que suas histórias variam e ele não é um autor de um só tema, o que eu acho raro. Pretendo ler O gigante enterrado e fazer uma resenha para o blog. Deve demorar um pouco, pois a fila de livros que tenho para ler é grande. Mas prometo que ela virá. Se eu gostar, devo dar uma olhada no Não me abandone jamais, pois me parece interessante, apesar de não ser do estilo fantasia que eu tanto adoro. É bom variar de vez em quando.


sexta-feira, 20 de outubro de 2017

Apollo e Diana: O encontro parte 10

Parte 10

            Estavam pensando em um jeito para ir em direção ao vulcão sem precisar dar a volta. Mas se fossem cavalgando em Rosemary em linha reta da cidade para a floresta depois da floresta para o vulcão, não ia ser nada confortável, além de ter o risco de ela tropeçar e todos caírem, podendo se machucar feio. Foi então que Alana perguntou:
            - Você ainda tem o pozinho de encolher que você disse que usou para nos trazer aqui no seu mundo?
            - Tenho sim, por quê?
        Olhando para sua cópia, Lana entendeu qual era o plano. Rosemary olhava para as duas, confusa. Alana colocou Bot na grama e disse:
        - Bot, se prepare para nos levar até o vulcão com cuidado. E, se possível, nos segure com delicadeza.
            - Sim mestre.
            - Espere, o que vocês pretendem fazer?
          Sem explicar, Lana pegou o pó de encolher e jogou em Alana e Rosemary depois em si mesma. As três encolheram e se Bot não as tivesse agarrado com suas mãos pequenas, que no momento pareciam enormes para o trio, teriam se quebrado no chão:
            - Eu não permiti isso!
            - É necessário, Rosemary. Agora, vamos em direção a Montanha Vermelha.
            - Para que lado devo ir mestre?
            - Para que lado ele deve ir?
            - Vai em direção a floresta e siga em frente. – respondeu Lana, olhando o mapa.
            - O que ela disse Bot, vá em frente.
            Bot fez um barulhinho e seus pés começaram a lançar fogo. Asas de metal saíram de seus braços e mãos e lançou voo. Passou rapidamente pela cidade, mas como a floresta era grande, demorou mais ou menos uma hora até as árvores diminuírem de quantidade, tendo plantas rasteiras como paisagem dominante. Estava indo tão rápido, que as moças pediram para que ele desse umas paradas, pois estavam ficando enjoadas ou por estar na hora de comer. Mesmo indo nessa velocidade, demoraram um dia e meio para chegar perto do destino. Alana pôde ver uma montanha em frente, que era vermelha nas dos lados e verde na ponta. Descobriu depois o porquê. O entorno da montanha estava cercado de flores, vermelhas como sangue. Por algum motivo, não parecia estar tremendo aquela parte. Então aproveitaram para aterrissar. Bot as colocou em cima de uma das flores, a pedido de Alana. Esta notou que a energia de Bot estava acabando e, estando de noite, ele não podia recarregar:
            - Agora, vamos ter que ir a pé. Não falta muito para a bateria de Bot acabar. Precisamos poupar a energia dele o quanto puder. Tem como você nos reverter ao tamanho normal?
            - Eu tenho o pó da reversão.
            Dizendo isso, Lana pegou outro saquinho de pó e jogou o pouco que parecia ter no trio. As três logo recuperaram o seu tamanho normal:
            - O pó de reversão acabou. Não podemos mais ficar pequenas, senão ficaremos daquele tamanho por um bom tempo. Isso se não morrermos comidas por um pássaro.
            Alana colocou Bot em seu colo e apertou um lugar abaixo do seu pescoço. O bichinho logo apagou as luzinhas de seus olhos e parou de se mexer completamente. Lana pegou um outro mapa, específico do vulcão, e foi guiando o grupo na frente. O antigo vulcão era muito alto e largo, parecendo ser todo fechado:
            - Como vocês pretendem encontrar esse deus?
            - A Montanha Vermelha, ou Igneus está fechada há séculos, evitando que o deus escapasse. Havia dois meios de entrar. Um era pela cratera e o outro era pelo grande portão, que só era acessado pelos deuses. Esse portão fica aqui por baixo, e é por ele que vamos entrar.
            Andaram por mais meia hora até chegarem as ruínas de um portão. Como era de se esperar, ele estava fechado. Mas havia uma grande rachadura que dava até para um unicórnio passar:
            - Por que esse deus não aproveitou isso para escapar? – sussurrou Alana.
            - Porque escapar não é sua prioridade. O que ele quer é se vingar, queimando tudo.
            - Gente, eu estou cansada e com fome. Não é uma boa hora para batalhar com um deus.
            - Se descansarmos agora, teremos apenas um dia.
            - Mas se não descansarmos, não terei energia o suficiente para controlar a chuva e vamos morrer queimadas.
            - Está bem. Mas vamos ter que acampar aqui fora usando isto.
            Ela pegou dois colchonetes da bolsa, que para Alana, parecia caber o infinito, e pegou três cobertores, dois de solteiro e um de casal, que tinha uma coloração cinza como rocha:
            - Você está sempre bem preparada...
            - Fui treinada para isso.
            Cada uma das moças pegou um colchonete e um cobertor. Rosemary dormiria na grama com o lençol de casal. Não gostava de dormir deitada, pois se sentia desprotegida se caso precisasse correr. Dormia normalmente em pé, como os cavalos. Mas para se camuflar, precisava ficar deitada, então ficaria deitada. Alana colocou Bot ao seu lado na hora de dormir. Estava ansiosa para que tudo isso acabasse e fosse para casa com o monte de informações que havia conseguido. Sentia falta de casa e, apesar de tentar não demonstrar, estava com medo de entrar no vulcão. Lana também estava ansiosa. Não de medo, só queria enfrentar o deus e conseguir um feito que poucos conseguiram na Alcateia. Com certeza seria mais admirada por eles do que já era.
            Acordaram cedo e comeram logo seu lanche antes de entrarem no vulcão, que estava aos poucos despertando. Alana aproveitou um pouco do sol para recarregar Bot. Não carregou muito, porém qualquer coisinha poderia fazer a diferença em uma batalha contra o desconhecido. Lá dentro, tinha uma aparência similar a de uma caverna, só que ela era iluminada por pedras vermelhas, que pareciam rubis. Alana ficou tentada a arrancar uma, mas estavam bem presas. Quanto mais fundo entravam, mais quente ficava. Também tiveram que tomar cuidado com o chão, pois havia pequenas fissuras com lava ainda fresca.
            Chegaram ao que parecia ser a sala do trono de Igneus, com uma piscina grande de lava no centro. O deus estava de costas, perto de seu trono. Ele era tão grande quanto Lacus, mas seu corpo era feito de lava quente e borbulhante. Seu cabelo era fogo amarelo vívido. Lana pegou a caixa arredondada, se virou para o grupo e sussurrou:
            - Bem, essa é a nossa chance. Vamos...
            Por pouco, elas não desviam de jato de lava que veio na direção delas:
            - Visitas! – disse Igneus se virando para elas. – Faz muito tempo que não recebo ninguém em minha humilde residência.
            Mas lava vindo da “piscina” era jogada sob elas. Chegou a acertar de raspão no ombro de Alana. Ardeu muito:
            - Sabe, é muito bom receber vocês aqui. Assim posso me exercitar um pouco antes da verdadeira destruição começar. Então...
            Surgiram chamas em suas mãos e as de sua cabeça aumentaram muito:
            - Vamos começar!
            E jogou lava em chamas vindo de suas mãos em direção a elas. Elas desviavam, mas alguns tiros, da piscina ou do próprio Igneus, acertavam de raspão várias partes de seus corpos. Alana ligou Bot. Este se mexeu e olhou confuso enquanto sua mestre desviava dos tiros de lava:
            - Mestre, o que está acontecendo?! – perguntou ele, pela primeira vez demonstrando medo.
            - Não há tempo a perder. Dê a caixa para Bot!
            Lana entendeu o que a outra queria fazer. Estendeu a caixinha para Bot. Sua mestre então ordenou:
            - Voe até lá em cima e abra essa caixa. E muito cuidado com a lava.
            Bot ativou suas asas e o fogo em seus pés e foi até o teto. Desviou o máximo que pôde dos jatos de lava, mas um deles acertou parte de uma das asas metálicas, fazendo-o pegar fogo. Ainda assim, ele conseguiu abrir a caixa, surgindo uma grande nuvem, caindo várias gotas d’agua pesadas no grupo e em Igneus. O deus gritou de dor e a lava se tornou lama:
            - Agora, Rosemary!
            O chifre da unicórnio brilhou. As gotas, ao invés de evaporarem ao tocar no deus se fixaram em seu corpo. O deus ficava se mexendo muito, tomado pela dor. A chuva parou e Rosemary disse, ainda forçando seu poder:
            - Vai rápido! Não vou aguentar por muito tempo.
            Lana pegou uma pequena zarabatana de madeira e depois a semente que a deusa Flos havia lhes entregado. Colocou-a na arma e soprou em direção ao deus, acertando-o em cheio na barriga. A semente cresceu, se espalhando por todo o seu corpo e o prendendo no chão. Ele deu um último grito, que parecia mais um urro, antes de virar uma estátua de planta. Rosemary relaxou, tentando recuperar o fôlego. Alana olhou em volta procurando algo:
            - Cadê o Bot?!
            Lana o achou do outro lado, com a asa queimada e todo molhado. Alana olhou quase chorando:
            - Eu farei o possível para consertá-lo. Não se preocupe.
            - Consertá-lo com o quê?! Madeira? Vocês podem ser mais desenvolvidos em tecnologia do que eu pensava, mas nenhuma matéria daqui poderá substituir o que ele perdeu.
            - Calma, daremos um jeito, prometo.
            - É, resolvemos qualquer problema. Mas vamos sair daqui primeiro. Esse lugar me dá arrepios.
            Lana e Rosemary saíram de dentro da montanha vitoriosas. Alana estava ansiosa para voltar para casa. Precisava dar um jeito de Bot voltar a funcionar. Senão como voltaria para casa? E com quem conversaria naquele pequeno apartamento onde morava? Lana ainda o segurava:
            - Você já pode me devolvê-lo para...
            Mas não conseguiu terminar a sua frase. Homens com capacete e vestimentas cinza estavam perto do portão esperando. Foram rápidos. Usaram uma arma para apagar as memórias das moças e do unicórnio antes que elas pudessem reagir. Elas ficaram zonzas, então as nocautearam com um golpe de alguma arte marcial. Mas o quadrupede ainda estava de pé, e quando ia ataca-los, um senhor mais gordinho atirou com uma arma de choque e logo a fez desmaiar. Os homens pegaram uma das moças e o robô e saíram de lá. O homem obeso usou o seu telecomunicador para dar as notícias para o chefe, dando o sorriso, mostrando seus caninos dourados:
            - Pegamos a garota e o robô de volta.
            - Usaram os apagadores de mente?
         - É claro senhor. Quando acordarem, não se lembrarão de nada. Estaremos aí em cima em breve.
            Rosemary acordou, ainda meio tonta. Mas logo se lembrou do ocorrido. Olhou para o chão e viu a moça ainda desacordada:
            - Ah não! Aqueles homens esquisitos a pegaram. – Rosemary encostou o nariz na garota. – Acorda! Acorda!
            Ela ainda estava meio zonza do ataque. Sua cabeça ainda girava e doía. Mas conseguiu abrir os olhos quando viu o unicórnio, Lana do planeta Apollo se afastou, assustada e confusa.                      

                                                           FIM?

sexta-feira, 13 de outubro de 2017

Apollo e Diana: O encontro parte 9

        Parte 9

            Uma semana se passou. Os tremores já tinham chegado perto da lagoa, mas não eram tão fortes quanto Alana esperava. O homem deve ter exagerado quando mostrou o resultado. Pensou ela. Mas mesmo assim era alarmante. Incomodava quem passava pela floresta. Quase não dava para andar direito. Enquanto isso, Rosemary exercitava a sua manipulação de água na torneira. Ela dizia que já conseguia fazer uma gota se mexer, porém não tinha muita credibilidade em suas palavras.
            Rosemary decidiu que já estava pronta para fazer isso com um copo com água, e então foi isso que tentou fazer. Não moveu nenhuma gota. Alana anotava tudo em Bot. Não deixava escapar uma coisinha sequer e estava fazendo isso naquele exato momento, sentada no sofá. Impaciente, Lana bateu na mesa, fazendo o copo derramar o líquido:
            - Viu só?! Estou conseguindo. – disse Rosemary quando aconteceu a ação acima.
            - Está nada! Fui eu que derramei. Isso está demorando demais! Precisamos nos apressar e chamar alguém mais experiente.
            - Está pensando em chamar outro unicórnio?
            - Não apenas um unicórnio, mas algum que já trabalhou para Alcateia.
            - Vai chamar alguém da Alcateia? Ficou maluca?! Nós estamos no topo. Se chamarmos alguém, parecerá que não somos boas o suficiente para o trabalho. E ainda por cima um unicórnio?! Somos solitários e bons o suficiente para precisar da ajuda de outros.
            - Mas sempre achei que cavalos andassem em grupo. – disse Alana, se intrometendo na conversa, mas ainda com os olhos para a tela detrás da cabeça de Bot.
            - Não somos cavalos! E por que você ainda está aqui? Seu objetivo aqui já foi concluído. Volte para a sua casa!
            - Se eu pudesse, já teria ido. Aqui não tem sinal para eu chamar ajuda. Então vou aproveitar e ver como o povo daqui se comporta.
            - Nossa, que trabalho legal. – falou Rosemary sarcástica. – Mas voltando ao assunto, não vou usar o meu chifre para chamar um unicórnio.
            - Não. Não vamos usar seu chifre para chamarmos um unicórnio. Usaremos o seu chifre para teletransportá-lo para cá.
            - Unicórnios não têm poder para fazer isso.
            - Eles têm com a ajuda desse cristal.
            Lana tira um cristal violeta da sua bolsa. Ele tinha dois furos com uma fita dentro deles, com a utilidade de prender o cristal no punho, ou nesse caso, no chifre:
            - Comprou isso daquela moça do mercado? – perguntou Alana, ainda digitando.
            - Como você... Ah esquece. Vamos testá-lo. Nunca usei um desses. Vamos lá para fora!
            - Eu já disse que não quero.
            - Precisamos salvar as pessoas, Rosemary.
            - Eu disse que...
            Lana puxou Rosemary pelo chifre. Mesmo sendo mais forte que ela, o chifre era algo que dependendo do jeito, poderia se rachar. Lana só pegava nele quando a situação era de urgência. Então, Rosemary foi lá fora com ela. Alana parou de digitar e foi correndo segui-las, carregando Bot no colo. Não queria perder nada.
            Foram em direção da fronteira da cidade com a floresta. Ficaram obviamente, no lado de pedra, pois uma pequena andada para o lado verde já daria para sentir uma tontura. Lana amarrou o cristal cuidadosamente no chifre de Rosemary e disse:
            - Vai lá e faça o que eu te pedi. A vida de todos daqui depende disso. E não só as humanas.
            O grupo ficou em silêncio. Os únicos sons que davam para ouvir eram os dos tremores da floresta e das rodas de carroça na cidade. Que para falar a verdade, atrapalhavam muito na hora dela concentrar. Mas Rosemary foi persistente. Fechou os olhos. Seu chifre brilhou, o que fez o cristal preso a ele transmitir uma luz da cor roxa na grama. Ao parar com brilho, na frente deles, quase não conseguindo ficar em pé por causa dos tremores, estava um unicórnio todo branco, com uma barbicha de bode perto da boca:
            - O que foi isso? Onde estou? Por que a terra está tremendo?
            - Funcionou!
            - Esse tipo de energia me faz lembrar as máquinas teletransportadoras lá do meu mundo. Será que...
            - Pai?!
            - Rosemary?
            O velho unicórnio saiu da grama da floresta e foi para a parte da cidade, retomando o seu equilíbrio e sua compostura:
            - Eu estava pastando no meu campo até sentir algo me puxar...
            - Eu te teletransportei para cá com essa pedra mágica no meu chifre.
            - É, eu já vi uma dessas há uns seiscentos anos atrás. – disse ele olhando para o cristal. – Por que me trouxeram aqui?
            - Precisamos que Rosemary aprenda o domínio da água.
            - Isso ela aprenderá sozinha, quando for mais velha.
            - Precisamos que ela aprenda logo. Essa cidade depende disso.
            - Unicórnios não ajudam uns aos outros. Temos orgulho próprio.
            - Viu! Eu te falei.
            - Mas antes, éramos unidos. Trabalhando em equipe. Ninguém se achava melhor que ninguém. Sinto saudades desses dias de potro. Quando o bando se separou, só nos juntávamos para cuidar dos filhotes. Depois que eles cresciam, cada um seguia o seu caminho. No meu caso, eu fui trabalhar com os humanos e outros seres na Alcateia.
            - Eu sou da Alcateia, pai.
            - Você é? Então deixe esse orgulho de lado. Se é urgente, eu vou te ensinar. Mas não espere que eu dê mole para você só porque é minha filha.
            - E nem quero que você dê.
            - Então, vamos para outro lugar. Aqui treme muito.
            - Tem um campo com um riacho no outro lado da cidade. – disse Lana. – Mas será uma caminhada mais longa.
            - Tudo bem, estou precisando fazer uns exercícios. Mesmo já tendo dois mil e quinhentos anos, é bom estar em forma. Mas vão devagar. Eu não corro mais como corria antigamente.
            A caminhada até o outro lado da cidade demorou umas duas horas, não contando a parada que o grupo fez para almoçar em um restaurante. Alana ficou impressionada que lá havia lugares para unicórnios, gnomos e outros seres grandes e pequenos quando comparados ao tamanho humano. Ela até viu um casal de gnomos sentado à mesa. Conseguiu que Bot tirasse uma foto deles escondido. Não ficou tão boa, mas ainda dava para ver. Ele tirou mais fotos de Rosemary e seu pai quando chegaram ao riacho. Essas sim ficaram perfeitas. O ambiente era tranquilo. Tinha poucas árvores, sendo mais dominado pela grama. O pequeno rio era bem limpo e tão transparente que dava para ver os peixes nadando.
            Demorou quatro dias para ela se especializar na dominação de água, o que para um unicórnio que só aprende com pelo menos mil anos, foi muito rápido. Mas os tremores já haviam chegado em Ouro Branco. E só restavam três dias para resolver o problema. O velho unicórnio então se despediu do grupo, no lugar de treinamento:
            - Sabe, eu estou orgulhoso de você Rosemary. Tenho certeza que irão conseguir. Se eu pudesse, até iria com vocês. Mas não sou mais jovem como era antes. Não corro mais tão bem e minha magia já não mais tão forte quanto era antes. Me mande de volta para casa, querida.
            - Pode deixar.
            - Longa vida a Alcateia!
            Como Rosemary não conseguia usar o cristal para teletransportar o seu pai, ele teve que ir trotando para além do riacho. O grupo ficou lá até ele desaparecer de vista. Com tudo preparado, estavam prontos para ir em direção ao antigo vulcão.


sexta-feira, 6 de outubro de 2017

Como se chega a Lugar Nenhum?



         
           Lugar Nenhum
foi escrito por Neil Gaiman, nascido em Portchester, Reino Unido. Um autor bastante conhecido por suas histórias que misturam a nossa realidade com a fantasia, tendo seus protagonistas percorrido por ambos os mundos. Mas o principal que tenho a destacar é a narrativa dividida pelo ponto de vista de mais de um personagem.
            Existe uma semelhança entre Lugar Nenhum, Stardust (1999) e O livro do cemitério (2008), todos escritos pelo mesmo autor, que é a mudança de foco, tendo pelo menos três pontos de vista de personagens. Outra característica é que em Stardust também existe um mercado mágico, com a diferença de que as pessoas normais podem se misturar com seres fantásticos. A mudança de perspectiva de cada personagem é uma técnica muito utilizada na arte cinematográfica e na teledramaturgia, em especial em minisséries, o que me fez perguntar se o autor é roteirista. Descobri que ele é sim, o que faz sentido, pois este livro joga muito com o leitor, fornecendo-lhe informações e ocorrências que os protagonistas não sabem, dando-lhe participação no enredo, como um simpatizante, torcendo para que nada de ruim lhes ocorra. E ainda, este romance é uma versão de uma série de tevê de mesmo nome, lançada no dia 12 de setembro de 1996, sendo que o livro veio a público quatro dias depois.
            Outro fato interessante é o uso dos nomes da estação de metrô de Londres para criar algo, como por exemplo a Earl’s Court (corte do conde) que tinha mesmo uma corte com um conde no comando.

A edição deste livro, feita pela editora Intrínseca, é cuidadosa, pois, além de conter o mapa do metrô de Londres atrás da orelha, tem um segundo prólogo e o conto Como o marquês recuperou seu casaco (começado em 2002 e terminado em 2013), uma “continuação” que está relacionada a um dos personagens principais, no final do livro.  



Os personagens principais, tanto os protagonistas como os antagonistas, são bem desenvolvidos devido a cada um ter tido o seu ponto de vista relatado na história. Richard era um rapaz bom que tinha uma vida normal até se meter numa enrascada quando decide ajudar uma garota chamada Door, fazendo todos esquecerem sua existência. Acontecendo isso, ele vai à procura dela na esperança de que Door resolva seus problemas e tudo volte como era antes, indo assim para o Submundo. Ele age como um peixe fora d’água quando vai ao submundo. Door é uma moça boa e gentil que está sendo perseguida pelos vilões e que tenta fazer o possível para sobreviver. O marquês De Carabás é típico trickester (enganador), o que diz muito com o seu nome pois ele vem do conto O gato de botas, quando o gato ludibria os outros, falando que o seu mestre era o grande marquês De Carabás. O próprio ajuda Door na fuga porque tinha uma dívida a pagar com o pai da garota. Hunter é uma guarda-costas séria. Os capangas do vilão, senhor Croup e senhor Vandemar, são sádicos e violentos, mas têm um certo humor em relação a eles dois, pelo senhor Vandemar não ser tão esperto quanto o senhor Croup, lembrando a relação entre Horácio e Gaspar do filme 101 dálmatas. Existem mais pontos de vistas, mas não direi aqui para a pessoa descobrir por si só.

            De uma forma geral, tive uma leitura agradável. Literatura juvenil fantástica é minha favorita entre todas. Porém, houve algo que me incomodou. Apesar de ser interessante ter visões de vários personagens na história, quase não houve mistério por causa disso. Principalmente quando focava nos vilões. A pessoa que estava por trás do que havia acontecido com a família de Door foi revelada antes mesmo dos heróis descobrirem, enquanto eu como leitora já sabia. Nesse caso eu preferia ter o elemento surpresa e ter descoberto junto com os protagonistas. Seria melhor se os pontos de vista ficassem apenas nos protagonistas.
            Fica a seu critério conhecer ou não o Submundo. Mas lembre-se: assim que entrar nele, você não vai querer mais sair.